Existe uma coisa que me incomoda em Taylor Swift há algum tempo, e talvez eu nunca tenha conseguido formular exatamente por quê. Não é falta de talento, porque seria absurdo dizer isso. Não é desconhecimento de sua própria audiência, porque talvez poucas artistas compreendam tão bem quem as escuta e o que essas pessoas esperam dela. Também não é simplesmente uma questão de idade. Mas, perto dos 37 anos, Taylor ainda escreve muitas vezes sobre amor, abandono, ciúme, vingança e rejeição com uma voz emocional que parece continuar presa à adolescente que um dia transformou esses sentimentos em combustível para a carreira.
E talvez seja justamente aí que esteja a questão.
Taylor sempre construiu uma relação extraordinariamente íntima com o público porque fez da própria vida sentimental uma espécie de diário coletivo. Os detalhes importavam, as pistas importavam, os ex-namorados importavam e, principalmente, importava descobrir quem havia machucado quem. Durante muito tempo isso funcionou quase como uma extensão natural da idade que ela tinha. Era possível ouvir aquelas canções e reconhecer nelas a intensidade absoluta com que se ama aos 18, 20 ou 22 anos, quando uma mensagem não respondida parece capaz de mudar o eixo da Terra.
O problema é que o tempo passa para todo mundo, inclusive para a narradora.
E é aí que começo a sentir um pequeno descompasso. Não porque uma mulher adulta deva deixar de sofrer por amor, de sentir ciúme, de se apaixonar perdidamente ou de fazer péssimas escolhas. Pelo contrário. Talvez a vida adulta seja justamente descobrir que não existe idade em que essas coisas desapareçam. O que muda, ou deveria mudar, é a maneira como enxergamos aquilo que sentimos.

Uma adolescente pode acreditar genuinamente que o ex-namorado é o grande vilão de sua história. Uma mulher adulta talvez continue achando que ele foi um canalha, mas normalmente já sabe que as relações são um pouco mais complicadas do que isso. Já reconhece zonas cinzentas, responsabilidades divididas, repetições próprias, padrões que escolheu ignorar. A maturidade não elimina a dor; ela deveria acrescentar camadas.
É essa camada que às vezes procuro nas músicas de Taylor e não encontro.
Talvez seja injusto exigir de uma compositora que evolua exatamente na direção que esperamos. Artistas não têm obrigação de amadurecer diante de nós como personagens de um romance. E há outra possibilidade, talvez ainda mais interessante: Taylor sabe perfeitamente o que está fazendo. Pode ser que essa voz não seja apenas sua, mas a linguagem que construiu com milhões de mulheres que começaram a ouvi-la quando também eram adolescentes e continuam querendo reconhecer aquela mesma intensidade nas músicas.
Nesse caso, não estamos falando de imaturidade, mas de uma escolha artística — e comercial — muito consciente. Taylor cresceu, mas talvez a personagem Taylor Swift não possa crescer na mesma velocidade.
Isso me faz pensar em Madonna, por razões diferentes. Madonna passou a carreira inteira desafiando a ideia de que uma mulher precisa desaparecer quando envelhece, e nisso continua sendo revolucionária. Ao mesmo tempo, sempre me causa algum desconforto vê-la, já há tantos anos, insistir na palavra “girl”, na postura de garota rebelde, na juventude como linguagem central de provocação. Não porque uma mulher perto dos 70 anos tenha que se comportar de determinada maneira — Deus nos livre disso —, mas porque existe alguma coisa estranha quando a liberdade feminina parece continuar precisando ser apresentada como juventude. Por que não “woman”?
Talvez porque “woman” ainda carregue um peso que “girl” não carrega. Woman significa experiência, idade, responsabilidade, corpo adulto, passagem do tempo. Girl permanece ligada à promessa, ao desejo, à possibilidade. É mais leve. Mais vendável. E talvez mais confortável para uma indústria que nunca soube muito bem o que fazer com mulheres que envelhecem sem pedir desculpas.


É impossível não lembrar de Britney Spears cantando I’m Not a Girl, Not Yet a Woman aos 20 anos. Na época, a música falava daquele lugar intermediário entre adolescência e vida adulta. Hoje penso nela quase ao contrário. Quantas mulheres do pop parecem autorizadas a chegar plenamente ao segundo lado dessa frase?
Os homens não enfrentam a mesma exigência. Mick Jagger não precisa fingir ter 25 anos para subir ao palco. Bruce Springsteen pode cantar sobre memória, perda, desejo, morte e passagem do tempo sem que alguém pergunte por que ele não está tentando parecer mais jovem. Homens envelhecem e sua idade frequentemente é incorporada à mitologia. Para mulheres, envelhecer ainda é tratado como problema a ser administrado.
Talvez por isso Taylor me intrigue tanto. Porque ela está chegando justamente a esse ponto. Já não é a menina de Nashville escrevendo sobre o garoto que não percebeu que ela existia. É uma das mulheres mais poderosas da indústria cultural. Controla a própria obra, a própria narrativa, a própria imagem e provavelmente entende seu público melhor do que quase qualquer executivo sentado em uma gravadora.
Então quando ela escolhe continuar escrevendo a partir daquela voz emocional tão juvenil, a pergunta talvez não seja mais se Taylor Swift amadureceu. A pergunta é se queremos que ela amadureça. Porque talvez exista uma parte de seu público que não queira perder aquela garota. E talvez exista também uma parte dela que saiba que aquela garota ainda é seu personagem mais lucrativo, mais reconhecível e mais amado.
Isso não torna as músicas falsas. Mas torna a questão muito mais interessante. Talvez o verdadeiro conflito não seja entre maturidade e imaturidade. Talvez seja entre a mulher que envelhece inevitavelmente e a popstar que descobriu que, para permanecer eterna, precisa continuar sendo uma girl.
Acho que aqui está mais a sua voz: começa numa implicância real, mas vai desmontando a própria implicância e chegando numa questão maior sobre idade, persona e o que permitimos que uma mulher seja no pop.
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