Bill Conti: o homem que deu música à vitória de Rocky

Sylvester Stallone não foi o único desconhecido cuja vida mudou com Rocky. Quando o filme estreou, em 1976, Bill Conti também estava longe de ser um nome conhecido do grande público. Cinquenta anos depois, é praticamente impossível separar Rocky Balboa daqueles primeiros trompetes, embora reduzir o compositor a “Gonna Fly Now” seja ignorar uma carreira que passou por James Bond, Karate Kid, séries de enorme sucesso, um Oscar e quase duas décadas à frente da orquestra da própria cerimônia da Academia.

Nascido em Providence, Rhode Island, em 1942, Conti cresceu em uma família musical, estudou piano desde criança e conseguiu uma bolsa para a Louisiana State University como fagotista. Depois passou pela Juilliard e viveu na Itália, onde tocou em clubes, trabalhou anonimamente para outros compositores e começou a construir uma carreira no cinema. Antes de chegar a Rocky, já havia participado de produções italianas e trabalhado nos Estados Unidos com Paul Mazursky em filmes como Blume in Love e Harry and Tonto. Ainda assim, quando John G. Avildsen precisou de alguém para compor a trilha de seu pequeno filme sobre um boxeador da Filadélfia, Conti não estava entre os nomes mais disputados de Hollywood.

Na verdade, ele foi a terceira opção. Dois compositores haviam recusado o projeto, em grande parte porque o orçamento de Rocky era minúsculo e não havia dinheiro para oferecer um contrato atraente. Conti aceitou um pacote de US$ 25 mil, valor que ainda precisava cobrir músicos, estúdio, fitas, partituras e todas as outras despesas da gravação. Depois de pagar tudo, calculou ter ficado com cerca de US$ 15 mil. O curioso é que a trilha que passaria a representar grandiosidade, heroísmo e superação nasceu exatamente das mesmas limitações que cercavam o filme.

Conti gravou toda a música de Rocky em uma única sessão de três horas, em Hollywood, com 39 músicos e seis trompetistas. Avildsen e ele tampouco eram especialistas em boxe. Nenhum dos dois tinha assistido a uma luta ao vivo quando começaram a pensar em como aquele esporte deveria soar. Eles observaram imagens de boxeadores em câmera lenta ao som da Sinfonia Eroica, de Beethoven, e perceberam que havia algo quase coreográfico naquele movimento. Para Conti, porém, a ideia de heroísmo conduzia inevitavelmente aos metais: trompetes fortes, volume e uma sonoridade capaz de anunciar que alguém estava entrando em batalha.

A relação entre a música e o filme se tornou particularmente importante na sequência de treinamento. Avildsen precisava inicialmente de cerca de 90 segundos de trilha para montar as imagens, mas, conforme trabalhava com o enorme material filmado, começou a pedir mais tempo a Conti. A composição cresceu aos poucos, acompanhando a montagem, até se tornar a peça que hoje conhecemos como “Gonna Fly Now”. Essa construção quase artesanal combina perfeitamente com Rocky: nada ali parecia destinado a se transformar em algo monumental.

Quando o filme se tornou um fenômeno, a vida profissional de Conti mudou junto com a de Stallone. Rocky ganhou o Oscar de Melhor Filme, John G. Avildsen venceu como diretor e “Gonna Fly Now”, composta por Conti com letra de Carol Connors e Ayn Robbins, foi indicada a Melhor Canção Original. Alguns meses depois, a gravação chegaria ao primeiro lugar da Billboard Hot 100. De repente, a trilha feita em três horas para uma produção de baixo orçamento estava sendo ouvida em todo o país.

Conti voltou à franquia em Rocky II, Rocky III, Rocky V e, décadas depois, Rocky Balboa, mas rapidamente mostrou que sua carreira não dependeria apenas de Stallone. Em 1981, entrou para outra das grandes franquias do cinema ao compor a trilha de 007 — Somente Para Seus Olhos. A canção-título, interpretada por Sheena Easton, rendeu a ele uma segunda indicação ao Oscar de Melhor Canção Original.

Dois anos depois veio o prêmio que Rocky não lhe dera. Conti ganhou o Oscar de Melhor Trilha Sonora Original por The Right Stuff, consolidando seu lugar entre os grandes compositores de Hollywood. Pouco depois encontrou outro personagem que, de certa maneira, falava a mesma língua emocional de Rocky Balboa: Daniel LaRusso. Ele compôs a música de Karate Kid e de suas continuações, novamente trabalhando com Avildsen e novamente acompanhando a história de um jovem subestimado que precisa descobrir do que é capaz.

Na televisão, Conti construiu uma carreira igualmente importante. São dele os temas de Dynasty, Falcon Crest e Cagney & Lacey, além da trilha de North and South e de muitos outros trabalhos. Mas talvez a relação mais curiosa de sua trajetória seja aquela que manteve com o Oscar. Durante décadas, foi diretor musical e regente da cerimônia, chegando a comandar a orquestra em 18 edições. Também ganhou três Emmys pelo trabalho musical nas transmissões e acumulou diversas outras indicações.

Há uma ironia especialmente bonita nisso. O compositor que chegou a Rocky porque profissionais mais estabelecidos não quiseram aceitar um filme pequeno e quase sem dinheiro acabou se tornando o homem responsável pela música da noite em que Hollywood celebra a si mesma.

Conti e Rocky talvez tenham funcionado tão bem juntos justamente porque suas histórias acabaram se parecendo. Ambos entraram naquele filme como apostas improváveis e saíram dele ligados para sempre a uma ideia muito específica de coragem. Stallone criou o rosto do azarão. Bill Conti criou o som.


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