O que acontece quando dois escorpiões são colocados na mesma caixa? A pergunta parece ter sido feita sob medida para Ryan Murphy e a segunda temporada de All’s Fair, especialmente quando vemos Carrington Lane (Sarah Paulson) e Allura Grant (Kim Kardashian) prontas para um confronto que promete deixar a primeira temporada parecendo uma troca civilizada de gentilezas. As duas estão cada vez mais determinadas a destruir uma à outra, e as referências aos escorpiões em seus figurinos parecem longe de ser uma coincidência. Afinal, existe algo mais ameaçador do que um escorpião? Talvez dois, quando nenhum deles aceita recuar.
Na natureza, escorpiões são predadores que, em sua maioria, levam uma vida solitária. Algumas espécies toleram a proximidade de outros indivíduos, mas encontros podem provocar disputas territoriais violentas e até canibalismo. Colocar dois escorpiões em um espaço limitado não significa necessariamente que um matará o outro, mas aumenta as possibilidades de confronto, especialmente quando não existe uma rota de fuga. O animal que parece imóvel não está necessariamente indefeso. Escorpiões são caçadores pacientes, capazes de esperar pelo momento favorável para atacar, e seu ferrão funciona principalmente como instrumento de defesa e captura de presas.

Na astrologia, evidentemente, o escorpião assume uma dimensão muito mais dramática. O signo é associado à intensidade, ao magnetismo, ao segredo, à necessidade de controle e, sobretudo, à dificuldade de esquecer uma traição. A imagem popular de uma pessoa de Escorpião é a de alguém que pode suportar muitas coisas, mas que raramente perdoa uma humilhação. Não é uma descrição científica de personalidade, naturalmente, mas oferece uma metáfora perfeita para personagens que parecem existir em função de disputas de poder. E poucas rivalidades televisivas são tão ostensivamente construídas sobre o ressentimento quanto a de Carrington e Allura.
Carrington, vivida por uma Sarah Paulson maravilhosamente exagerada, é praticamente a personificação do escorpião ameaçado. Ressentida, obsessiva, agressiva e incapaz de aceitar que foi deixada para trás pelas antigas colegas, ela transformou a própria carreira em uma cruzada pessoal contra Allura. Sua inteligência jurídica passa a servir também como instrumento de vingança, e sua necessidade de derrotar a adversária é tão intensa que frequentemente ultrapassa qualquer cálculo racional. Carrington não quer simplesmente vencer. Quer que Allura reconheça sua superioridade e sinta o peso da derrota.
Allura, por outro lado, representa um escorpião mais sofisticado na maneira de administrar a própria imagem. Kim Kardashian, que na vida real nasceu sob o signo de Libra, interpreta uma mulher que combina ambição, controle, vaidade e uma capacidade extraordinária de transformar a própria presença em demonstração de poder. Ao contrário de Carrington, que frequentemente deixa sua raiva transparecer, Allura tenta preservar a aparência de quem tem tudo sob controle, mesmo quando sua vida pessoal e profissional está desmoronando. São formas diferentes de exercer agressividade: uma prefere atacar de maneira explícita, enquanto a outra procura vencer pela influência, pela resistência e pelo domínio da situação.
É essa diferença que torna o confronto tão interessante. Quando dois predadores disputam o mesmo território, a vantagem não pertence necessariamente àquele que ataca primeiro, mas àquele que compreende melhor os movimentos do adversário. Carrington conhece Allura, suas ambições e suas fraquezas. Allura, por sua vez, sabe que a obsessão da rival pode ser sua maior vulnerabilidade. Nenhuma das duas é particularmente boa em aceitar derrotas, e ambas parecem convencidas de que qualquer concessão será interpretada como fraqueza.

O trailer da segunda temporada promete transformar essa rivalidade em espetáculo físico, com confrontos, humilhações públicas e uma escalada de agressividade absolutamente coerente com o universo de Ryan Murphy. Os figurinos extravagantes, as cores intensas e os acessórios carregados de simbolismo reforçam a ideia de que aquelas mulheres não estão apenas disputando clientes, dinheiro ou prestígio. Estão lutando pela própria identidade, em uma guerra na qual vencer parece menos importante do que impedir a vitória da outra.
E há um detalhe especialmente irônico nessa história. O escorpião, apesar de sua reputação, não vive procurando confrontos desnecessários. O veneno é um recurso precioso, e muitos desses animais preferem evitar ameaças quando podem. Já Carrington e Allura parecem incapazes de reconhecer o momento de desistir. Quanto mais se enfrentam, mais investem na própria destruição, como se a possibilidade de deixar a adversária em paz representasse uma derrota insuportável.
No fundo, talvez seja essa a melhor definição da segunda temporada de All’s Fair. Não estamos diante de uma disputa em que duas mulheres precisam necessariamente destruir uma à outra para sobreviver, mas de uma situação em que ambas decidiram que não existe espaço suficiente para as duas. E, quando ninguém aceita sair da caixa, a pergunta deixa de ser quem tem o ferrão mais venenoso. Passa a ser quem conseguirá sobreviver à própria obsessão.
No mundo de Ryan Murphy, claro, existe ainda uma terceira possibilidade: as duas se destruírem espetacularmente, cercadas de luxo, diamantes e figurinos caríssimos. O que, convenhamos, seria perfeitamente adequado à cafonice maravilhosa de All’s Fair.
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