A Leste do Éden: quando a herança familiar parece um destino

Contém spoilers de East of Eden.

Entender por que fazemos alguma coisa nem sempre nos impede de fazê-la novamente. Podemos reconhecer uma relação que nos machuca, perceber nossa necessidade de aprovação e até ouvir a voz dos nossos pais nas palavras que juramos nunca repetir. Ainda assim, lá estamos nós, vivendo algo dolorosamente familiar. Essa distância entre perceber e conseguir mudar é uma das coisas que mais me interessam na psicanálise e está no coração de A Leste do Éden.

Uma frase usada para apresentar a história dizia que as relações se repetem até que alguém interrompa o ciclo. O problema é que, durante boa parte da série, ninguém parecia conseguir interromper nada. Os filhos sofriam com os pais e, quando se tornavam pais, produziam feridas semelhantes. Mudavam os rostos, as circunstâncias e a geração, mas permaneciam a disputa pelo amor, a rejeição e a dificuldade de reconhecer o outro. Foi por isso que a palavra pronunciada no final, timshel, me pareceu tão importante. Depois de tanta repetição, havia uma possibilidade.

A palavra, com essa grafia no romance de John Steinbeck, ganha o sentido de “tu podes”. Sua origem na obra está numa discussão de Gênesis 4:7, quando Deus fala a Caim depois de rejeitar sua oferta e aceitar a de Abel. Caim está tomado pelo ressentimento, mas ainda não matou o irmão. O pecado é apresentado como algo à espreita, à porta, que deseja dominá-lo. A passagem coloca diante dele a possibilidade de dominar esse impulso. Há um momento anterior à violência em que outro caminho pode ser tomado.

No romance, Lee estuda essa passagem e compara traduções que alteram profundamente seu sentido. Uma formulação promete que o homem vencerá o pecado; outra lhe ordena que o faça. “Tu podes” abre uma possibilidade, sem garantir a vitória ou determinar a derrota. É a interpretação que Steinbeck transforma no centro moral de sua história. A tradução e a transliteração do hebraico têm nuances e são discutidas, mas interessa aqui o sentido que a expressão adquire dentro da obra: aquilo que nos constitui não precisa determinar todos os nossos atos.

Lembrei dessa passagem porque ela também apareceu numa aula de Cabala, numa discussão sobre livre-arbítrio. É uma aproximação que me interessa, embora a leitura psicanalítica exija considerar o quanto desconhecemos dos motivos que nos movem. Uma escolha não acontece num vazio, inteiramente livre de nossa história. Podemos acreditar que estamos decidindo alguma coisa e, sem perceber, responder a uma exigência antiga, procurar uma aprovação ou tentar reparar uma rejeição. A possibilidade de escolher de outra maneira passa também por investigar essas forças.

Somos atravessados por desejos inconscientes, identificações e maneiras de nos relacionar que se constituem muito antes de conseguirmos explicá-las. A família participa dessa formação pelas palavras que diz e pelas que não diz, pelo afeto que distribui, pelas expectativas que impõe e pelos lugares que reserva a cada filho. Um aprende que precisa ser exemplar para merecer amor. Outro se percebe como o problema da casa. Esses lugares podem continuar organizando nossas relações muito depois de sairmos deles.

A repetição não se limita, portanto, a copiar conscientemente o comportamento dos pais. Às vezes, juramos que faremos tudo diferente e reencontramos uma posição conhecida em outra relação. Procuramos aprovação onde ela permanece inacessível, entendemos uma recusa como prova de que não temos valor ou tentamos conquistar, finalmente, o amor que antes nos faltou. Há repetições que podem ser compreendidas como tentativas de dar outro desfecho a um conflito, mas que acabam recriando o sofrimento. Aquilo que não conseguimos elaborar encontra formas de continuar acontecendo.

Em Recordar, repetir e elaborar, de 1914, Freud descreve como o sujeito pode reproduzir em atos aquilo que não consegue reconhecer como parte de sua história. Ele repete sem saber que está repetindo. Por isso, perceber um padrão importa, mas não basta anunciar uma decisão e esperar que toda a vida psíquica a acompanhe. A elaboração exige tempo e o enfrentamento de resistências. Até uma posição dolorosa pode oferecer alguma segurança por ser familiar; abandoná-la implica tolerar que ainda não sabemos exatamente quem seremos fora dela.

Num processo de análise, essa possibilidade vai sendo construída quando conseguimos escutar algo do que dizemos, reconhecer o que fazemos e investigar aquilo que parecia simplesmente ser “o nosso jeito”. Expressões como “eu sou assim” e “comigo sempre acontece isso” podem começar a perder sua aparência de verdade definitiva. O analista não decide pelo sujeito nem lhe promete uma mudança. A escuta e o trabalho de elaboração podem abrir espaço para que ele reconheça sua participação nas relações e encontre outras maneiras de se posicionar. O “tu podes”, nessa aproximação, aparece quando uma certeza começa a ceder.

A família Trask permite acompanhar o peso dessas certezas em duas gerações. Charles ama Adam, mas também o inveja e o agride. Deseja o reconhecimento de Cyrus, o pai dos dois, e não consegue suportar a preferência por seu meio-irmão mais velho. Quando encontra Cathy, reconhece nela uma escuridão que conhece em si mesmo. Essa identificação lhe permite perceber aquilo que Adam, preso à sua idealização, não enxerga. Mas reconhecer uma semelhança não torna os dois equivalentes: Charles procura um amor que lhe falta, enquanto Cathy frequentemente transforma o amor alheio em instrumento de controle.

Cal vive esse conflito de maneira particularmente intensa. Ao conhecer Cathy, encontra uma explicação assustadora para aquilo que reconhece em si: se sua mãe é cruel e ele também é capaz de crueldade, talvez esteja condenado a ser como ela. A semelhança passa a ameaçar sua identidade inteira. A dúvida sobre Charles ser seu tio ou seu pai biológico acrescenta uma camada à história, mas a paternidade dos gêmeos não é esclarecida. A pergunta decisiva permanece: o parentesco determina o que ele poderá fazer da própria vida?

Do ponto de vista psicanalítico, interessa observar como Cal interpreta essa origem e se identifica com ela. Uma herança biológica não equivale a um destino moral. “Sou igual à minha mãe” pode se tornar uma maneira de explicar um impulso, mas também de encerrar a investigação sobre si mesmo. Se tudo já está decidido, não haveria responsabilidade nem possibilidade de mudança. Lee intervém justamente nessa certeza, ajudando o menino a perceber que reconhecer algo da mãe em si não significa estar inteiramente definido por ela.

A rejeição de Adam, entretanto, devolve Cal à ferida familiar. Ele deseja ser reconhecido pelo pai e, quando sua tentativa fracassa, atinge Aron. O sofrimento se transforma em violência contra o irmão, repetindo algo que já vimos entre Charles e Adam. A possibilidade de interromper o ciclo aparece depois desse gesto. Cal precisa suportar a culpa e reconhecer sua participação no que aconteceu, sem se reduzir à ideia de que é essencialmente mau e, portanto, incapaz de viver de outra maneira.

É importante distinguir a responsabilidade por um ato da condenação de toda uma existência. Cal pode reconhecer que feriu o irmão sem concluir que tudo o que fará será inevitavelmente destrutivo. A elaboração dessa culpa não exige apagar o ocorrido, mas encontrar uma maneira de responder por ele que permita continuar vivendo. Na minha leitura, é Cal quem começa a dar corpo ao timshel. Ele já repetiu a violência; o final lhe oferece a possibilidade de não fazer da repetição o único caminho que conhece.

Nesse ponto, a palavra do pai adquire uma força que ultrapassa uma explicação sobre livre-arbítrio. Ao dizer timshel, Adam oferece a Cal a possibilidade de não permanecer identificado apenas com seu pior ato. O pai não pode desfazer a morte de Aron, mas ainda pode reconhecer o filho sobrevivente. Há uma abertura dos dois lados: Cal pode deixar de ocupar apenas o lugar do filho condenado, e Adam pode interromper, naquele encontro, a rejeição que atravessou sua própria história.

Lee, que sustentou o cuidado quando os outros faltaram, ajuda a tornar esse encontro possível. Sua presença materna e paterna mostra como a vida dos meninos também foi constituída por vínculos que ultrapassam a origem biológica. A abertura para a mudança acontece entre pessoas, com afeto, escuta e reconhecimento. Isso não faz de Lee um analista nem transforma o encontro final numa sessão, mas permite pensar a importância de alguém que não confirma a sentença que o sujeito construiu sobre si mesmo.

A palavra pronunciada por Adam é também a última dita no romance. A série preserva esse núcleo e o amplia com a proximidade física e o afeto entre os personagens. No filme de 1955, dirigido por Elia Kazan, Lee foi eliminado e a discussão explícita sobre timshel ficou de fora. O encerramento encontra outra forma de aproximar pai e filho, quando Adam pede que Cal cuide dele. Zoë Kazan recupera a palavra e todo o percurso necessário para que ela chegue até nós com o peso de duas gerações repetindo suas feridas.

Há ainda algo no próprio título que amplia essa leitura. Em Gênesis 4:16, depois de matar Abel, Caim vai viver na terra de Nod, a leste do Éden. Não é um endereço que possamos localizar com segurança num mapa atual. Dentro da história, é o lugar de sua vida depois do crime, afastado da presença de Deus. Para pensar Steinbeck, interessa também a imagem de uma existência fora do paraíso, em que a inocência já não pode ser recuperada e os atos têm consequências.

Numa aproximação psicanalítica, esse lugar permite pensar a renúncia a uma vida ideal, na qual nada teria faltado, ninguém teria nos ferido e nós mesmos jamais teríamos feito mal a alguém. Cal não pode voltar ao momento anterior à sua decisão, assim como não pode escolher outros pais ou receber retroativamente todo o amor que desejou. Pode, entretanto, trabalhar a relação que mantém com essa história. A possibilidade de mudança existe nesse mundo imperfeito, com suas perdas e responsabilidades.

É assim que leio o final de East of Eden. A série não nos permite saber que Cal jamais repetirá a violência, mas o deixa diante de outra possibilidade. Ele pode reconhecer sua história, assumir responsabilidade e começar a construir uma relação diferente com aquilo que recebeu. Romper uma repetição é um trabalho doloroso porque exige perder certezas, inclusive as certezas terríveis que temos sobre nós mesmos. “Tu podes” ganha sua força nesse ponto: quando o passado continua existindo, mas deixa de ser a única resposta disponível para o futuro.


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