Tom Cruise pode me convencer a assistir a muita coisa. Poucos atores entendem tão bem o cinema como espetáculo, a importância de uma sala cheia e o prazer de acompanhar alguém que parece disposto a fazer o impossível para nos entreter. Mas, quando penso em Days of Thunder 2, minha primeira reação é desconfiar. Há retornos que parecem atender a um desejo coletivo. Esse, por enquanto, parece depender mais da vontade de seu protagonista.
Lançado em 1990, Dias de Trovão já carregava a comparação com um “Top Gun sobre rodas”. Não era difícil entender por quê: Cruise, Tony Scott, Jerry Bruckheimer e Don Simpson voltavam a reunir velocidade, competição, um jovem talentoso e arrogante e um romance no caminho de sua transformação. O problema é que a combinação não produziu o mesmo impacto. O filme teve público, ganhou defensores e deixou imagens na memória, mas sua recepção foi irregular e o desempenho comercial ficou aquém das expectativas. Não se tornou outro Top Gun.
Sua permanência na biografia de Cruise também tem uma dimensão que ultrapassa o cinema: foi ali que ele conheceu Nicole Kidman. Para quem acompanhou os dois nos anos seguintes, é difícil separar o filme daquele encontro. Isso lhe dá importância na história pessoal do ator, mas não necessariamente cria uma necessidade narrativa de reencontrar Cole Trickle quase quatro décadas depois.

Entendo a tentação. Top Gun: Maverick fez de uma continuação tardia um fenômeno, e Cruise saiu daquele voo com sua posição de superstar reafirmada. Só que o resultado reuniu circunstâncias que não podem ser encomendadas junto com um roteiro. A experiência de voltar ao cinema depois da pandemia, a nostalgia por uma época, o prazer do espetáculo físico e o encontro com um herói envelhecido contribuíram para transformar a estreia em um acontecimento. O filme tinha qualidade para sustentar tudo isso, mas também encontrou seu momento.
O sucesso de F1, com Brad Pitt, acrescentou combustível a essa aposta. Um astro veterano, velocidade, espetáculo para a tela grande e uma história de superação: a combinação tem muito da fórmula que Cruise ajudou a consolidar, mas dessa vez rendeu para Pitt. É difícil não enxergar nesse resultado um estímulo adicional à recuperação de Dias de Trovão. Isso não significa que F1 tenha originado a continuação, mas seu desempenho tornou a ideia comercialmente mais sedutora. Entre o fenômeno de Maverick e o interesse renovado pelas pistas, Cole Trickle parece encontrar uma oportunidade para voltar. Minha dúvida continua sendo se essa oportunidade também corresponde a uma boa história.
A passagem do tempo era parte da força de Maverick. Seu protagonista podia continuar sendo excepcional, mas precisava conviver com perdas, consequências e a chegada de uma geração que ocuparia seu lugar. Havia uma emoção no retorno que não dependia apenas de reconhecer um rosto ou ouvir uma música. Rever aquele homem significava também medir o quanto nós mesmos havíamos mudado.
É aí que minha confiança em Days of Thunder 2 começa a falhar. Não sinto uma ausência de Cole Trickle no cinema. Não me parece que sua história tenha ficado esperando uma conclusão ou que seu retorno carregue, de saída, um peso emocional semelhante. Pode haver um roteiro capaz de construir esse interesse, claro. Mas o sucesso de Maverick não transforma automaticamente todos os personagens antigos de Cruise em patrimônio afetivo à espera de recuperação.

O momento de sua carreira torna essa escolha ainda mais interessante. Cruise tem um reconhecimento como astro que poucos podem disputar, mas a consagração de seu trabalho como ator continua sendo uma questão recorrente. Seria injusto apagar Nascido em 4 de Julho, Jerry Maguire ou Magnólia dessa conversa. Ele já demonstrou sua capacidade dramática. Ainda assim, depois de tantos anos em que a entrega física se tornou sua principal assinatura, cada retorno a um projeto de prestígio chega cercado de uma expectativa quase ansiosa de reconhecimento.
Digger, com Alejandro González Iñárritu, entrou nesse espaço. A combinação parecia feita para alimentar previsões de Oscar, mas a recepção inicial tornou o caminho menos confortável. As críticas mornas ao filme não eliminam os elogios à atuação de Cruise, nem encerram suas chances de premiação. Apenas lembrem que reunir um grande astro, um diretor consagrado e uma transformação de imagem não garante a consagração que se espera.
Anne Hathaway acrescenta outra camada à minha reserva com Dias de Trovão. É uma atriz com recursos dramáticos e um Oscar, embora sua imagem ainda me remeta muito ao romance e à comédia. Sua entrada no universo de Cole Trickle não me provoca uma identificação imediata. O material divulgado a apresenta como dona de equipe e engenheira, o que pode lhe dar uma participação interessante nesse ambiente. Mas estar no elenco ao lado de Cruise não confirma, por si só, que os dois formarão um casal.
Se houver romance, será preciso construí-lo. Por enquanto, não vejo essa faísca nas imagens de apresentação, embora uma fotografia não possa resolver a química de duas pessoas em cena. Meu estranhamento é uma reação inicial, não uma conclusão sobre o trabalho de Hathaway. O que me interessa é perceber se o filme encontrará uma relação que faça sentido para esse personagem hoje, com a idade e a história que ele carrega.


Ainda é cedo para decretar um fracasso, mas não para questionar a aposta. Uma continuação desse porte exige dinheiro, tempo e uma energia que Cruise poderia colocar em tantas outras histórias. Ele certamente tem capacidade para transformar uma premissa pouco empolgante em espetáculo. A dúvida é se esse esforço encontrará uma vontade equivalente do outro lado da tela.
Continuo considerando Tom Cruise o maior superstar do cinema. É justamente por isso que espero de suas escolhas algo além da recuperação de títulos conhecidos. Maverick mostrou como uma volta pode ganhar significado. Days of Thunder 2 ainda precisa me convencer de que havia alguém esperando por ela.
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