O quinto episódio da segunda temporada de Dark Matter começa com centenas de Jasons reunidos em torno daquele que partirá com Daniela e Charlie para outro universo. Por um momento, a cena parece anunciar um confronto, mas eles vieram se despedir. Um dos homens lidera o grupo e diz que só quer saber que os outros estarão em segurança. Quando a família desaparece dentro da caixa, a série fica com ele, um dos Jasons que foram deixados para trás.
É uma escolha surpreendente para uma temporada em que já parece difícil acompanhar quem é quem. Sozinho no alto de um prédio, esse Jason contempla uma vida da qual perdeu Daniela, o filho e a casa. Ele parece à beira de acabar com tudo, mas escreve no caderno um pedido: encontrar um mundo onde possa amar e ser amado. Então entra na caixa e vai procurar, em Chicago, uma pessoa que ainda não havíamos conhecido: sua mãe.

Naquele universo, o filho dela morreu aos 16 anos. A mulher leva um susto ao abrir a porta e encontrar um Jason adulto, mas o recebe depois de ouvir sua explicação. Os dois choram no reencontro. Para ele, é uma chance de estar novamente com a mãe; para ela, é a chegada impossível de um filho que passou anos lamentando. Quando visitam o túmulo do Jason adolescente, fica claro que aquela nova vida começou sobre uma perda que continuará fazendo parte da história dos dois.
Jason não se recupera assim que atravessa a porta. No início, bebe até passar mal e desmaia na rua. É a mãe quem o confronta, dizendo que já enterrou um filho e não quer perder outro. A partir daí, ele começa a cuidar da casa, do jardim e dela. Volta a ler, fabrica móveis, transforma o trabalho em um negócio e encontra alguma paz em uma rotina que nunca imaginou para si. Ele também acolhe outro Jason, encontrado vivendo na rua, que perdeu filhos gêmeos. A preocupação demonstrada na despedida da abertura se torna, aqui, uma atitude concreta.
É o episódio mais triste e mais quieto de Dark Matter. A mãe é surda e se comunica por língua de sinais, o que dá às cenas entre os dois um ritmo diferente daquele a que a série nos acostumou. Há cada vez mais produções dispostas a interromper a trama principal para dedicar um capítulo inteiro à experiência de um personagem, muitas vezes mudando também sua linguagem. Neste caso, o resultado depende muito de Joel Edgerton, maravilhoso ao mostrar, com poucos diálogos, tudo o que esse Jason perdeu e o quanto começa a encontrar naquela casa.
Uma conversa entre mãe e filho revela como ela viveu depois da morte do marido. Saiu com dois homens, conta, mas não sentiu que fosse certo continuar com nenhum deles. Teve 23 anos felizes com o pai de Jason, enquanto muita gente não chega a ter um único ano assim. Ele agradece por ela tê-lo recebido e acreditado em sua história. Os dois sabem que não podem desfazer o que aconteceu, mas têm a oportunidade de viver juntos os anos que ainda lhes cabem.
Quando a mãe adoece de câncer, Jason permanece para cuidar dela. Ao todo, passam-se seis anos naquele universo. A vida de onde veio, diz ele, tornou-se um belo sonho. Isso não significa que Daniela e Charlie tenham deixado de existir para ele; significa que os dias naquela casa também se tornaram sua vida, com seus hábitos, afetos e responsabilidades.
A mãe não quer que ele fique sozinho depois de sua morte. Ao procurar um volume de Proust numa livraria, Jason conhece Maria, a dona do lugar, e se abre à possibilidade de amar novamente. Ele não lhe oferece uma versão fácil de seu passado. Mostra o túmulo do Jason que morreu aos 16 anos e depois a leva até a caixa. Maria se assusta e se afasta. É difícil culpá-la: acreditar na história de alguém é uma coisa; ver a prova diante dos olhos é outra.
À beira da cama da mãe, Jason sinaliza um poema de Bilbo em A Sociedade do Anel, aquele em que o personagem se senta junto ao fogo e pensa em tudo o que já viu. Depois da morte dela, lê o poema em voz alta no funeral. As palavras de Tolkien acompanham um homem que aprendeu a reconhecer a beleza dos anos vividos sem deixar de sofrer porque terminaram. Maria comparece à despedida e volta para ele. Mais tarde, encontra o caderno escrito no momento em que Jason pensava não ter nada: “O amor da minha vida. Meu filho. Minha casa. Por favor, deixe-me encontrar um mundo onde eu possa amar e ser amado.”

Perto do fim, Jason esbarra por acaso com a Daniela daquele universo. Ela não o reconhece e o ajuda a escolher flores para Maria. Para Daniela, é um encontro sem importância; para ele, é a chance de olhar para a mulher que amou sem abandonar a vida que construiu depois. Quando tira do dedo a aliança de elástico e a guarda, não está apagando a família perdida. O caderno mostra que ela continuará sendo parte dele. Jason apenas aceita que também pode amar Maria e permanecer naquele mundo.
Ainda não sei se voltaremos a acompanhar esse Jason, mas ele já me parece o mais triste e o mais íntegro da série. Depois de tantos homens tentando recuperar uma vida que consideram sua, encontramos um que escolhe cuidar da mãe, amparar outro Jason e dar a si mesmo uma nova chance. Dark Matter faz sua pausa mais íntima justamente para mostrar que, entre infinitas realidades, viver também pode ser isso: ficar ao lado de alguém pelo tempo que for possível.
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