As irmãs são o coração de Jane Austen

Jane Austen escreveu algumas das histórias de amor mais famosas da literatura e, dois séculos depois, continuamos voltando a Darcy, Wentworth, Knightley, Edward Ferrars ou Colonel Brandon. É inevitável. Mas basta olhar com um pouco mais de atenção para perceber que os homens chegam relativamente tarde. Antes deles, quase sempre existem irmãs.

As Bennet são cinco. As Dashwood são três. Emma Woodhouse tem Isabella. Anne Elliot tem Elizabeth e Mary. Fanny Price vem de uma família enorme e reencontra em Susan uma relação fundamental. Até Catherine Morland, cuja família praticamente desaparece assim que ela sai de casa, cresce cercada de irmãos e irmãs. Não é uma coincidência pequena dentro de uma obra tão cuidadosamente construída.

Jane Austen também escreveu amizades femininas, claro, mas há uma diferença importante entre elas. Amigas são escolhidas. E Austen parece se divertir bastante mostrando como suas heroínas podem escolher mal. Irmãs, não. Elas simplesmente estão ali, para amar, irritar, proteger, invejar, imitar, julgar e conhecer umas às outras de uma maneira que nenhum Darcy recém-chegado conseguiria.

Nenhum livro deixa isso mais evidente do que Razão e Sensibilidade. Elinor e Marianne Dashwood dão ao romance não apenas suas protagonistas, mas o próprio conflito sugerido pelo título. Durante muito tempo, simplificamos essa oposição: Elinor seria a razão, Marianne, a sensibilidade. Uma controla; a outra sente. Uma está certa; a outra precisa aprender. Só que Austen nunca é tão simples.

Elinor sente profundamente, talvez até demais. Sua disciplina não nasce da ausência de emoção, mas da consciência de que alguém naquela família precisa continuar funcionando. Marianne, por outro lado, não está errada porque ama, sofre ou se entrega. Seu erro é acreditar que a intensidade do sentimento garante a verdade do que sente. Uma precisa da outra porque Elinor precisa aprender que contenção não significa silêncio eterno, enquanto Marianne descobre que emoção sem julgamento pode se transformar em autodestruição. No final, nenhuma delas vence. As duas mudam.

E então Austen coloca ao lado de Elinor uma mulher que não é sua irmã nem exatamente sua amiga: Lucy Steele. É quase uma anti-amizade. Lucy escolhe Elinor como confidente para revelar justamente que está secretamente noiva do homem por quem Elinor está apaixonada. É cruel, calculado e muito Austen. A irmã divide a dor; a falsa amiga a utiliza.

A diferença aparece novamente em Orgulho e Preconceito. Elizabeth Bennet tem Charlotte Lucas, uma amizade verdadeira que sofre um choque quando Charlotte aceita se casar com Mr. Collins. Lizzie precisa descobrir que amar uma amiga não significa necessariamente compreender as escolhas que ela fará. Charlotte olha para casamento, segurança e futuro de uma maneira que Elizabeth não consegue aceitar, mas que faz sentido dentro das possibilidades disponíveis para uma mulher como ela.

Jane Bennet ocupa outro lugar. Lizzie não a escolheu e não precisa concordar com ela para confiar nela. Jane é sua primeira interlocutora, sua confidente e, ao mesmo tempo, seu contraponto. Elizabeth é inteligente, observadora e rápida, talvez rápida demais. Jane procura sempre a melhor explicação possível para o comportamento das pessoas, talvez até demais. Uma julga demais; a outra, de menos. Cada uma expõe o ponto cego da outra.

As outras irmãs Bennet também importam. Lydia é impulsividade sem reflexão; Kitty praticamente aprende a existir pela imitação; Mary se refugia em livros e frases moralistas sem necessariamente compreender aquilo que lê. Austen coloca cinco meninas dentro da mesma casa e mostra cinco maneiras bastante diferentes de uma jovem mulher tentar construir uma identidade. As irmãs não são decoração em torno de Elizabeth e Jane. São parte do laboratório em que as duas também aprendem quem são.

Talvez nenhum romance torne a ausência dessa cumplicidade tão dolorosa quanto Persuasão. Anne Elliot tem duas irmãs, mas não encontra em nenhuma delas aquilo que Elizabeth encontra em Jane ou Elinor em Marianne. Elizabeth Elliot reproduz o orgulho e a vaidade do pai; Mary Musgrove transforma quase tudo em uma questão sobre si mesma. Anne está entre as duas e, paradoxalmente, parece completamente sozinha.

Essa solidão começa muito antes de Wentworth reaparecer.

Anne não tem uma Jane Bennet para ouvi-la nem uma Marianne para perceber sua dor. Sua grande amizade e referência feminina está em Lady Russell, justamente a mulher cuja opinião teve peso decisivo quando Anne recusou Wentworth anos antes. Mais uma vez, Austen complica a ideia de amizade: Lady Russell ama Anne e acredita estar protegendo-a, mas também está errada. Amor e bom julgamento não são necessariamente a mesma coisa.

Emma Woodhouse oferece outra variação interessante. Emma tem uma irmã, Isabella, mas ela já é casada, tem filhos e vive a própria vida. A companhia feminina mais importante de Emma durante boa parte de sua formação foi Mrs. Weston, antiga governanta que ocupa um espaço quase materno. Quando Mrs. Weston se casa e deixa Hartfield, Emma escolhe Harriet Smith.

E aí começa o problema.

Emma chama Harriet de amiga, mas inicialmente não a trata como igual. Decide quem ela deveria ser, com quem deveria conviver e, principalmente, por quem deveria se apaixonar. É uma amizade construída sobre uma enorme diferença de poder, e parte do amadurecimento de Emma está justamente em perceber que gostar de alguém não lhe dá o direito de reorganizar sua vida.

Talvez seja significativo que Emma não tenha uma irmã presente diariamente para contestá-la. Isabella existe, mas está fora daquele pequeno universo em que Emma se acostumou a ser a pessoa mais inteligente da sala. Harriet acaba se tornando, inicialmente, muito menos um espelho do que uma superfície sobre a qual Emma projeta suas próprias certezas.

Em Mansfield Park, Austen faz quase o contrário. Fanny Price é retirada da própria família e cresce entre os Bertram, sempre lembrada de que está ali por favor e nunca exatamente como uma deles. Tem primas, mas não encontra nelas uma verdadeira relação de irmandade. Quando volta à casa dos Price, descobre que também já não pertence completamente àquele lugar.

É Susan, sua irmã mais nova, quem muda essa experiência. Fanny reconhece nela inteligência, energia e possibilidades que podem ser orientadas. A relação entre as duas mistura irmã, mentora e quase mãe. Depois de passar anos dependendo da generosidade — ou da falta dela — dos outros, Fanny finalmente ocupa a posição de quem pode proteger alguém.

Até Northanger Abbey, talvez o romance mais leve de Austen, trabalha essa diferença entre amizade e discernimento. Catherine Morland chega a Bath sem experiência de mundo e acredita imediatamente ter encontrado em Isabella Thorpe uma grande amiga. Isabella é encantadora, intensa e aparentemente devotada. Catherine ainda não sabe reconhecer interesse, manipulação e oportunismo. Depois surge Eleanor Tilney, muito menos exuberante e muito mais verdadeira. Catherine precisa aprender, entre outras coisas, a diferença entre alguém que declara amizade e alguém que realmente age como amiga.

Esse padrão se repete demais para ser ignorado. As amizades femininas em Austen podem ser profundas, mas também precisam ser avaliadas. Charlotte, Harriet, Isabella Thorpe, Lady Russell, Eleanor Tilney, Mrs. Weston e Lucy Steele ocupam lugares completamente diferentes, mas todas mostram que a intimidade escolhida exige discernimento.

As irmãs pertencem a outra categoria. Não porque sejam necessariamente boas. Elizabeth e Mary Elliot provam exatamente o contrário. Lydia pode arrastar toda a família Bennet para o escândalo. Marianne pode ser exasperante. Isabella Woodhouse está distante. Mas essas mulheres fazem parte da história das heroínas antes mesmo que o romance comece.

E então chegamos inevitavelmente a Jane e Cassandra Austen.

Cassandra era três anos mais velha e foi a grande confidente de Jane. As duas permaneceram extremamente próximas durante toda a vida. Muitas das cartas de Jane que sobreviveram foram escritas para Cassandra, e as duas viveram juntas em Chawton durante os anos em que Jane revisou, escreveu e publicou seus romances. Quando Jane morreu, em 1817, Cassandra descreveu a perda como se tivesse perdido parte de si mesma.

Seria simplista tentar transformar Jane e Cassandra em Elinor e Marianne ou procurar versões das duas em cada família criada por Austen. Literatura não funciona assim. Mas é igualmente difícil ignorar que uma escritora cuja relação mais longa, constante e íntima foi com a própria irmã voltou repetidamente à experiência de mulheres que se conhecem desde antes de serem protagonistas de qualquer história.

Talvez seja essa a diferença fundamental. Uma amiga conhece a mulher que você se tornou. Uma irmã também conheceu a menina anterior a ela.

Darcy conhece Elizabeth durante alguns meses. Jane Bennet sabe quem Lizzie era antes que Darcy existisse em sua vida. Edward Ferrars pode amar Elinor, mas Marianne testemunha praticamente cada etapa de sua dor. Wentworth reencontra Anne depois de oito anos, enquanto Elizabeth e Mary fazem parte do ambiente familiar que ajudou a produzir a mulher silenciosa que ele encontra novamente. Emma pode descobrir o amor ao lado de Knightley, mas sua maneira de se relacionar com outras mulheres já vinha revelando quem ela era muito antes disso.

Jane Austen sabia perfeitamente como construir um grande romance. É por isso que continuamos apaixonados por Darcy, Wentworth e todos os outros mais de duzentos anos depois. Mas talvez suas relações femininas revelem algo ainda mais íntimo sobre suas heroínas.

Os homens entram em suas histórias e podem mudar seus futuros. As irmãs já estavam lá para conhecer o passado.


Descubra mais sobre

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

Deixe um comentário