A Tale of Two Cities: fiel a Dickens, mas distante demais de nós

Há adaptações de clássicos que erram ao tentar modernizar demais. Mudam o comportamento das personagens, atualizam valores, suavizam conflitos, acrescentam discursos que nunca pertenceram àquela sociedade e acabam transformando uma obra do século 19 em algo escrito com a cabeça do século 21. Eu vivo reclamando disso e, talvez por isso, tenha me surpreendido tanto ao terminar A Tale of Two Cities com a sensação oposta: a de que faltou justamente alguma ponte que aproximasse essa história de nós.

A nova adaptação é, em muitos aspectos, fiel ao espírito de Dickens. A Revolução Francesa está ali com sua violência, seus excessos e sua promessa de justiça transformada em vingança; a honra da palavra continua determinando decisões que hoje parecem quase incompreensíveis; e Sydney Carton segue caminhando para aquele sacrifício definitivo, escolhendo morrer para que a mulher que ama possa ser feliz com outro homem. É um dramalhão enorme, assumidamente novelesco e, nesse sentido, profundamente dickensiano. O problema é que tudo isso permaneceu distante demais emocionalmente.

Não porque os sentimentos tenham envelhecido. Amor não correspondido, ressentimento, injustiça, desigualdade, vingança, culpa e desejo de redenção continuam perfeitamente reconhecíveis. O que parece distante é a forma como a série os apresenta. Há uma solenidade constante nas relações, nos diálogos e até nos silêncios, e isso transforma personagens potencialmente muito humanos em figuras quase simbólicas. Nós entendemos o que está em jogo, mas nem sempre sentimos.

Kit Harington é provavelmente quem melhor atravessa essa distância. Sydney Carton combina muito bem com aquilo que ele sabe fazer: o homem amargurado, fechado, cansado, que sente mais do que consegue expressar. É impossível não lembrar de Jon Snow. O olhar baixo, o silêncio, a culpa, a sensação permanente de carregar algo pesado demais para colocar em palavras estão todos ali. Harington está bem, mas em alguns momentos é quase como assistir a Game of Thrones em outro cenário, até porque Sydney e Jon compartilham uma espécie de vocação para o sofrimento silencioso e para o sacrifício.

A diferença é que Game of Thrones construiu durante anos um universo em que entendíamos emocionalmente por que Jon tomava determinadas decisões. Aqui, apesar de toda a preparação, Sydney continua um pouco distante de nós. Seu gesto final é enorme, talvez até grande demais para um público contemporâneo. Ele não apenas abre mão de Lucie nem apenas salva Charles Darnay: decide morrer para garantir a felicidade da mulher que ama, trocando de lugar com outro homem e caminhando conscientemente para a guilhotina. No romance, esse sacrifício fecha a trajetória de um personagem que passou boa parte da vida acreditando que ela não tinha valor; ao entregar essa vida por alguém, Sydney finalmente encontra um sentido para ela. É bonito, mas também profundamente romântico no sentido mais antigo da palavra, e talvez seja aí que a adaptação encontre sua maior dificuldade.

Hoje, a ideia de que o amor possa ou deva culminar em um autossacrifício dessa dimensão soa menos naturalmente heroica do que certamente soava para leitores de outra época. Não porque tenhamos perdido a capacidade de compreender o gesto, mas porque mudamos nossa maneira de pensar amor, individualidade, desejo e responsabilidade. O sacrifício de Sydney continua intelectualmente admirável, só que a série não encontrou uma maneira de torná-lo emocionalmente inevitável para quem assiste agora.

E isso vale também para a própria Revolução Francesa. Estamos vendo uma sociedade construída sobre desigualdade extrema, privilégio, fome e violência institucional desmoronar. Nada disso deveria parecer distante, porque vivemos em um mundo novamente atravessado por concentração de riqueza, ressentimento social, radicalização política e pela facilidade com que discursos de justiça podem se transformar em desejo de punição. A conexão estava ali, pronta, mas a série raramente procura por ela. Sua Revolução Francesa permanece muito presa à iconografia da Revolução Francesa: multidões enfurecidas, aristocratas, tribunais, guilhotinas, sangue e vingança. Funciona como reconstrução histórica, mas pouco como espelho.

Talvez esse seja justamente o ponto que mais me incomodou. Eu não queria que A Tale of Two Cities colocasse palavras de 2026 na boca de personagens do século XVIII. Não queria Lucie discursando como uma mulher contemporânea, nem Sydney explicando seu trauma em linguagem terapêutica, nem Madame Defarge transformada em comentário simplificado sobre radicalização moderna. Isso seria exatamente o tipo de anacronismo que costumo rejeitar. Mas existe uma diferença enorme entre modernizar um clássico e torná-lo contemporâneo.

Uma adaptação não precisa mudar Dickens para nos fazer perceber por que Dickens ainda importa. Essa ponte poderia estar no ritmo, na intimidade dos personagens, na forma de apresentar as desigualdades, na violência política, no ressentimento que passa de uma geração para outra ou mesmo na pergunta central da história: o que fazemos quando somos colocados diante da possibilidade de escolher entre aquilo que desejamos e aquilo que acreditamos ser certo? Tudo isso continua atual; a série simplesmente não consegue fazer com que pareça.

Nem mesmo Madame Defarge, talvez a personagem mais fácil de aproximar de discussões contemporâneas, ganha toda a complexidade que poderia. Sua vingança nasce de violência real, mas cresce até não distinguir mais justiça de punição coletiva. Há ali uma discussão poderosa sobre o momento em que uma causa legítima passa a justificar qualquer crueldade, uma questão evidentemente muito pouco distante da nossa sociedade, mas a adaptação prefere tratá-la sobretudo como engrenagem dramática.

No fim, voltamos a Sydney. Seu desfecho continua funcionando porque Dickens construiu uma das imagens mais poderosas da literatura: um homem que passou a vida se considerando desperdiçado encontra, finalmente, algo que considera digno dela. Harington entende isso e entrega o momento sem exageros, sem precisar transformar o sacrifício em espetáculo emocional. Sydney sabe o que está fazendo e parece, talvez pela primeira vez, em paz. É uma boa atuação e um belo final, mas eu o admirei mais do que senti.

Talvez essa seja a melhor maneira de resumir toda a minissérie. A Tale of Two Cities respeita Dickens, respeita sua época, respeita sua estrutura melodramática e mantém intacta a grandiosidade moral de seus personagens. Em tempos em que tantas adaptações parecem constrangidas pelo material original, isso certamente é uma qualidade. Mas respeito sozinho não cria intimidade e, ironicamente, depois de tantas vezes reclamar de clássicos atualizados demais, terminei esta adaptação desejando que ela tivesse encontrado alguma forma, sem mudar Dickens, de mostrar por que aquela velha história sobre revolução, ressentimento, honra, amor e sacrifício ainda poderia ser também uma história sobre nós.


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