The Steps: por que Stallone decidiu contar sua história aos 80 anos

Sylvester Stallone conta a história de Rocky há 50 anos. Já conhecemos o ator desconhecido, as dificuldades financeiras, as recusas, o roteiro escrito quando ninguém lhe oferecia o papel que desejava, a insistência em interpretá-lo e a transformação quase instantânea em estrela. Poucas histórias de Hollywood foram repetidas tantas vezes e, curiosamente, poucas perderam tão pouco de seu encanto. Por isso, a primeira pergunta diante de The Steps: A Memoir, sua autobiografia oficial, que chega em 29 de setembro, é inevitável: o que Stallone ainda poderia contar que nós já não soubéssemos?

Talvez a resposta esteja justamente naquilo que normalmente eliminamos quando resumimos sua história. Quando falamos de Stallone, quase sempre começamos perto demais de Rocky. O novo livro volta muito antes, à infância, ao nascimento difícil que deixou parte de seu rosto paralisada e afetou sua fala, aos problemas na escola, à sensação de ser constantemente incompreendido e aos anos em que ninguém tinha qualquer razão para imaginar que aquele jovem se transformaria em uma das figuras mais reconhecíveis do cinema.

Aos 80 anos, Stallone parece interessado em algo diferente de simplesmente recontar como chegou ao sucesso. O que o livro sugere é uma tentativa de compreender de onde veio a necessidade tão intensa de continuar subindo, mesmo quando praticamente tudo ao redor indicava que seria mais razoável desistir.

O título obviamente remete às escadarias do Philadelphia Museum of Art que Rocky transforma, no primeiro filme, em uma das imagens mais poderosas de superação do cinema. Ao longo das décadas, aqueles degraus deixaram de ser apenas uma locação e se tornaram uma metáfora para o personagem, para Stallone e para milhões de pessoas que adotaram Rocky como uma espécie de narrativa pessoal sobre perseverança. The Steps volta à mesma imagem, mas desloca um pouco seu significado. O interesse agora não está somente em chegar ao último degrau, mas em compreender tudo o que foi necessário para começar a subida.

A estrutura escolhida para o livro deixa isso claro. Embora Stallone percorra outros períodos de sua vida, a narrativa principal é construída entre sua chegada a Nova York, em 1969, e a cerimônia do Oscar de 1977, quando Rocky completou uma ascensão que poucos meses antes parecia improvável. É praticamente o arco de um filme: um jovem chega à cidade disposto a ser ator, acumula frustrações, começa a escrever porque ninguém lhe oferece as oportunidades que procura e termina vendo o filme que criou ganhar o Oscar de Melhor Filme.

Nós conhecemos o resultado, mas Stallone parece querer contar melhor o caminho. Ao apresentar o livro, ele falou das lutas, das vitórias, dos fracassos e das pessoas que acreditaram nele, mas fez uma distinção especialmente importante. Para ele, The Steps não é apenas uma história sobre sucesso, mas também uma história sobre sobrevivência e sobre não desistir de si mesmo.

A escolha dessa palavra muda bastante a maneira como sua trajetória pode ser lida. “Sucesso” é a versão que Hollywood contou durante cinco décadas. “Sobrevivência” abre espaço para uma história menos organizada, menos confortável e provavelmente mais verdadeira. Transformar a vida de Stallone em uma fábula sobre persistência é fácil depois que sabemos o resultado. O ator pobre insiste, escreve um grande roteiro, recusa dinheiro para preservar o papel, consegue fazer o filme e termina no Oscar. Parece quase uma demonstração perfeita de que acreditar em si mesmo produz recompensa, mas quem vive uma história enquanto ela acontece não sabe que está dentro de uma lenda.

Stallone não sabia que Rocky funcionaria. Também não sabia que sua insistência seria posteriormente celebrada como coragem, em vez de lembrada como uma péssima decisão profissional. Não tinha como prever que sua voz, seu rosto e sua maneira peculiar de falar, elementos que poderiam ser apresentados como razões para não contratá-lo, se tornariam algumas das características mais reconhecíveis de um astro mundial.

É justamente essa distância entre o homem que não sabia e o homem que agora conhece o final que torna The Steps interessante. Aos 30 anos, Stallone estava olhando para a frente e tentando desesperadamente construir uma identidade. Aos 80, olha para trás e tenta entender como aquela identidade foi construída, o que ela custou e quanto dela ainda pertence ao rapaz que precisava provar que era capaz.

O livro também promete recolocar a escrita no centro da história. Stallone sempre foi visto pelo grande público primeiro como ator, depois como astro de ação e apenas ocasionalmente como roteirista, embora sua carreira provavelmente não existisse sem a decisão de começar a escrever os personagens que ninguém lhe oferecia. Antes dos músculos, das armas, de Rambo e das enormes bilheterias, houve alguém tentando resolver por meio da escrita um problema bastante simples: como trabalhar se ninguém queria lhe dar trabalho?

Rocky foi a resposta, mas The Steps parece querer mostrar que o personagem não surgiu simplesmente porque Stallone assistiu a uma luta de boxe e teve uma boa ideia. Ele nasceu de anos de frustração, rejeição, insegurança e da sensação de estar sempre tentando convencer alguém de que havia nele alguma coisa que ainda não conseguia provar.

Isso torna a relação entre criador e personagem ainda mais difícil de separar. Rocky Balboa também é um homem sobre quem os outros já chegaram a uma conclusão. Mickey acredita que ele desperdiçou seu talento, Apollo o escolhe quase como uma curiosidade publicitária e o mundo ao redor o trata como alguém que chegou aos 30 anos sem fazer nada particularmente importante com a própria vida. Quando recebe uma oportunidade absurda, portanto, a questão não é apenas ganhar uma luta, mas descobrir se aquilo que sempre quis acreditar sobre si mesmo ainda pode ser verdade.

Stallone tinha praticamente a mesma idade quando escreveu o personagem, e talvez seja esse um dos aspectos mais interessantes de reler a história agora. A juventude oferece a urgência de quem quer provar alguma coisa ao mundo. A velhice permite perguntar por que essa prova parecia tão necessária.

Isso também significa que The Steps pode complicar um pouco a mitologia que Stallone ajudou a criar. Durante décadas, a história foi resumida como a saga quase solitária do artista que escreveu um roteiro, enfrentou executivos e se recusou a vender o sonho. Nas memórias, há espaço para lembrar as pessoas que o ajudaram, as relações que sustentaram aquele período e os custos emocionais que normalmente desaparecem quando uma trajetória é transformada em lenda.

Talvez seja justamente aí que o livro tenha mais a acrescentar. Antes de sua publicação, seria precipitado prometer grandes revelações ou transformar o material promocional em descoberta. O que já está claro é que Stallone mudou o enquadramento. Durante 50 anos, a pergunta mais repetida foi como ele conseguiu vencer. Aos 80, parece mais interessado em compreender por que precisava tanto vencer.

O momento escolhido para fazer isso dificilmente poderia ser mais simbólico. Em 2026, Stallone completou 80 anos e Rocky chegou aos 50. Ao mesmo tempo, I Play Rocky transforma em cinema justamente a história do jovem ator que se recusou a permitir que Hollywood entregasse seu personagem para outra pessoa. Enquanto Anthony Ippolito interpreta Stallone tentando construir a própria lenda, o verdadeiro Stallone publica sua versão dela.

As duas obras olham para o mesmo homem a partir de posições opostas. Uma observa de fora o rapaz de 30 anos que ainda não sabia o que estava prestes a acontecer. A outra permite que o homem de 80 anos volte àquele período sabendo tudo que veio depois.

Talvez seja por isso que The Steps exista agora. Stallone não precisa mais provar que sua aposta estava certa, porque a carreira, as franquias, a fama e meio século de permanência cultural já fizeram isso por ele. O que resta é algo mais difícil: olhar para a pessoa que precisava desesperadamente chegar ao topo e perguntar o que ela realmente esperava encontrar quando chegasse lá.

Conhecemos a escadaria há 50 anos. The Steps parece querer contar melhor tudo o que aconteceu antes do primeiro degrau.


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