Contém spoilers do episódio 9 da quarta temporada.
O título “Mae anda de ônibus” parece prometer uma daquelas aventuras laterais de Ted Lasso, em que um personagem querido ganha espaço para nos lembrar por que gostamos tanto daquele universo. Mas o penúltimo episódio da quarta temporada usa a viagem de Mae com as Lady Greyhounds para preparar uma despedida. Entre a gravidez de Keeley, a confirmação de que Zelda é a ameaça que Rebecca não queria enxergar e uma vitória com gol de Shannon, a série reúne motivos para comemorar antes de retirar da festa uma de suas presenças mais familiares.

A pressão por um resultado acompanha as jogadoras, mas há também uma pressão literal fora de campo. Keeley está grávida e precisa evitar estresse por causa da pressão alta. Depois de tanto tempo dedicado ao desencontro entre ela e Roy, a série acelera o relacionamento com uma notícia que muda o futuro dos dois. O curioso é que Keeley demora a dividir a descoberta com ele, embora conte para Rebecca, criando mais uma espera em torno de um casal que já passou boa parte da temporada esperando.
A conversa entre as amigas preserva um dos vínculos mais importantes de Ted Lasso. Rebecca é a pessoa a quem Keeley consegue recorrer enquanto ainda processa a novidade, e essa intimidade continua sendo um apoio para ambas. Ainda assim, o adiamento da conversa com Roy pesa mais como mecanismo de suspense do que como um conflito desenvolvido. A gravidez é uma mudança enorme, claro, mas o episódio prolonga a revelação para guardar a reação dele.
Quando finalmente sabe que vai ser pai, Roy fica radiante. É uma resposta que combina com a ternura que sempre existiu por trás de sua dificuldade de expressar sentimentos. Depois de tantas idas e vindas, vê-lo feliz com Keeley tem seu valor, mesmo que a gravidez seja uma solução bastante conhecida para marcar uma nova etapa de um romance. O interesse agora estará em como os dois vão lidar com essa etapa depois que passar a alegria do anúncio.


Rebecca, enquanto isso, continua enfrentando o problema das ações do Richmond com a atenção voltada para Rupert. É compreensível que seu passado com o ex-marido a faça pensar nele imediatamente diante de uma tentativa de tomar o clube. O problema é que essa certeza a deixa vulnerável à pessoa que está diante dela. Zelda aparece sem reunião marcada, participa das conversas e consegue mais informações porque Rebecca ainda a recebe como alguém em quem pode confiar.
A confirmação de Zelda como vilã encerra uma suspeita que o roteiro vinha alimentando de maneira bastante evidente. Sua proximidade, a facilidade com que se inseria nos assuntos do clube e a conveniência de suas intervenções já faziam a suposta ajuda parecer interessada. Neste episódio, Rebecca continua oferecendo acesso enquanto procura o perigo em outra direção. A revelação funciona melhor como consequência dessa confiança mal depositada do que como surpresa: a série já tinha mostrado demais para que a identidade da ameaça fosse um grande mistério.
Dentro de campo, o episódio oferece às Lady Greyhounds a oportunidade de responder à pressão com ações. Quinn finalmente aceita usar luvas, enquanto Shannon recebe sua chance e a aproveita marcando o gol da vitória. Para uma personagem cuja insegurança vinha ocupando espaço na temporada, o gol dá uma consequência concreta ao processo de encontrar seu lugar no time. É um momento em que a trajetória de uma jogadora e a necessidade coletiva de vencer se encontram.
É também o resultado que transforma a viagem de Mae em algo doloroso. Sua presença junto das meninas aproxima o time de uma torcedora que sempre fez parte da vida do Richmond. Mae não é apenas alguém que acompanha uma partida: o Crown & Anchor, seu pub, é um dos lugares onde aquela comunidade existe fora do estádio, discutindo, celebrando e sofrendo pelo clube.
Quando Mae morre após a comemoração, a vitória deixa de organizar o sentimento do episódio. O problema cardíaco acontece em meio à alegria, e a série muda abruptamente o significado da viagem que deu título ao capítulo. O gol de Shannon continua sendo uma conquista, mas passa a fazer parte da lembrança do último jogo de uma personagem que parecia destinada a estar sempre ali.

A despedida ganha ainda outra dimensão com a dedicatória a Anthony Head, o intérprete de Rupert, ao final do episódio. A homenagem aproxima o luto da ficção de uma perda da própria equipe. Não basta, por si só, para determinar se o personagem terá alguma aparição posterior, mas dá aos créditos um peso que vai além do destino de Mae.
“Mae anda de ônibus” encaminha o final da temporada misturando resoluções previsíveis com uma perda muito mais difícil de absorver. Zelda confirma o que já suspeitávamos, Roy recebe a notícia que aguardávamos e Shannon encontra seu momento. Mae, porém, deixa uma ausência num lugar que a série nos ensinou a reconhecer como casa. O Richmond vence, mas a comunidade que vai celebrar essa vitória já não é a mesma.
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