Depois de dedicar um episódio inteiro a um dos muitos Jasons deixados para trás — e entregar, para mim, um dos capítulos mais bonitos de Dark Matter — a série volta à família Dessen em “What the Universe Is Made Of”, mas alguma coisa mudou: a Caixa continua no centro de tudo, naturalmente, só que a pergunta desta semana não é exatamente para onde ela pode levá-los. É outra: depois de tudo o que aconteceu, Jason, Daniela e Charlie ainda conseguem descobrir quem são sem ela?
Daniela começa procurando uma resposta no passado. Ela vai atrás de Gabriel Vargas, o homem que considera seu pai, embora descubramos que ele é, na realidade, seu padrasto. Gabriel entrou em sua vida quando ela tinha oito anos, depois da morte de seu pai biológico, e foi quem ocupou esse lugar afetivo desde então.
É uma escolha bastante reveladora. Daniela passou a temporada tentando descobrir se consegue continuar casada com Jason depois de tudo o que viveu, mas, quando precisa se afastar, não procura outro universo, uma aventura ou sequer uma solução. Procura o pai.

Gabriel mora afastado, e Daniela permanece ali por algum tempo, desenhando, pintando e tentando recuperar uma versão de si mesma que existia antes da Caixa. Ele percebe que alguma coisa está errada e oferece uma daquelas frases aparentemente simples que, em Dark Matter, acabam sempre carregando outro significado: aquilo que não enfrentamos não desaparece simplesmente porque decidimos enterrá-lo. Só que existe um pequeno problema. Gabriel conhece a filha. Reconhece inclusive seus traços na pintura. Portanto, sabe que aquela mulher é Daniela.
Mas ele acabou de falar pelo telefone com Daniela. A filha dele que vive em San Francisco. Gabriel acha que está tendo algum tipo de problema neurológico até Daniela finalmente lhe contar a verdade. Sim, sua filha continua em San Francisco. E sim, aquela mulher diante dele também é Daniela. Pela primeira vez, ela conta a alguém de fora da família Dessen sobre o multiverso. É um detalhe importante porque Daniela passou quase toda a história obrigada a aceitar uma realidade impossível criada pelos Jasons. Agora, finalmente, ela transforma sua experiência em narrativa. Ela conta sua própria história.
Jason, enquanto isso, encontra outra Amanda. Não é Amanda Lucas, que conhecemos, mas Amanda Azevedo, dona do restaurante onde Charlie está trabalhando. O rosto é o mesmo; a vida, completamente diferente. Esta Amanda queria estudar medicina, mas abandonou o projeto quando a mãe, durante um episódio maníaco, comprou o restaurante usando a casa como garantia e gastou o dinheiro destinado à faculdade da filha. É uma pequena história que resume perfeitamente a lógica de Dark Matter: basta mudar algumas circunstâncias e a mesma pessoa pode acabar vivendo uma existência inteiramente diferente.
E é justamente Amanda quem diz a Jason algo que ele precisa ouvir: Charlie está crescendo, seu casamento está em crise e ele não pode construir toda a própria identidade apenas em torno das funções de marido e pai. Porque essa talvez tenha sido uma das grandes armadilhas de Jason desde o começo. Durante anos, ele olhou para Jason2 como o homem que poderia ter sido: o cientista brilhante, reconhecido, capaz de transformar uma teoria impossível na Caixa. Jason escolheu Daniela e Charlie. O problema é que transformou essa escolha também numa espécie de identidade absoluta. Agora começa a perceber que uma coisa não precisa excluir a outra.
Quando reencontra Blair, a conversa finalmente devolve Jason à ciência e talvez seja aqui que o episódio plante sua ideia mais interessante. Esta não é uma Blair qualquer. É a Blair que entrou na Caixa durante os experimentos de Jason2 e ficou presa naquele universo tomado pelas criaturas semelhantes a insetos. Ela finalmente conseguiu sair e procurou deliberadamente um mundo menos tecnológico, onde pudesse desaparecer, começar de novo e viver sem rastros digitais por toda parte. Só que, neste universo praticamente infinito, ela encontra Daniela. Depois encontra Jason. Qual a probabilidade disso acontecer?
É daí que surge a hipótese da semana: e se os viajantes da Caixa estiverem de alguma maneira entrelaçados?

Jason vinha estudando quantum entanglement justamente porque queria descobrir como impedir definitivamente o acesso da Caixa àquele universo. Destruir a estrutura física não resolve. Eles já descobriram isso. Se alguém de outro universo criar uma conexão com aquela realidade, outra Caixa pode simplesmente aparecer. Portanto, talvez não seja possível destruir a Caixa. Talvez seja necessário romper a conexão. E Blair levanta uma hipótese ainda mais inquietante: se partículas podem permanecer ligadas independentemente da distância, será que alguma coisa semelhante acontece com aqueles que atravessam universos?
Talvez Jason, Amanda, Blair, Leighton, Daniela e os outros continuem encontrando uns aos outros porque suas vidas ficaram conectadas de uma maneira que nem mesmo o multiverso consegue desfazer. Ou, como Jason sugere, talvez eles sempre tenham estado conectados. A Caixa apenas tornou isso visível. É uma ideia bonita e perigosíssima para a série porque muda completamente a lógica do acaso em Dark Matter. O multiverso pode ser infinito, mas talvez as relações não sejam.
Blair leva Jason a um evento acadêmico e, cercado novamente por cientistas, professores e pesquisadores, ele finalmente admite algo que parece quase constrangedor de dizer: quer voltar a ser cientista, pesquisar, publicar. Quer descobrir alguma coisa. E quando Jason teme estar tentando ocupar o lugar do outro Jason, Blair lembra algo muito simples: a inteligência também é dele.
Talvez uma das grandes questões da temporada seja justamente esta. Jason passou tanto tempo definindo Jason2 como “o cientista” e a si mesmo como “o homem que escolheu a família” que esqueceu que ambos nasceram da mesma pessoa. Escolher Daniela não apagou o cientista. Assim como escolher a ciência não precisa significar abandonar Daniela.
O episódio reserva ainda uma das cenas mais delicadas para Jason e Charlie. Jason finalmente conta ao filho que, em uma de suas viagens, encontrou um universo no qual Max sobreviveu. Max recebeu um transplante de coração. Charlie quer imediatamente saber como o irmão era. Jason tenta descrevê-lo: inteligente, engraçado, empático, às vezes difícil. Mas termina encontrando a única palavra que realmente importa. Perfeito. E há algo muito bonito na maneira como a série trata essa informação. Jason não propõe encontrar aquele Max. Não sugere abrir a Caixa novamente. Não transforma a existência do menino em outra missão. Ele apenas conta a Charlie que o irmão existiu, em algum lugar, e teve uma vida.
Talvez Jason esteja finalmente começando a entender que saber que outro mundo existe não significa que precisamos possuí-lo.
Mas enquanto Jason começa a imaginar uma vida além da Caixa, Leighton está fazendo exatamente o contrário. No evento, Blair encontra Leighton Vance e inicialmente não sabe se está diante de outra versão dele. Não está. É o Leighton que ela conhecia e ele se lembra dela. Conta que ficou com seu gato Murphy depois que Blair desapareceu e admite que vive naquele universo há quase dois anos. E fez algo impressionante.
Leighton percebeu que aquela realidade estava tecnologicamente atrasada e começou a introduzir nela conhecimentos de mundos mais avançados. Microprocessadores. Computadores. Tecnologia que ainda não deveria existir ali. Naturalmente, ficou riquíssimo. Mas dinheiro era apenas o começo.
Leighton leva Blair para os antigos túneis de carga subterrâneos de Chicago e explica a lógica de seu projeto. Infraestruturas muito antigas têm maior possibilidade de existir aproximadamente no mesmo lugar em diferentes realidades. E então mostra o que está construindo: uma nova estrutura ligada à Caixa, maior, mais complexa e aparentemente pensada não para uma pessoa procurando outro mundo, mas para transformar viagens entre realidades em alguma coisa organizada. Industrial. Talvez até permanente.
Blair olha para aquilo e só consegue perguntar o que nós também estamos pensando: que diabos é aquilo? E a resposta fica para a próxima semana. Mas antes disso Dark Matter ainda deixa uma pequena bomba dentro da própria família. Charlie pega uma lanterna. Pega a droga necessária para atravessar a Caixa. E entra sozinho.

É impossível não perceber a ironia. Jason e Daniela passaram duas temporadas tentando proteger o filho das consequências da Caixa. Talvez nunca tenham percebido que, ao crescer cercado por universos infinitos, Charlie poderia acabar desenvolvendo exatamente aquilo que Jason tem: a necessidade de abrir a porta. A pergunta agora não é apenas onde Charlie vai. É o que ele está procurando. Porque depois de seis episódios, Dark Matter parece finalmente abandonar a fantasia de que existe um universo perfeito esperando atrás de alguma porta.
Jason quer voltar à ciência. Daniela precisa descobrir quem é depois de tudo o que viveu. Charlie começa sua própria viagem. Blair percebe que os viajantes talvez estejam ligados. E Leighton decidiu fazer aquilo que sempre acontece quando a humanidade encontra alguma coisa extraordinária: transformar uma descoberta em sistema.
A Caixa começou como uma máquina capaz de responder a uma pergunta íntima: e se eu tivesse escolhido outra vida? Leighton talvez esteja prestes a responder outra, muito mais assustadora. E se pudéssemos escolher o mundo inteiro?
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