Em toda série há um ou mais antagonistas. Em Ted Lasso, porém, esses papéis às vezes se alternam. Ted é sempre o herói, mas convém lembrar que Rebecca começou a história como vilã. Nate, por sua vez, era o rapaz bonzinho e inseguro que acabou se transformando em um dos personagens que mais tivemos dificuldade para perdoar.
Nesta segunda etapa da série, ainda faltava descobrir quem ocuparia a cadeira de antagonista. Quer dizer, os fãs mais atentos já entenderam quem quer transformar o Richmond FC em piada, embora alguns ainda possam se surpreender: a ameaça está justamente entre as pessoas que mais apoiaram o clube, pelo menos até agora.
A internet, assim como eu, já pescou que Rebecca estava certa ao desconfiar desde o primeiro encontro. O problema é que agora pode ser tarde demais. Zelda Southport, ou melhor, Carol Dring, infiltrou-se no Richmond, conquistou a confiança de Keeley, tornou-se necessária para Rebecca e conseguiu um cargo oficial dentro do clube. Zelda é a nossa antagonista.
A única pergunta que ainda precisa ser respondida é por quê.

Nunca subestime a raiva
Zelda entrou na série durante um encontro de investidores do futebol feminino. Em teoria, estava ali para fazer uma palestra. Na prática, atacou os homens ricos presentes, acusando-os de investir nas mulheres apenas pela boa publicidade e pela possibilidade de lavar a própria reputação. Keeley ficou imediatamente fascinada. Rebecca, não.
Essa diferença entre as duas é importante. Keeley passou a temporada inteira agindo como a sonhadora que se entusiasma antes de fazer perguntas. Rebecca, ao contrário, percebeu desde o início que havia alguma coisa errada naquela mulher. Não sabia explicar o quê, mas seu instinto pediu distância. Ainda assim, bastou Keeley insistir para que ela se aproximasse.
Ao ser apresentada às duas, Zelda praticamente ignora Keeley e concentra sua atenção em Rebecca. Diz que leu sobre o divórcio dela e pensou que seu ex-marido era quase tão perturbado quanto o seu. Em seguida, conta uma história que agora parece muito mais importante do que uma simples piada sobre acessórios de cabelo.
Segundo Zelda, ela inventou a presilha conhecida como banana clip, mas seu ex-marido, mais esperto para os negócios, patenteou a criação em nome próprio, divorciou-se dela e ganhou milhões. Movida pela raiva, ela inventou a claw clip, que acabou substituindo a anterior. A história pode ser verdadeira, parcialmente verdadeira ou inteiramente construída para produzir identificação. O que importa é a frase com que Zelda encerra seu relato: nunca subestime o poder da raiva como combustível. Ela está falando com a mulher que contratou Ted Lasso para destruir o Richmond apenas porque o clube era aquilo que Rupert mais amava.
Rebecca conhece o poder da raiva. Durante toda a primeira temporada, foi esse sentimento que determinou suas decisões. Ela não se importava em prejudicar jogadores, funcionários ou torcedores, desde que conseguisse causar ao ex-marido uma fração da dor que ele lhe causara. Quando finalmente reconheceu o que estava fazendo, confessou tudo a Ted, pediu desculpas e abandonou o plano. Zelda, ao contrário, fala da raiva com orgulho. E talvez não esteja apenas descrevendo seu passado.

Quem é Carol Dring?
Rebecca investiga Zelda e descobre rapidamente que Zelda Southport não é seu verdadeiro nome. Ela se chama Carol Dring, integrou uma banda pós-punk chamada Seizure e, no passado, foi presa por ameaçar o dono de um clube com duas facas de manteiga. É nesse momento que Keeley diz a segunda frase que merece ser guardada: todas nós temos algo no passado pelo qual poderíamos ser julgadas se os fatos fossem apresentados sem o contexto completo.
Pode ser apenas uma defesa generosa de alguém que teve uma juventude complicada. Também pode ser a série avisando que existe um episódio do passado cuja interpretação depende justamente do contexto. Rebecca sabe que Zelda mente sobre a própria identidade e percebe o risco antes de todos, mas não consegue provar que exista algo além de uma mulher excêntrica usando um nome mais adequado à personalidade que criou.
A escolha da expressão “dono de um clube” também pode não ser casual. A série não esclarece que tipo de clube era aquele, muito menos a identidade do homem ameaçado. Seria um local de música ligado aos anos de Carol como cantora? Um clube esportivo? Alguém relacionado a Rupert? Ainda não sabemos. Mas alguma coisa no passado de Rebecca parece alimentar a raiva de Zelda. Não precisa ser uma relação íntima entre as duas, porque, nesse caso, Rebecca provavelmente a reconheceria. Pode ser um acontecimento que Rebecca nem saiba que viveu da perspectiva oposta.
Durante muitos anos, ela foi a mulher de Rupert Mannion. Talvez Carol tenha sido prejudicada por ele em algum negócio e associe Rebecca ao poder do casal. Talvez Rebecca tenha participado, mesmo sem saber, de uma decisão que destruiu algo importante para ela. Também é possível que Rupert tenha usado uma delas contra a outra. O texto ainda não oferece a resposta, mas já deixou claro que Carol Dring não apareceu por acaso na vida de Rebecca Welton.


Soluções rápidas demais
A próxima aparição de Zelda torna tudo ainda mais estranho. Depois que as jogadoras são provocadas por homens abertamente machistas em um bar, uma briga começa e o time inteiro acaba preso. Antes que Rebecca consiga chegar à delegacia, Zelda já está lá e já resolveu o problema.
Ninguém sabe quem a avisou. Ninguém pergunta como ela descobriu tão depressa. Zelda garante que ninguém prestará queixa, que a prisão não aparecerá nos registros e que tudo será abafado. Quando questionada sobre sua identidade, responde que usa muitos nomes. Depois explica que conhece o chefe da polícia porque ele comprava heroína de seu baterista e agora compra cocaína do mesmo homem. É uma história tão absurda que todos riem, agradecem e seguem em frente.
Rebecca tenta entender o que está acontecendo. Keeley, encantada, não deixa que a desconfiança dure muito. Quando Zelda sugere que uma fotografia do time na delegacia seria excelente publicidade, ela imediatamente aceita. A imagem chega à imprensa, repercute nas redes e reforça a impressão de que Zelda transformou um desastre em oportunidade. Funcionou, portanto, ninguém examina o método.
O mesmo acontece com o agentes de Dani Rojas e Roy Kent. Zelda aparece no Richmond oferecendo gratuitamente seus serviços profissionais. Participa de uma ligação farsesca, usando uma identidade falsa, para fazer o agente admitir que teria recebido uma proposta do Newcastle por Dani. Higgins telefona para um contato no clube, confirma que a oferta não existe e, pouco depois, o agente recua também por mensagem. Tudo é rápido, fácil e eficiente. Rebecca fica tão impressionada que oferece a Zelda o cargo de conselheira especial do Richmond. Carol Dring finalmente consegue entrar oficialmente no clube.
Pode ter sido apenas uma demonstração de competência. O problema é que cada solução apresentada por Zelda também lhe entrega mais acesso, mais confiança e mais poder.


A bebida, o vexame e Keeley
Antes disso, Zelda já havia percebido exatamente onde pressionar Rebecca. Quando o estádio parece vazio para o jogo contra o Chelsea, ela aparece com uma bebida e espera que Keeley saia de cena. Sozinha com Rebecca, começa a falar literalmente ao seu ouvido.
Diz que Keeley é uma sonhadora, mas que Rebecca é quem realiza. Zelda também seria assim: uma mulher que executa, resolve e transforma ideias em resultados. Rebecca, já alcoolizada, deixa escapar que conseguiria fazer muito mais se sua “sonhadora” a ouvisse de vez em quando.
Não é apenas uma conversa entre duas mulheres poderosas. Zelda está abrindo uma fissura entre Rebecca e Keeley, validando ressentimentos que provavelmente seriam passageiros e criando uma cumplicidade baseada na superioridade das duas sobre a amiga ausente.
Depois de beber com Zelda, Rebecca vai apresentar um cheque para crianças e fazer uma cena constrangedora. Sua revolta com a ausência dos torcedores acaba funcionando e ajuda a mobilizar o público, mas o resultado positivo não elimina a pergunta: Zelda queria inspirá-la ou queria vê-la perder o controle em público?
Mais tarde, quando Keeley se culpa pelo estádio vazio, Zelda diz a Rebecca que aquilo talvez tenha sido o melhor que poderia acontecer. A sonhadora teve as asas queimadas e, no dia seguinte, estaria mais inclinada a ouvir quem realmente sabe fazer as coisas acontecerem.
Não parece a observação de uma mentora generosa. Parece satisfação.

A festa em que Rebecca não apareceu
A festa de Réveillon no barco é outra pista importante. Zelda havia se apresentado atacando os homens ricos que usam o futebol feminino para lavar a própria imagem. Em sua festa, porém, reúne exatamente esse tipo de gente: milionários, políticos controversos e figuras públicas de reputação duvidosa.
As jogadoras são levadas até ali para conhecer possíveis investidores, quase como parte da atração oferecida aos convidados. Rebecca e Keeley não comparecem porque acabam envolvidas com Roy e a festa de Jamie Tartt. Zelda não esconde sua irritação com a ausência de Rebecca.
Assim que anuncia que ela não irá, decide levar a noite a “outro nível”. Surgem máscaras, um músico vendado e uma atmosfera de De Olhos Bem Fechados que deixa as jogadoras tão desconfortáveis que elas vão embora.
No episódio seguinte, Zelda aparece no Richmond levando as lembrancinhas que Rebecca e Keeley não buscaram. A gentileza tem uma ponta passivo-agressiva, mas produz o efeito desejado: ela volta a ocupar espaço, oferece ajuda, resolve o caso do agente e ganha o cargo que precisava.

Até o nome de sua empresa deveria chamar a atenção. Zelda é sócia-administradora da Scorpio Sports. Pouco antes de ser contratada pelo Richmond, conta a conhecida parábola do escorpião que pede ajuda ao sapo para atravessar o rio e acaba picando-o, mesmo sabendo que os dois morrerão. O escorpião não consegue evitar porque essa é sua natureza. Rebecca prefere construir uma ponte a carregar um escorpião. Zelda responde que pode guardar as pontes construídas por ela.
É praticamente uma confissão embrulhada como filosofia.
O fantasma de Rupert
Quando Higgins descobre que alguém está comprando silenciosamente as ações do Richmond pertencentes aos torcedores e oferecendo muito mais do que elas valem, ele procura uma motivação que não seja apenas financeira. A orientação é seguir a raiva. O primeiro nome a surgir é, naturalmente, Rupert.
Faz sentido. Na primeira temporada, Rupert já encontrou uma maneira de voltar ao Richmond por meio de outra pessoa. Como não podia ter participação no clube, financiou a compra dos 2,9% pertencentes às irmãs Milk em nome de Bex. Foi naquele encontro no bar que anunciou seu retorno, ameaçou ocupar a tribuna dos proprietários e prometeu criticar Rebecca diante das câmeras todas as semanas.

Ted o derrotou no inesquecível jogo de dardos e conseguiu mantê-lo afastado enquanto Rebecca permanecia no comando. É uma das melhores cenas da série porque Ted percebe a crueldade escondida pelo charme de Rupert e, pela primeira vez, protege Rebecca de uma forma que ela não esperava. Portanto, quando as ações começam novamente a mudar de mãos, Rebecca reconhece o método e vê o fantasma do ex-marido. Rupert sempre foi o responsável por suas maiores dores. Mesmo quando ela parece finalmente livre dele, alguma coisa do passado reaparece para desestabilizá-la. Desta vez, porém, ele provavelmente é a cortina de fumaça.
Como a quarta temporada já havia terminado de ser gravada quando Anthony Head morreu, em 2025, Rupert ainda pode aparecer nos episódios finais. Quando perguntaram diretamente se isso aconteceria, a resposta foi apenas que nada poderia ser revelado. Isso não confirma seu retorno, mas também está longe de descartá-lo, sobretudo depois da série ter tentado esconder até a volta de Jamie Tartt.
Rupert pode estar diretamente envolvido e, ainda assim, ser uma cortina de fumaça. Zelda pode estar trabalhando com ele, usando-o para executar uma vingança própria ou simplesmente contando com o fato de que Rebecca sempre suspeitará do ex-marido antes de olhar para alguém que conseguiu entrar no clube como aliada. O golpe perfeito não exige que Rupert seja o verdadeiro antagonista. Basta que Rebecca acredite que ele seja.

Rebecca continua sendo uma pleaser
Rebecca mudou muito desde a primeira temporada. Está menos ressentida, mais tranquila e finalmente conseguiu construir uma vida que não gira em torno de destruir Rupert. Isso não significa que tenha superado todas as marcas deixadas por sua história.
Ela cresceu com uma mãe emocionalmente complexa e um pai ausente que mantinha outra vida. Depois se casou com um homem que lhe dizia o que vestir, o que comer e como deveria se comportar. Rupert conhecia suas inseguranças e sabia exatamente como apertar cada botão. Convenceu Rebecca de que ela ficaria sozinha se o deixasse.
Por trás da postura imponente, ela continua sendo uma mulher que cede para evitar conflitos e para não decepcionar quem ama. Keeley consegue fazê-la aceitar Zelda mesmo quando seu instinto diz não. O namorado também a leva a se explicar e a recuar quando deveria sustentar o que sente. Rebecca pode comandar um clube, enfrentar bilionários e ocupar qualquer sala como se fosse dona dela, mas emocionalmente ainda tenta agradar. Zelda percebeu isso imediatamente.
Ela não precisou vencer a resistência de Rebecca. Bastou conquistar Keeley, oferecer soluções irresistíveis e esperar que a educação, a culpa e a necessidade de preservar as relações fizessem o restante do trabalho.


Por isso não acredito que Zelda tenha entrado no Richmond apenas para investir no futebol feminino ou servir como uma nova mentora. Ela estudou Rebecca, conhecia a história de seu divórcio, aproximou-se por meio de Keeley, apareceu sempre que o clube enfrentava uma crise e ofereceu exatamente a solução necessária. Agora tem acesso às decisões internas enquanto alguém tenta reunir ações suficientes para ameaçar o controle do time masculino.
Rebecca estava certa desde o início. Havia uma mentira, embora ela ainda não soubesse nomeá-la. Zelda Southport não existia, Carol Dring carregava uma história escondida e a raiva jamais deixou de ser seu combustível.
O que falta descobrir não é quem está por trás do ataque ao Richmond. É qual episódio do passado de Rebecca transformou Carol Dring em sua inimiga e se Rupert participou dele ou está sendo usado apenas como o fantasma perfeito para esconder a verdadeira vilã. Qual é a sua teoria?
Descubra mais sobre
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.
