Ted Lasso: o time vence, mas ainda é difícil torcer por ele

A quarta temporada de Ted Lasso encontrou uma maneira de fazer o Richmond feminino vencer. No início de “Follow the Anger”, as jogadoras embalam uma sequência de bons resultados, sobem na classificação e parecem, enfim, funcionar como equipe. Gemma quer aproveitar o momento para marcar seu terceiro gol na partida, insiste em continuar em campo e sofre uma lesão no joelho. A possibilidade de perder o futebol a leva a considerar a carreira no direito, enquanto Alice tenta convencê-la a lutar pela recuperação. É uma história que deveria nos deixar aflitos por Gemma. Confesso que não me deixou.

Reconheço o preconceito que cerca o futebol feminino, inclusive em quem assiste a uma série de televisão. Seria fácil atribuir a ele qualquer resistência ao novo Richmond. Mas, depois de oito episódios, não acho justo responsabilizar o público por uma dificuldade que está também no roteiro. Eu me lembro de Roy, de Sam e até de quanto detestava Jamie Tartt antes de passar a torcer por ele. Cada um tinha uma personalidade, uma maneira de reagir aos outros e uma história que alterava o que sentíamos a seu respeito. Entre as jogadoras, ainda procuro alguém que produza esse efeito.

As gêmeas brigam, a goleira joga sem luvas, Gemma está dividida entre o futebol e outra profissão. São características fáceis de identificar, mas que, repetidas, não se transformam necessariamente em pessoas interessantes. Alice Chilton também deveria ganhar força ao se aproximar de Gemma, só que sua dificuldade para expressar o que sente já me parece mais um mecanismo do roteiro do que uma descoberta sobre ela. A série acredita que nos apresentou um time cheio de vida. Eu continuo vendo personagens definidos por uma peculiaridade ou um problema de cada vez.

Roy e Keeley, pelo menos, finalmente voltaram. Ela ainda o ama, ele terminou com a médica Erin Beaumont, mas os dois precisam atravessar novos mal-entendidos antes de admitir o óbvio. A caminho de uma homenagem a Roy no Chelsea, enfrentam problemas com o carro, pegam o metrô, chegam tarde e perdem a cerimônia. Keeley o incentiva a falar mesmo assim, e Roy acaba declarando seu amor por ela. É bom vê-los juntos; a espera, porém, perdeu a graça faz tempo. Roy e Keeley eram capazes de dizer coisas desconfortáveis um ao outro. Arrastar a reconciliação por meio de silêncios e informações desencontradas parece uma maneira pouco convincente de criar suspense para um casal cujo destino já conhecíamos.

Ted continua atento aos outros, e Beard continua sendo Beard. Há coerência nisso, mas falta ao protagonista alguma coisa que nos faça querer descobrir o que acontece com ele, além da expectativa de que aquela mulher por quem se interessou volte a aparecer. A série distribui dificuldades entre os personagens e logo encontra uma frase ou um gesto para ajudá-los a superá-las. Cada solução pode funcionar isoladamente. Juntas, elas deixam pouca surpresa.

A ameaça mais promissora está fora de campo. Higgins descobre que acionistas do Richmond estão sendo pressionados a vender suas participações e suspeita que Rupert queira recuperar o clube de Rebecca. Ainda não sabemos quem está por trás da operação. Com a morte de Anthony Head, intérprete de Rupert, fiquei pensando se a série não está preparando outra pessoa para ocupar esse lugar. Minha aposta é Zelda Southport, tão prestativa e cada vez mais próxima de Rebecca. Talvez eu esteja errada. Se estiver certa, espero que exista mais nessa virada do que a revelação de uma inimiga que já começamos a reconhecer.

Ainda gosto de voltar a Ted Lasso, o que talvez torne a frustração maior. A série sabe nos lembrar do carinho que temos por Roy, Keeley, Ted e Rebecca. Precisa agora fazer com que esse carinho alcance as mulheres que colocou no centro da história. O Richmond feminino já aprendeu a ganhar partidas. Falta escrever suas jogadoras de um jeito que nos faça sentir a derrota quando uma delas cai.


Descubra mais sobre

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

Deixe um comentário