MobLand voltou com aquilo que sempre foi sua maior vantagem: um elenco absurdo de bom. Tom Hardy, Pierce Brosnan, Helen Mirren, Paddy Considine, Janet McTeer, Toby Jones e agora Johnny Flynn formam um grupo que poucas séries conseguem reunir. O problema é que, em apenas dois episódios, a segunda temporada conseguiu transformar uma história essencialmente simples em um novelo de alianças, traições, negócios paralelos e personagens que aparecem em vários núcleos ao mesmo tempo. E confesso que, em determinados momentos, precisei parar para lembrar quem estava traindo quem.
No fundo, a situação não é tão complicada. A família Harrigan está implodindo, e Harry da Souza continua sendo o homem encarregado de impedir que tudo desmorone. A diferença é que, desta vez, ninguém parece disposto a facilitar seu trabalho. Conrad e Maeve tomam decisões sem consultá-lo, Kevin já se movimenta como se estivesse pronto para substituir o pai, Seraphina procura seus próprios aliados, Eddie e Gina criam problemas paralelos e Jan finalmente chega ao limite de uma vida dominada pelos negócios dos Harrigan.

Harry continua sendo o centro mais fácil de acompanhar porque Tom Hardy constrói o personagem como um homem que vive tentando organizar o caos dos outros. Ele é o fixer, aquele que resolve os problemas antes que se transformem em guerras, mas começa a segunda temporada percebendo que perdeu algo ainda mais importante do que o controle das ruas: perdeu o controle da própria família Harrigan. Quando todos passam a agir sem avisá-lo, o trabalho deixa de ser administrar crises e passa a ser descobrir onde a próxima explosão vai acontecer.
Conrad Harrigan, interpretado por Pierce Brosnan, continua sendo oficialmente o patriarca, mas já não é tratado como o homem incontestável que comandava tudo. Kevin percebe isso e começa a agir por conta própria, aceitando negociar diretamente com um traficante turco que considera Conrad ultrapassado. O gesto seria perigoso em qualquer família criminosa, mas, entre os Harrigan, é praticamente uma declaração de guerra. Conrad descobre e responde da forma mais brutal possível, deixando claro que ainda pretende governar pelo medo mesmo quando sua autoridade começa a escapar.
A série acrescenta a isso a informação de que Conrad apresenta deterioração em áreas do cérebro relacionadas ao julgamento e ao autocontrole, o que certamente terá importância mais adiante. Ainda assim, seria simplista atribuir toda sua violência a isso. Conrad sempre foi um homem perigoso, impulsivo e acostumado a resolver qualquer ameaça pela força. O diagnóstico pode agravar o comportamento, mas não o criou.
Maeve continua sendo ainda mais assustadora. Helen Mirren interpreta a personagem como alguém que quase nunca precisa levantar a voz porque já está pensando alguns movimentos à frente de todos os outros. Ela interfere na relação entre Eddie e Gina, esconde decisões de Harry e, no segundo episódio, começa a investigar métodos de envenenamento justamente quando Seraphina ameaça conquistar mais espaço dentro da família. A série ainda deixa algum espaço para dúvida, mas não parece exatamente difícil imaginar quem Maeve gostaria de tirar do caminho.

Kevin, por sua vez, começa a temporada convencido de que chegou sua hora. Paddy Considine consegue fazer com que o personagem pareça ao mesmo tempo ambicioso e inseguro, o que ajuda a entender por que ele decide negociar pelas costas do pai. Kevin acredita que está demonstrando liderança, mas também está acelerando a guerra interna que Harry tenta desesperadamente evitar.
É nessa disputa que Seraphina percebe sua oportunidade. Filha de Conrad e meia-irmã de Kevin, ela não pretende assistir passivamente aos homens da família brigarem pelo império. Em vez disso, procura Kat McAllister e praticamente oferece uma aliança. Kat aceita conversar, mas não por generosidade. Janet McTeer interpreta uma mulher que percebeu perfeitamente aquilo que Harry também já entendeu: não é necessário destruir os Harrigan de fora se eles já começaram a se destruir por dentro.
Kat é provavelmente a ameaça mais inteligente desta temporada justamente porque não quer apenas matar Conrad ou tomar seus negócios. Ela quer explorar cada rachadura da família até que ela deixe de funcionar como estrutura. É aí que entram Colin Tattersall, vivido por Toby Jones, e Frankie Cooper, personagem de Johnny Flynn, que surge como uma espécie de versão sombria de Harry. Harry mantém estruturas funcionando. Frankie foi chamado para desmontá-las.
Essa talvez seja a ideia mais interessante apresentada até agora. Colin explica que não pretende atacar Harry diretamente, mas destruir tudo aquilo que o mantém de pé. Família, aliados, relações pessoais e profissionais viram pontos de pressão. Por isso o segundo episódio termina com tantos ataques simultâneos: Zosia é sequestrada, Bella é encurralada por Frankie, Fergus é atacado e Eddie e Gina precisam fugir. Não são acontecimentos separados. Fazem parte de um mesmo plano para obrigar Harry a correr em várias direções ao mesmo tempo até não conseguir salvar ninguém.

Ao mesmo tempo, Kat consegue provocar aquilo que mais interessa a qualquer inimigo dos Harrigan: paranoia. Seraphina deveria jantar com Conrad e Maeve, mas é orientada a não aparecer. Quando os ataques começam justamente naquela noite, a ausência dela imediatamente parece suspeita. É uma estratégia simples e eficiente, porque os Harrigan já não confiam uns nos outros e precisam de muito pouco para começar a procurar o traidor dentro da própria casa.
Jan também acaba envolvida nesse jogo quando Donnie se aproxima dela fingindo um pequeno acidente de carro e usa a situação para criar intimidade. Como ele também funciona como ligação com Seraphina, fica evidente que Kat está tentando alcançar Harry por todos os lados, inclusive através da mulher que acaba de pedir o divórcio porque já não suporta mais viver sob a sombra dos Harrigan.
E ainda existem Eddie e Gina, que parecem empenhados em demonstrar que a geração mais jovem consegue ser tão imprudente quanto as anteriores. Eles criaram um esquema próprio de extorsão disfarçado de proteção para influenciadores ricos, enquanto Maeve tenta separar os dois porque enxerga Gina como um obstáculo aos planos que tem para o neto. É mais uma trama que poderia funcionar isoladamente, mas que chega ao mesmo tempo em que Kevin desafia Conrad, Seraphina negocia com Kat, Jan abandona Harry, Frankie ataca a estrutura inteira e Maeve aparentemente prepara um envenenamento.
Talvez seja exatamente aí que MobLand esteja tropeçando. Não falta história, falta hierarquia. A série apresenta tantas movimentações simultâneas e tantos personagens com agendas próprias que o espectador passa parte do episódio tentando reorganizar mentalmente relações que deveriam estar ajudando a história a avançar.
Porque, quando conseguimos limpar o excesso de informação, a temporada está contando algo bastante direto. Conrad está perdendo o controle do império, Kevin acredita que chegou sua vez, Seraphina quer garantir seu próprio espaço, Maeve tenta continuar manipulando todos, Kat percebeu a fragilidade dos Harrigan e Harry é o último homem tentando impedir que a família desmorone completamente.

Isso não significa que MobLand tenha ficado ruim. Muito pelo contrário. O elenco continua excelente, Tom Hardy continua fascinante como Harry e Helen Mirren consegue transformar até uma conversa aparentemente banal em ameaça. Janet McTeer e Toby Jones acrescentam uma nova camada de inteligência ao conflito, enquanto Johnny Flynn surge como um adversário que pode realmente colocar Harry em dificuldade.
Mas a série parece acreditar que complexidade e confusão são a mesma coisa, e não são. Uma trama pode ter muitos personagens, alianças e traições sem fazer o espectador gastar metade do episódio tentando lembrar quem está ligado a quem. Depois de dois capítulos, a impressão é que MobLand tem uma história potencialmente muito boa escondida dentro de uma narrativa excessivamente embaralhada.
Talvez a maneira mais simples de continuar acompanhando seja esquecer momentaneamente todos os nomes, os negócios paralelos e as alianças secretas e lembrar apenas do essencial: os Harrigan estão se destruindo por dentro, Kat quer acelerar o processo e Harry está tentando segurar uma família que parece cada vez menos interessada em ser salva.
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