Taylor Swift, Todd Rundgren e a disputa pela grandeza no pop

Taylor Swift sabe transformar uma noite de premiação em mais um capítulo de sua biografia. Um troféu pode confirmar um recorde, abrir uma nova frente de atuação e oferecer aos fãs outra ocasião para celebrar que ela “fez história”. No VMA de 2026, a primeira homenagem do Artist Director Honors acrescentou a diretora à consagração da cantora e compositora. Enquanto isso, fora do palco, um veterano da música fazia uma avaliação consideravelmente menos entusiasmada de seus talentos.

Todd Rundgren chamou Taylor de “apoteose da mediocridade” em entrevista à Vulture. Questionou suas qualidades como cantora, compositora e dançarina e sugeriu que haveria um argumento para responsabilizá-la por ter arruinado a música. É uma rejeição tão abrangente que desperta uma curiosidade: o que ele está avaliando quando praticamente nada do que ela faz parece merecer algum reconhecimento?

Antes de prosseguir, vale apresentar quem está falando. Rundgren pode não ser um nome imediatamente familiar para parte do público de Taylor, mas tem uma trajetória importante. Como cantor e compositor, deixou “Hello It’s Me”, “I Saw the Light” e o álbum Something/Anything?. Como produtor, trabalhou no primeiro disco dos New York Dolls, em Wave, de Patti Smith, em Skylarking, do XTC, e em Bat Out of Hell, de Meat Loaf. Seu repertório atravessa experimentação, prestígio e sucesso comercial. Embora sua carreira solo ocupe um espaço muito diferente do de Swift, ele conhece o mainstream por dentro.

Isso dá peso à sua opinião, mas não a transforma em sentença. Ninguém precisa vender tanto quanto Taylor para avaliar suas músicas, assim como circular num nicho não garante sofisticação. O sucesso comercial pode conviver com excelência artística, acomodação ou uma mistura das duas. Para chamar uma obra de medíocre, é preciso explicar onde ela falha. Quando a argumentação inclui uma provocação sobre o cabelo da cantora e a teoria de que as mulheres passaram a dominar o mercado porque os meninos trocaram música por videogames, a crítica começa a revelar seus próprios limites.

Tenho minhas reservas em relação a Taylor e não preciso escondê-las para reconhecer seu valor. Há boas canções, uma capacidade extraordinária de criar identificação e uma inteligência comercial que merece respeito. Ao mesmo tempo, caminhando para os 37 anos, ela ainda me parece, em parte de sua produção, cantar com a perspectiva de quem tem 15. Não porque uma mulher adulta deva deixar de falar de amor ou rejeição. O que me incomoda é a recorrência de conflitos nos quais mudam os personagens, mas permanece a necessidade de responder, guardar recibos e demonstrar quem estava certo.

Às vezes, sinto falta de uma transformação no olhar, além da mudança de cenário. Uma decepção pode render músicas durante uma vida inteira; o interesse está no que cada nova abordagem descobre sobre ela. A experiência acrescenta ambivalência, autocrítica, alguma surpresa? Ou apenas oferece novas evidências para uma acusação que já conhecemos? É por aí que prefiro discutir a maturidade de uma composição, em vez de estabelecer uma idade a partir da qual determinado assunto estaria proibido.

Também não considero a potência vocal uma medida suficiente para decidir quem merece permanecer na música. Uma voz pequena pode ter personalidade e produzir uma interpretação inesquecível. Uma voz magnífica pode impressionar e, ainda assim, recorrer continuamente às mesmas soluções. Alcance, timbre, fraseado e interpretação são coisas diferentes. O que sinto falta, em alguns casos, é de variedade na intenção, de uma maneira de cantar que permita ouvir algo que a letra, sozinha, não entregaria.

É impossível discutir esse assunto sem lembrar Madonna. Cantar e dançar já faziam parte da música popular muito antes dela e de Michael Jackson. O que os dois ajudaram a consolidar foi um grau de integração em que o corpo, a coreografia e a imagem passaram a participar da identidade das canções. Michael estabeleceu uma referência extraordinária de performance. Madonna levou a construção do espetáculo e a reinvenção da estrela feminina a uma dimensão que influenciou gerações. Avaliá-la apenas pela voz sempre deixaria de fora uma parte fundamental de sua contribuição.

Nesse modelo, figurinos, bailarinos, personagens e encenação compõem a proposta artística. A combinação entre canto ao vivo, bases gravadas e playback também entra numa negociação entre a execução vocal e a exigência física da apresentação, com ganhos e perdas que podemos avaliar. Para boa parte das grandes estrelas pop, o espetáculo se tornou uma expectativa do público. Subir ao palco e cantar continua sendo suficiente para muitos artistas, mas outros trabalham dentro de uma linguagem em que se espera muito mais.

Taylor começou associada ao country, ao violão e às histórias que cantava. A dimensão da Eras Tour mostra quanto sua apresentação incorporou essa linguagem de espetáculo. Ela não precisa ser uma dançarina excepcional para trabalhar com coreografias, nem ter a potência vocal de Beyoncé para organizar uma experiência capaz de mobilizar estádios. Cabe avaliar como usa seus recursos. Madonna também enfrentou acusações que reduziam sua importância à imagem e questionavam seu talento musical. Reconhecer essa semelhança não significa igualar suas obras, mas lembrar que a criação pop envolve várias competências.

Uma das mais evidentes em Taylor é a organização da própria trajetória. Suas “eras” correspondem aos discos e às identidades musicais e visuais de cada lançamento, mas oferecem aos fãs uma maneira de reconhecer fases de suas próprias vidas. A pessoa lembra onde estava, com quem se relacionava e o que sentia quando determinada canção entrou em seu cotidiano. A biografia da cantora funciona como um calendário afetivo compartilhado.

Há nessa construção uma autocelebração que faz parte tanto do encanto quanto do incômodo. Uma relação, uma ruptura, uma resposta e uma mudança de imagem podem adquirir dimensão de acontecimento. Encontro um elemento narcísico nessa centralidade do eu, como característica da narrativa pública. Taylor sabe convidar os fãs a interpretar pistas, reconhecer referências e participar de seu universo. O limite aparece quando esse universo parece oferecer cada vez menos espaço para alguma coisa que não seja confirmar sua própria importância.

Os números ajudam a sustentar essa posição. Ela alcança resultados extraordinários e sabe transformá-los em argumento. Vendas, prêmios e recordes entram numa narrativa em que cada conquista confirma a anterior e anuncia a próxima. Não é preciso suspeitar da autenticidade desses resultados para discutir o significado que recebem. Ser a mais premiada demonstra reconhecimento concreto; não resolve, sozinho, se uma canção é melhor que outra ou se uma obra terá vida longa.

O novo prêmio do VMA oferece um exemplo interessante. O Artist Director Honors é uma homenagem, diferente da categoria competitiva de Melhor Direção, na qual Taylor já havia vencido. O produtor Bruce Gillmer afirmou que a ideia veio de fora da organização, sem identificar sua origem. Isso não permite dizer que ela criou um prêmio para si mesma. Permite observar, porém, como uma honraria recém-criada produz imediatamente outra “primeira vez”. Ser a primeira a recebê-la não equivale a inaugurar a atividade de cantora e diretora.

A insistência em anunciar pioneirismos também atravessa a maneira como acompanhamos Beyoncé. As conquistas das duas são frequentemente apresentadas em termos de recordes e legado, alimentando uma comparação que parece precisar de uma vencedora definitiva. Lady Gaga e outras artistas poderiam ampliar essa conversa, com propostas e qualidades próprias. Mas a disputa entre Beyoncé e Taylor carrega uma cena que ficou gravada na cultura pop.

Em 2009, Taylor recebia seu primeiro VMA, por “You Belong with Me”, quando Kanye West tomou o microfone para defender “Single Ladies”. O “I’mma let you finish” virou meme, embora ele tivesse acabado de impedi-la de terminar. A intervenção estabeleceu uma hierarquia pública: Taylor podia ter o prêmio, mas Beyoncé teria a grandeza artística que justificava estar naquele lugar. Beyoncé ganhou Vídeo do Ano naquela mesma noite e chamou Taylor de volta para concluir o agradecimento. A oposição foi imposta por Kanye, não por ela.

Parte dessa dinâmica encontra um eco na fala de Rundgren. Uma entrevista crítica é muito diferente de interromper uma jovem no palco, mas reaparece a disposição de anunciar que Taylor ocupa um espaço maior do que merece. Mais uma vez, um homem assume esse papel. Isso não torna toda crítica masculina misógina; torna relevante examinar como ela é formulada, especialmente quando o desprezo alcança também as mulheres que escutam a artista.

Uma desqualificação tão abrangente pode oferecer aos fãs mais uma razão para defendê-la. A mulher que reúne poder, dinheiro e reconhecimento continua podendo ser vista como alguém cujo talento precisa ser protegido de quem tenta diminuí-la. Curiosamente, a tentativa de reduzir sua importância acaba alimentando uma das narrativas mais eficazes de sua carreira.

Reconhecer esse mecanismo não obriga ninguém a considerar Taylor uma grande poeta, uma intérprete excepcional ou a melhor artista de sua geração. Podemos discutir a repetição das letras, as escolhas musicais e a distância entre a ambição de uma canção e seu resultado. Seu valor cultural existe, mas não deve encerrar a avaliação da obra. O repertório de Rundgren também merece respeito sem que suas preferências se tornem uma medida universal.

Ainda não sabemos o que as próximas gerações guardarão de Taylor Swift. O tempo pode preservar músicas que hoje parecem menores e deixar para trás conquistas anunciadas como históricas. Quando Rundgren rejeita tudo, facilita uma defesa que dispensa o exame das canções. Quando cada troféu vira certificado de excelência, acontece algo parecido. Taylor sabe fazer uma premiação contar sua história; a música ainda precisa ter espaço para contar o resto.


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