Fall River Legend: o balé que condenou Lizzie Borden

Lizzie Borden foi absolvida em 1893, mas pouco mais de meio século depois Agnes de Mille resolveu o caso à sua maneira. Em Fall River Legend, balé criado para o Ballet Theatre — hoje American Ballet Theatre — e apresentado pela primeira vez em 22 de abril de 1948, no Metropolitan Opera House, em Nova York, não existe dúvida, mistério ou espaço para uma nova teoria. A protagonista matou o pai e a madrasta e, ao contrário do que aconteceu na vida real, é considerada culpada.

Só que essa é justamente a primeira surpresa de Fall River Legend. Agnes de Mille acreditava na culpa de Lizzie, mas não a transformava simplesmente em monstro. A Lizzie de seu balé, chamada apenas de The Accused, A Acusada, é uma mulher encurralada, emocionalmente sufocada pela família, pela pequena cidade onde vive e pelas regras de uma sociedade estreita demais para qualquer possibilidade de fuga. Ela aparece ao mesmo tempo como culpada pelo crime e vítima do ambiente que a empurrou até ele.

E havia uma bailarina extraordinária no centro de tudo isso: Alicia Alonso foi a primeira Lizzie Borden de Fall River Legend. A cubana, que se tornaria uma das maiores figuras do balé do século XX e uma intérprete lendária de papéis como Giselle, criou The Accused na estreia de 1948. É uma associação fascinante justamente porque não estamos falando de uma heroína clássica, romântica ou etérea, mas de uma personagem reprimida, perturbadora, psicologicamente complexa, que termina assassina e condenada à morte.

O elenco original ainda tinha Diana Adams como a mãe, Muriel Bentley como a madrasta, Peter Gladke como o pai, Ruth Ann Koesun como a protagonista criança e John Kriza como o pastor. Morton Gould escreveu a música, Oliver Smith criou os cenários, e Agnes de Mille condensou toda aquela história de família, repressão, desejo, assassinato e condenação em aproximadamente 45 minutos.

A ideia havia surgido alguns anos antes. Depois do sucesso de Rodeo, o dramaturgo Edward Sheldon sugeriu que a história de Lizzie Borden poderia render um balé. O projeto foi sendo adiado pelo casamento de Agnes de Mille, pelo nascimento do filho e pelo trabalho cada vez maior da coreógrafa na Broadway, mas nunca desapareceu. Ela chegou a levar para a lua de mel um exemplar de The Trial of Lizzie Borden, de Edmund Pearson, o que mostra que não estava trabalhando apenas com a imagem popular de Lizzie e do machado. De Mille estudou o caso e tomou decisões deliberadas sobre aquilo que queria manter, abandonar ou transformar.

A maior dessas decisões foi o próprio desfecho. De Mille e Morton Gould resolveram que Lizzie seria condenada. Gould dizia que conseguia escrever música para uma condenação, mas não sabia como escrever “música de absolvição”, e assim a História acabou perdendo para o teatro. O compositor resumiria depois a escolha dizendo que mudar a História era licença poética.

O balé praticamente começa pelo veredito, de maneira que o público já sabe desde o início que aquela mulher está condenada. A partir daí, o que vemos funciona quase como uma viagem para dentro dela, uma tentativa de encontrar a origem do ato que já sabemos que aconteceu. É justamente aí que Fall River Legend se afasta radicalmente da Lizzie histórica.

Na versão de Agnes de Mille, A Acusada é uma jovem tímida, sensível e receptiva, marcada pela perda da mãe e depois pelo abandono psicológico do pai, que volta sua atenção para a segunda mulher. A madrasta é construída como amarga, ciumenta, manipuladora e hostil, enquanto o pai aparece como fraco, incapaz de proteger a filha ou perceber o que aquela casa está produzindo. Aos poucos, o ambiente doméstico se transforma em uma prisão emocional.

Quando o American Ballet Theatre recuperou a obra em 2007, uma crítica do New York Times destacou justamente como o cenário de Oliver Smith conseguia transmitir aquele universo sem ar, simultaneamente estilizado e quase realista. Essa sensação de claustrofobia é essencial porque, na lógica do balé, o crime não nasce apenas de uma discussão ou de uma explosão repentina. Ele é apresentado como o resultado final de anos de frustração, perda e confinamento.

Uma das imagens mais bonitas da obra acontece quando a protagonista adulta observa a si própria quando criança, dançando com a mãe. São duas versões da mesma pessoa dividindo o palco: a menina que ainda não sabe o que acontecerá e a mulher condenada que contempla a própria memória. Passado e presente deixam de obedecer ao tempo e a lembrança se torna quase física.

De Mille acrescenta também algo que simplesmente não existe na biografia conhecida de Lizzie Borden: uma história de amor. A Acusada aproxima-se do pastor da comunidade e os dois dançam um pas de deux que oferece, por alguns instantes, a possibilidade de outra vida. A música ecoa uma dança anterior entre os pais da protagonista, ligando aquilo que ela perdeu quando criança àquilo que tenta reencontrar como adulta.

O pastor não está ali porque Agnes de Mille acreditasse ter descoberto um romance secreto de Lizzie, mas porque dramaticamente representa uma saída. Dentro daquele mundo formado pela casa, pelo pai, pela madrasta, pela cidade, pelas convenções sociais e pela memória da mãe, o amor surge como possibilidade de liberdade. Quando essa possibilidade também fracassa, a tragédia se fecha.

É uma construção psicológica muito definida. Amor materno perdido, abandono paterno, madrasta hostil, romance frustrado e, finalmente, assassinato formam uma cadeia emocional que conduz a personagem até o crime. Agnes de Mille não estava apenas tentando humanizar Lizzie. Estava criando uma explicação para ela.

Isso não significa que acreditasse estar reconstruindo literalmente a vida de Lizzie Borden. Pelo contrário, a liberdade com os fatos faz parte do projeto. De Mille parece menos interessada na verdade judicial do caso do que em uma verdade dramática: que espécie de mulher poderia chegar ao ponto de matar o próprio pai e a madrasta, e que espécie de mundo poderia produzir essa mulher.

Até a violência é tratada de maneira curiosa. De Mille não queria transformar o assassinato em espetáculo e achava que violência no palco quase sempre acabava parecendo ridícula. O balé evita, portanto, a exploração direta dos corpos e dos golpes que tornaram o caso célebre. Curiosamente, o momento em que A Acusada pega o machado — primeiro para cortar madeira e depois para matar — ainda provocava risadas em parte da plateia na remontagem de 2007, o que talvez mostre como se tornou impossível escapar completamente do peso quase caricatural que o machado adquiriu na lenda de Lizzie Borden.

O interesse de Fall River Legend está muito mais nos gestos, nos silêncios e na sensação de que a protagonista não consegue respirar dentro daquele pequeno universo. É nessa atmosfera que o balé encontra sua força maior, e é também onde aparece Agnes de Mille, a coreógrafa que ajudou a mudar a relação entre dança e narrativa no teatro americano.

Em seu trabalho, a coreografia não existe apenas para interromper a história com passos bonitos. A dança conta a história, e movimento, pantomima, repetição e comportamento social revelam aquilo que os personagens não dizem. De Mille já havia feito isso em Rodeo e, sobretudo, em Oklahoma!, o musical de 1943 que transformou sua carreira.

O parentesco entre os dois mundos continuava evidente quando Fall River Legend voltou ao palco em 2007. Havia algo de Oklahoma! nas fileiras de moradores atravessando a cena, nos amantes arrebatados, nas mãos que fofocam e naquela comunidade constantemente observando, comentando e julgando. A diferença é que, aqui, não existe o espaço aberto do Oeste, mas uma cidade pequena, uma casa sufocante e uma mulher presa dentro dela.

Esse talvez seja também o maior desafio para quem dança A Acusada. Não basta interpretar dor ou loucura; é preciso tornar visível todo o peso daquela existência. Na remontagem de 2007, Julie Kent recebeu elogios especialmente pelo momento em que sua personagem percebe a dimensão do que fez, mas a crítica sentiu falta exatamente dessa densidade anterior, daquela raiva contida e daquele sufocamento que precisam crescer durante o balé para que o final adquira toda a sua força.

Depois de Alicia Alonso, Nora Kaye tornou-se uma das intérpretes mais associadas ao papel e apareceu em uma versão televisiva de Fall River Legend em 1957. Décadas depois, Virginia Johnson dançou A Acusada na produção do Dance Theatre of Harlem, e o American Ballet Theatre voltaria à obra também com bailarinas como Julie Kent e Gillian Murphy. Cada intérprete precisa responder à mesma pergunta que Agnes de Mille colocou no centro do balé: quem é essa mulher antes de pegar o machado?

A verdadeira Lizzie Borden foi absolvida. Viveu por mais de três décadas depois do julgamento, comprou uma casa maior, passou a usar o nome Lizbeth e morreu sem jamais confessar participação nos assassinatos. A Lizzie de Agnes de Mille não recebe essa segunda vida, porque sua história termina com uma sentença.

É justamente essa alteração que torna Fall River Legend tão interessante dentro da interminável construção cultural de Lizzie Borden. O tribunal não conseguiu condená-la, mas a imaginação popular nunca a absolveu completamente. Livros, peças, filmes, séries e teorias continuaram julgando aquela mulher durante mais de um século, e Agnes de Mille apenas tornou esse julgamento literal.

O que torna o balé ainda mais complexo é que de Mille condena Lizzie pelo assassinato e, ao mesmo tempo, coloca a família e a sociedade que a cercavam no banco dos réus. Em 1948, muito antes de Lizzie virar personagem recorrente de documentários, séries e true crime, Fall River Legend já entendia que existiam duas mulheres naquela história: Lizzie Borden, a pessoa absolvida por um júri em 1893, e Lizzie Borden, a personagem que a cultura americana decidiu continuar julgando.

No palco de Agnes de Mille, essa segunda Lizzie é considerada culpada, mas nunca é apresentada simplesmente como cruel. O balé prefere perguntar o que aconteceu com aquela mulher antes do machado, e é justamente nessa pergunta, muito mais do que na resposta sobre quem matou Andrew e Abby Borden, que Fall River Legend continua sendo tão poderoso.


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