Contém spoilers até o segundo episódio da sexta temporada de Slow Horses
Quando Jackson Lamb aciona “o túmulo de Blake” na sexta temporada de Slow Horses, ele não está simplesmente sugerindo um passeio a um cemitério. Os pangarés – e fãs que acompanham a série desde o início – entendem o recado: há perigo, precisam desaparecer, cortar o contato pelos telefones e se reunir secretamente. O lugar existe em Londres, Blake também existiu, apenas o código não apareceu agora. Na primeira temporada, quando o sequestro de Hassan Ahmed sai do controle e Diana Taverner tenta pôr a culpa em Slough House, River e os outros agentes descobrem na prática o que aquela referência significa. Certas coisas não mudam.
O Blake em questão é William Blake, poeta, pintor e gravador inglês que viveu entre 1757 e 1827. Sua obra juntava palavras e imagens numa visão intensamente pessoal de religião, política e sociedade. Autor de poemas como The Tyger e London, Blake desconfiava das instituições e das certezas que elas impunham. Não foi um espião nem pertence ao passado secreto do MI5. Seu nome entrou na história porque ele está enterrado em Bunhill Fields, um antigo cemitério de Londres que se tornou o ponto de encontro dos pangarés.

Bunhill Fields fica em Islington, perto da City, entre as entradas de City Road e Bunhill Row; as estações de metrô mais próximas são Old Street e Moorgate. É um lugar particularmente carregado de história: desde o século 17, recebeu pessoas ligadas a correntes religiosas que não seguiam a Igreja da Inglaterra, os chamados nonconformists. Também estão enterrados ali o escritor Daniel Defoe e John Bunyan, autor de O Peregrino. Blake, um artista que resistia a categorias fáceis, descansa entre outros nomes que mantiveram alguma distância das convenções de seu tempo.
Há até uma pequena história dentro da história de seu túmulo. Por décadas, quem visitava Bunhill Fields encontrava um monumento a Blake, mas ele não indicava o ponto exato do sepultamento. A localização foi recuperada por pesquisadores e recebeu uma nova lápide em 2018. Portanto, a referência dos livros de Mick Herron nasceu antes dessa marcação recente. O endereço, porém, sempre foi Bunhill Fields, a pouca distância do escritório decadente de Slough House e da Londres oficial onde os outros agentes decidem o destino dos pangarés.
Mas por que Lamb escolheria justamente Blake? A resposta mais honesta é que a série não atribui a ele uma explicação sentimental ou literária. Na primeira temporada, Lamb recolhe os telefones dos agentes para que não sejam rastreados e, quando perguntam onde devem se reunir, responde apenas que eles sabem o lugar. É na troca seguinte que ouvimos o nome: o túmulo de Blake. O código nasce para o espectador no meio de uma perseguição, quando voltar ao escritório pode significar cair nas mãos do próprio MI5. No primeiro romance, Slow Horses, o encontro no túmulo também já existe, embora o livro não apresente uma razão definitiva para a escolha de Lamb. Blake não é uma pista sobre a conspiração; seu túmulo é o ponto ao qual a equipe sabe que deve voltar quando precisa sumir de vista.
A escolha também permite uma leitura menos prática, e aí já estamos no terreno da interpretação. Um cemitério historicamente associado a dissidentes combina com personagens que foram expulsos do centro de poder. Há algo de Lamb naquele homem que não aceita que uma instituição lhe diga como enxergar o mundo, embora seja difícil imaginar o chefe dos pangarés admitindo qualquer afinidade poética. A própria Londres de Blake, observada com desconfiança em seu poema London, parece conversar com a cidade de Herron, onde prestígio e autoridade frequentemente encobrem corrupção e crueldade.

Na sexta temporada, o retorno a Bunhill Fields ganha um peso novo. Antigos agentes de Slough House estão sendo assassinados, os registros da equipe desaparecem dos sistemas do MI5 e uma lista com seus nomes caiu nas mãos erradas. Ao descobrir que até os arquivos em papel sumiram, Lamb diz a Roddy “o túmulo de Blake”, manda transmitir a ordem e exige que todos fiquem incomunicáveis. Ele nem precisa explicar aos pangarés o que fazer com aquelas palavras. O que na primeira temporada parecia um plano improvisado de sobrevivência agora se revela uma das poucas regras estáveis que ele criou para protegê-los.
É isso que Blake tem a ver com os pangarés. Não se trata de um personagem escondido na conspiração, mas de um lugar real que a série transformou em protocolo secreto e sinal de pertencimento. Quando o código é acionado, os agentes sabem para onde ir e, sobretudo, entendem que precisam confiar uns nos outros. Para pessoas que o MI5 prefere tratar como descartáveis, talvez esse seja o ponto de encontro mais importante que poderiam ter.
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