Ted Lasso: por que a despedida de Mae dói tanto

Contém spoilers até o episódio 9 da quarta temporada de Ted Lasso.

A apenas um episódio para o final da temporada, a morte de Mae Green deixa uma pergunta que vai além da tristeza pelo fim de uma personagem querida: como será voltar ao Crown & Anchor sem encontrá-la? Ao longo de quatro temporadas, Ted Lasso nos acostumou à presença de Annette Badland atrás daquele balcão, acompanhando as conversas, interferindo quando julgava necessário e mantendo o Richmond vivo mesmo quando ninguém estava em campo. Sua despedida muda o significado de um lugar que aprendemos a reconhecer como casa. Para Ted, essa mudança é ainda mais íntima, porque Mae fazia parte da maneira como Londres deixou de ser apenas a cidade onde ele trabalhava.

É bonito recuperar como essa relação começou. Ted ainda precisava aprender a linguagem daquele universo, inclusive os insultos que recebia. Mae lhe explicou o significado de “wanker” com um gesto, numa cena em que a diferença cultural virava humor sem impedir a aproximação. Ela não oferecia uma recepção açucarada, nem precisava ser conquistada por cada frase otimista do americano. Tinha opiniões, impaciência e uma paixão pelo clube que não dependia dele. Isso dava valor ao vínculo que os dois construiriam: Ted encontrava alguém que podia gostar dele e continuar discordando.

No fim da primeira temporada, quando o desânimo cerca o Richmond, Mae lembra que é a esperança que mata. A frase contrasta com tudo o que Ted tenta ensinar, mas vem de quem conhece o sofrimento de torcer. Sua resistência à promessa de felicidade tem história. O encontro entre os dois ganha força porque nenhum precisa apagar completamente o outro: ele oferece uma maneira de acreditar; ela conhece o preço de acreditar muitas vezes e se decepcionar. O pub abriga essa conversa tanto quanto abriga uma partida.

Também é ali que acontece o jogo de dardos contra Rupert, um dos momentos que melhor definem Ted. Mae está presente no espaço em que ele enfrenta a arrogância do antigo dono e protege Rebecca da humilhação. O Crown & Anchor permite que os personagens se revelem fora de seus cargos: a proprietária do clube pode ser uma mulher ferida, o treinador aparentemente ingênuo pode surpreender, o homem que se considera dono da situação pode perder. Mae acompanha esse mundo com a autoridade de quem sabe que prestígio não determina o valor de uma pessoa.

Uma de suas intervenções mais importantes, porém, acontece quando Ted recebe a visita da mãe, em “Mom City”, na terceira temporada. Perto da máquina de fliperama, Mae recita This Be the Verse, de Philip Larkin, poema sobre as feridas que os pais transmitem aos filhos, carregando também as que receberam. É uma escolha que alcança o desconforto por trás da cordialidade de Ted com Dottie. Mae percebe algo que ele ainda tem dificuldade de colocar em palavras e encontra uma forma de aproximá-lo dessa verdade.

A cena ajuda a entender por que sua perda toca tão fundo. Ted costuma ser a pessoa que percebe os outros, procura uma frase, oferece companhia e tenta transformar o sofrimento em algo suportável. Com Mae, ele também podia ser visto. Ela não precisava aceitar sua simpatia como prova de que estava tudo bem. Sua atenção atravessava o comportamento agradável e alcançava alguém que, apesar de cuidar de tanta gente, continuava precisando de cuidado.

Na quarta temporada, essa proximidade entra ainda mais na rotina. Ted mora no apartamento acima do pub, e Mae passa a fazer parte também do cotidiano de Henry. A perda deixa de ser apenas a ausência de uma amiga num lugar que ele frequenta. Muda o ambiente para o qual pai e filho voltam. Mesmo que o endereço permaneça, haverá outra experiência de morar ali: o barulho das conversas, a descida até o pub, a expectativa de encontrá-la, pequenos hábitos que agora terão de conviver com a ausência.

Isso não significa que Ted terá de se mudar. A série ainda não explicou o destino do imóvel nem quem ficará responsável pelo Crown & Anchor. Mas há uma pergunta afetiva tão importante quanto a prática: aquela casa continuará sendo a mesma para ele? E quanto à sua ligação com Londres estava nessa certeza de poder encontrar Mae? Um lugar se torna nosso também pelas pessoas que nos reconhecem quando chegamos. Perdê-las pode nos fazer sentir estrangeiros novamente, mesmo numa rua que conhecemos de cor.

Por que a despedida de Mae dói tanto

O futuro do pub também está em aberto. Quem assumirá o balcão, preservará seus hábitos e reunirá Baz, Jeremy, Paul e os demais torcedores? O Crown & Anchor pode continuar funcionando, mas manter suas portas abertas não basta para reproduzir o que Mae fazia. Ela ajudava a transformar um estabelecimento numa comunidade. A série terá de lidar com essa diferença, e nós também: alguém poderá ocupar seu lugar de trabalho sem ocupar o lugar que ela tinha na vida de todos.

Há, porém, outra parte de sua história que impede tratá-la apenas como uma presença acolhedora. Mae era acionista do AFC Richmond. Seu compromisso com o clube tinha também uma expressão concreta, justamente quando a compra das participações dos torcedores se tornou uma ameaça ao controle de Rebecca. O amor pelo time não ficava restrito à televisão do pub ou aos gritos na arquibancada; ela possuía uma parte dele.

Foi Mae também quem ajudou Higgins a orientar a investigação com o conselho “siga a raiva”. A cena no porão brincava com o informante de Todos os Homens do Presidente, mas sua observação tinha valor: para entender uma tentativa de tomar o Richmond, era preciso considerar o ressentimento por trás do dinheiro. Higgins e Rebecca concentraram a suspeita em Rupert, enquanto o público passou a enxergar Zelda. Mae não resolveu o mistério, mas ajudou a formular a pergunta.

É por isso que suas ações merecem atenção agora. Será que elas podem ajudar a salvar Rebecca? A hipótese é plausível, embora o episódio ainda não revele quem as herdará nem que peso terão na disputa. Não sabemos se existe uma disposição em favor de Ted, de pessoas ligadas ao clube ou de alguém que manteria aquela participação longe de Zelda. Qualquer resposta definitiva seria antecipar um final que ainda não vimos. Mas o roteiro deixou um caminho para que a influência de Mae continue produzindo consequências.

Seria uma maneira comovente de prolongar sua presença: a mulher que sempre reuniu torcedores poderia ajudar a preservar o Richmond nas mãos de quem se importa com ele. Isso daria às ações uma dimensão maior do que a de uma solução conveniente para a trama. Um vínculo construído durante uma vida poderia continuar protegendo uma comunidade depois da morte. Ainda é uma possibilidade, mas nasce do que Mae já fazia, em vez de exigir que se invente uma importância para ela na despedida.

Seu último dia reúne essas diferentes formas de pertencer. Ao viajar com as Lady Greyhounds e contar que também quis jogar futebol, Mae se aproxima de uma oportunidade que sua geração não teve. Participa, aconselha e celebra. É doloroso que esse dia termine em morte, mas seria igualmente redutor descrevê-la apenas como uma senhora que partiu feliz. Havia desejos naquela mulher, histórias ainda não contadas e uma vida que não parecia encerrada. A alegria do passeio não diminui o que foi interrompido.

Em meio às minhas ressalvas sobre esta temporada, Mae continuava sendo alguém em quem eu acreditava. Sua morte atinge Ted como amigo, pai, morador daquele apartamento e americano que encontrou um lugar numa comunidade inglesa. Pode atingir Rebecca também na disputa pelo futuro do clube. O próximo episódio terá de responder a algumas dessas perguntas, mas nenhuma solução de herança ou de propriedade devolverá o gesto mais simples: entrar no pub e encontrá-la. Talvez suas ações ainda salvem o Richmond. Para Ted, porém, uma parte da Londres que o acolheu já mudou para sempre.


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