Na mesma semana em que UNABOMBER se manteve como o filme mais visto da Netflix no mundo, crescendo de 16,4 milhões para 24,9 milhões de visualizações, Monster: The Lizzie Borden Story ainda ocupava o segundo lugar entre as séries em inglês, depois de liderar o ranking global por duas semanas. A coincidência ajuda a confirmar algo que as plataformas já sabem há muito tempo: o true crime não é uma moda passageira, nem pertence exclusivamente à Netflix. Ele responde a uma curiosidade comportamental praticamente universal.


Ted Kaczynski e Lizzie Borden não poderiam ser figuras mais diferentes. Ele foi um terrorista doméstico do fim do século 20, identificado, preso e condenado por uma série de atentados com bombas. Ela foi uma mulher da Nova Inglaterra vitoriana, absolvida pelo assassinato do pai e da madrasta, mas condenada para sempre pelo imaginário popular. Mesmo assim, as produções construídas em torno dos dois casos fazem perguntas semelhantes. Em que momento aquela pessoa se tornou capaz de matar? Havia sinais? A família percebeu? A sociedade poderia ter impedido? E, sobretudo, existe uma explicação capaz de nos tranquilizar?
É justamente essa promessa que mantém o true crime vivo. Assistimos porque o crime real nos oferece uma espécie de laboratório comportamental no qual acreditamos ser possível observar o mal em segurança. Procuramos a infância, os traumas, as humilhações, as relações familiares, as contradições e os pequenos gestos que, organizados depois que tudo aconteceu, parecem formar uma linha inevitável. A palavra importante, porém, é “depois”. Quando já conhecemos o crime, todos os detalhes anteriores correm o risco de se transformar em presságios.
A Netflix não inventou o fascínio, mas aprendeu a organizá-lo
A Netflix transformou o true crime em uma de suas linguagens mais reconhecíveis. Making a Murderer ajudou a criar a sensação de que o espectador não era apenas audiência, mas investigador. The Keepers, Night Stalker, The Tinder Swindler, American Murder, The Staircase e as várias produções sobre Ted Bundy, Jeffrey Dahmer e os irmãos Menendez mantiveram o gênero em circulação, alternando documentários, dramatizações e formatos híbridos.
A antologia Monster, de Ryan Murphy, deu um passo além ao transformar criminosos e casos históricos em personagens recorrentes da cultura pop. Depois de Dahmer e dos irmãos Menendez, Lizzie Borden voltou não apenas como suspeita de um crime nunca resolvido, mas como protagonista de uma narrativa que mistura fatos, hipóteses, invenções e leituras contemporâneas. O perigo está justamente aí: quanto mais bem produzida e interpretada é a série, mais facilmente esquecemos onde termina a documentação e começa a fantasia.
A própria plataforma aperfeiçoou um sistema de continuidade. O espectador termina uma série dramatizada e imediatamente recebe documentários, entrevistas, explicações do final, cronologias e outras histórias semelhantes. O true crime deixa de ser um título isolado e se transforma em corredor infinito. Um crime leva ao próximo porque todos prometem a mesma recompensa: desta vez, talvez consigamos entender.


O gênero está em toda parte
A HBO já havia demonstrado a força dessa obsessão com The Jinx, cuja narrativa se tornou parte do próprio caso de Robert Durst. I’ll Be Gone in the Dark acompanhou não apenas a investigação sobre o Golden State Killer, mas também a obsessão de Michelle McNamara em identificá-lo. A Max dramatizou The Staircase, história que já havia sido examinada durante anos em formato documental, provando que um mesmo caso pode ser recontado sucessivamente porque cada versão promete acesso a uma verdade diferente.
No Hulu, disponibilizado pelo Disney+ em vários mercados, The Act reconstruiu o caso de Gypsy Rose Blanchard, enquanto Under the Bridge voltou ao assassinato da adolescente Reena Virk. The Girl from Plainville investigou a responsabilidade emocional e jurídica de Michelle Carter na morte de Conrad Roy. O Peacock transformou Dr. Death em franquia; a Apple TV encontrou em Black Bird uma combinação de thriller, investigação e perfil psicológico; o Prime Video abordou Ted Bundy a partir das mulheres que conviveram com ele em Ted Bundy: Falling for a Killer. No MGM+, American Hostage recuperou um sequestro no qual o criminoso usou uma transmissão de rádio para negociar, manipular a audiência e construir sua própria narrativa pública.
São estilos e plataformas diferentes, mas o mecanismo permanece reconhecível. Queremos saber quem mentiu, quem percebeu tarde demais, qual detalhe foi ignorado e se nós teríamos enxergado o perigo. O true crime transforma a audiência em júri, detetive, psicólogo e, às vezes, cúmplice involuntário do espetáculo.


A fantasia de que podemos reconhecer o mal
Em algum nível, consumir true crime é uma tentativa de controle. O crime real nos confronta com o acaso, com a violência inesperada e com a possibilidade de que pessoas aparentemente comuns escondam algo terrível. Ao reconstruir os acontecimentos, procuramos restaurar uma ordem. Se houver uma causa clara, um padrão ou um comportamento identificável, então talvez o perigo possa ser previsto.
É por isso que perfis de criminosos exercem tanto fascínio. Não basta saber o que aconteceu; queremos saber quem aquela pessoa “realmente era”. A pergunta parece objetiva, mas carrega uma fantasia tranquilizadora: a de que monstros são sempre reconhecíveis. Quando uma produção apresenta uma infância traumática, um isolamento crescente, uma humilhação ou uma obsessão, sentimos que encontramos a peça que faltava. O problema é que milhões de pessoas vivem experiências semelhantes sem se tornarem assassinas, enquanto muitos criminosos não se encaixam na narrativa psicológica perfeita que o audiovisual gostaria de construir.
Também há uma diferença entre compreender e justificar. Investigar como alguém se constituiu subjetivamente não significa absolvê-lo, mas o entretenimento frequentemente torna essa fronteira desconfortavelmente vaga. Quanto mais tempo passamos com o criminoso, maior o risco de que sua inteligência, sua dor ou seu carisma ocupem o centro, enquanto as vítimas são reduzidas ao evento que permitiu a existência daquela história.


Por que tantas mulheres assistem?
Pesquisas e interpretações sobre o público do true crime frequentemente apontam a forte presença feminina. A explicação mais repetida é que muitas mulheres consomem essas histórias como uma forma de aprendizado: querem reconhecer sinais de abuso, manipulação e violência, compreender como vítimas foram atraídas para determinadas situações e imaginar como poderiam escapar.
Há alguma lógica nisso, mas a resposta não pode ser simplificada como uma espécie de manual de sobrevivência. Mulheres também cresceram sendo ensinadas a administrar riscos, desconfiar de estranhos, observar rotas, avisar onde estão e interpretar rapidamente o humor de homens ao redor. O true crime organiza medos que já existem. Ele dá nome, rosto e conclusão a ameaças difusas, permitindo que a espectadora experimente o perigo com a garantia de estar protegida diante da tela.
Mesmo assim, a promessa de aprendizado pode ser ilusória. Muitos crimes acontecem dentro de casa, envolvem pessoas conhecidas e não apresentam os sinais claros que as narrativas destacam depois. O gênero oferece uma sensação de preparo, mas também pode alimentar paranoia, reforçar estereótipos e criar a impressão de que toda tragédia poderia ter sido evitada se alguém tivesse prestado mais atenção.


Quando a vítima desaparece outra vez
O maior problema ético do true crime surge quando a história passa a pertencer mais à plataforma, ao produtor, ao ator e ao público do que às pessoas que viveram o caso. Famílias descobrem que seus traumas serão dramatizados sem que tenham sido consultadas, vítimas recebem poucos minutos de contexto e criminosos ganham interpretações de prestígio, campanhas publicitárias e uma nova geração de admiradores.
A Netflix foi particularmente criticada por esse desequilíbrio em Dahmer. A série pretendia devolver humanidade às vítimas, mas Jeffrey Dahmer continuou sendo o rosto, o nome e o principal objeto de fascínio. O mesmo risco aparece sempre que a pergunta “como alguém pôde fazer isso?” ocupa tanto espaço que já não perguntamos quem sofreu, quem sobreviveu e quem precisa reviver o pior momento de sua vida porque uma plataforma decidiu transformá-lo em conteúdo.
Lizzie Borden oferece ainda outra complicação. Como foi absolvida e o crime permanece sem solução, qualquer produção precisa escolher entre preservar a dúvida ou oferecer ao público a satisfação de uma resposta. A ficção costuma preferir a segunda opção. O mistério é comercialmente poderoso, mas a solução inventada é dramaticamente mais confortável.

O espelho não é o criminoso, somos nós
A força do true crime não está apenas no horror, no mistério ou na curiosidade mórbida. Ela está em nossa necessidade de encontrar causalidade onde existe caos. Gostamos de acreditar que, se observarmos com atenção suficiente, compreenderemos o criminoso, protegeremos a vítima e reconheceremos o perigo antes que ele atravesse a porta.
É por isso que o gênero sobrevive à troca de plataformas, formatos e gerações. Antes das séries, houve livros como A Sangue Frio, de Truman Capote, jornais sensacionalistas, julgamentos transformados em espetáculo e multidões atraídas por execuções públicas. A tecnologia mudou a distribuição, não o impulso.
O sucesso simultâneo de UNABOMBER e Monster: The Lizzie Borden Story confirma que o true crime continua sendo uma linguagem universal porque oferece duas coisas que raramente encontramos na vida real: uma narrativa organizada e a promessa de uma explicação. Talvez o que nos prenda não seja apenas o desejo de entender o mal, mas a esperança de que o mal possa ser entendido. E, se puder ser entendido, talvez também possa ser reconhecido, controlado e mantido a uma distância segura.
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