The Gilded Age: quatro pôsteres revelam os conflitos da 4ª temporada

A HBO encontrou uma maneira particularmente elegante de antecipar os conflitos da quarta temporada de The Gilded Age: transformar seus personagens em obras de arte. A nova campanha promocional apresenta quatro retratos emoldurados em dourado, como pinturas destinadas a decorar as paredes das mansões da Quinta Avenida, mas cada composição vem acompanhada de uma palavra que define os desafios de seus protagonistas: ambição, tradição, resistência e audácia. É uma escolha visual belíssima, mas também bastante reveladora sobre os caminhos que Julian Fellowes e Sonja Warfield podem explorar nos novos episódios.

Afinal, a terceira temporada terminou com uma alteração significativa nas relações de poder da série. Bertha Russell conquistou praticamente tudo o que desejava socialmente, mas pode ter perdido o marido no processo. Agnes van Rhijn precisou aceitar que não era mais a autoridade absoluta de sua própria casa, enquanto Ada descobriu uma independência que jamais havia experimentado. Peggy Scott conquistou espaço profissional e a possibilidade de um casamento feliz, mas continua enfrentando os preconceitos de uma sociedade que insiste em estabelecer limites até mesmo para seus integrantes mais privilegiados. E os mais jovens, aparentemente destinados a reproduzir os valores de seus pais, começam a reivindicar uma liberdade que pode transformar radicalmente suas vidas.

Os quatro pôsteres são, portanto, muito mais interessantes do que simples fotografias promocionais. Representam diferentes maneiras de lidar com uma sociedade em transformação, na qual riqueza, sobrenome e posição social continuam determinando o destino das pessoas, mas já não garantem a mesma autoridade de antes.

A arte da ambição: Bertha e George Russell

O primeiro retrato, The Art of Ambition, reúne Bertha (Carrie Coon) e George Russell (Morgan Spector), o casal que sempre representou a força irresistível do dinheiro novo contra as tradições da velha aristocracia nova-iorquina. Bertha aparece em pé, imponente, com uma das mãos na cintura e um vestido azul espetacular, enquanto George permanece sentado ao seu lado, sério e distante. A composição preserva a imagem de um casal poderoso, mas também sugere a separação emocional que marcou o final da terceira temporada.

Durante boa parte da série, George e Bertha formaram uma das parcerias mais fascinantes da televisão. Ele construía fortunas, enfrentava concorrentes e manipulava o mercado financeiro, enquanto ela transformava dinheiro em influência, prestígio e reconhecimento social. Eram ambiciosos, inescrupulosos quando necessário e profundamente apaixonados. O problema começou quando Bertha passou a tratar os próprios filhos como instrumentos de sua ascensão, especialmente Gladys, cujo casamento com um duque foi praticamente negociado como uma aquisição estratégica.

George, que sempre soube ser implacável nos negócios, descobriu um limite moral dentro da própria família. Depois de sobreviver a um atentado, decidiu reconsiderar suas prioridades e deixou Bertha, incapaz de continuar participando de uma vida na qual o sucesso social parecia importar mais do que a felicidade daqueles que amava. A ironia é que Bertha, justamente quando alcançou o reconhecimento que tanto desejava, percebeu que sua maior vitória poderia representar uma derrota pessoal devastadora.

O pôster preserva os dois dentro da mesma moldura, mas não os mostra unidos. E talvez essa seja a pergunta mais importante da próxima temporada: Bertha conseguirá recuperar George sem abandonar a ambição que define sua identidade? Ou o casal que parecia invencível descobrirá que suas conquistas foram construídas sobre desejos que já não compartilham?

A arte da tradição: Agnes e Ada

No segundo retrato, The Art of Tradition, encontramos Agnes van Rhijn (Christine Baranski) e Ada Brook (Cynthia Nixon), duas irmãs que representam o coração da velha Nova York. Vestidas com elegância e cercadas de símbolos de uma sociedade que valoriza o passado, elas aparecem lado a lado, mas o contraste entre suas personalidades continua evidente. Agnes mantém sua postura aristocrática e inflexível, enquanto Ada, com uma expressão mais alerta e uma mão apoiada na moldura, parece finalmente disposta a reivindicar seu próprio espaço.

A ironia dessa escolha está no fato de que a tradição, dentro daquela casa, já sofreu uma revolução. Agnes passou décadas sustentando a família, decidindo quem podia frequentar seus salões e estabelecendo as regras que todos deveriam seguir. Era a irmã doce, discreta e submissa, quase uma hóspede permanente em uma residência onde tinha muito pouco poder de decisão. Mas a morte de seu marido, Luke Forte, mudou esse equilíbrio quando ela herdou uma fortuna e se tornou responsável pela manutenção da casa.

A terceira temporada acompanhou justamente a dificuldade de Agnes em aceitar essa inversão de posições, ao mesmo tempo que Ada descobria que independência financeira também significa liberdade para discordar. O processo culminou em um gesto simbólico importante: Agnes reconheceu o lugar de Ada à frente da família, cedendo a posição que durante tantos anos considerou exclusivamente sua.

O que torna o pôster especialmente interessante é que nenhuma das duas realmente deseja destruir as tradições que representam. Agnes procura preservá-las porque acredita que elas dão sentido à sua existência, enquanto Ada começa a perceber que é possível respeitar o passado sem permanecer prisioneira dele. E essa diferença será fundamental não apenas para o relacionamento das irmãs, mas também para Marian, cuja felicidade depende, em parte, da capacidade das tias de aceitar que os tempos estão mudando.

A arte da resistência: a família Scott

O terceiro retrato, The Art of Defiance, talvez seja o mais significativo do ponto de vista histórico e social. Nele encontramos Peggy Scott (Denée Benton) e sua mãe, Dorothy (Audra McDonald), assim como seu noivo, Dr. William Kirkland (Jordan Donica), e sua mãe, Elizabeth ( Phylicia Rashad) , representando uma família negra rica, educada e influente que, apesar de suas conquistas, precisa enfrentar obstáculos que não existem para as famílias brancas da série.

Desde a primeira temporada, Peggy é uma das personagens mais interessantes de The Gilded Age, justamente porque sua história permite explorar uma realidade frequentemente ignorada nas produções ambientadas no século 19: a existência de uma burguesia negra americana, com seus próprios círculos sociais, tradições, conflitos e aspirações. Peggy quer construir uma carreira como escritora e jornalista, conquistar independência e escolher seu próprio destino, mas descobre constantemente que talento, educação e dinheiro não são suficientes para protegê-la do racismo ou dos julgamentos morais.

Na terceira temporada, seu relacionamento com o Dr. William expôs também os preconceitos existentes dentro daquela própria elite. A mãe dele, Elizabeth, considerava o passado de Peggy um obstáculo inaceitável para o casamento, numa demonstração de como o prestígio social pode se transformar em instrumento de exclusão mesmo entre pessoas que já conhecem profundamente as consequências de serem discriminadas.

O confronto entre Dorothy Scott e Elizabeth Kirkland foi um dos momentos mais satisfatórios da temporada, porque deixou claro que a família de Peggy não estava disposta a aceitar humilhações em nome de uma união socialmente vantajosa. Ao contrário de Bertha, que frequentemente acredita que qualquer sacrifício pode ser justificado por uma ascensão na hierarquia, Dorothy demonstrou que preservar a dignidade da filha era mais importante do que conquistar a aprovação de outra família.

A palavra defiance, que pode ser traduzida como resistência, desafio ou insubmissão, é particularmente apropriada. Não estamos falando apenas de personagens que desejam participar de uma sociedade existente, mas de pessoas que se recusam a aceitar as limitações impostas a elas. E o retrato familiar, com Peggy cercada por aqueles que conhecem e compartilham sua luta, reforça que sua história é também a de uma comunidade determinada a construir o próprio futuro.

A arte da audácia: a geração que desafia as regras

Finalmente, The Art of Audacity reúne personagens mais jovens, entre eles Marian Brook (Louisa Jacobson), Larry Russell (Harry Richardson) e Oscar van Rhijn (Blake Ritson), além de outras figuras envolvidas nas transformações sociais e sentimentais da série. Aqui, em vez da solenidade dos retratos familiares, temos uma composição mais descontraída, com taças nas mãos, olhares provocadores e uma atmosfera de celebração. É quase como se esse grupo estivesse disposto a sair da moldura a qualquer momento.

A palavra audácia é muito bem escolhida, porque a liberdade desses personagens não consiste simplesmente em desobedecer aos mais velhos. Eles estão descobrindo que as regras concebidas para preservar fortunas, reputações e alianças familiares também podem impedir qualquer possibilidade de felicidade individual. Marian já enfrentou diversas decepções amorosas e aprendeu que confiar no homem errado pode custar muito caro, mas continua determinada a escolher seu próprio marido. Larry, por sua vez, começa a descobrir que trabalhar nos negócios da família e amar alguém não significam necessariamente aceitar os métodos dos pais.

O final da terceira temporada deixou uma perspectiva mais favorável para os dois, embora o relacionamento ainda precise superar as inseguranças e os desentendimentos que quase os separaram definitivamente. O que torna essa história interessante é que Marian e Larry se amam, mas não são versões jovens e idealizadas de Agnes e Bertha. Ambos têm personalidade, ambições e expectativas próprias, e a próxima etapa de sua relação exigirá muito mais do que uma reconciliação romântica.

Oscar representa outro tipo de audácia, muito mais arriscado. Homossexual em uma sociedade que não lhe permite viver abertamente sua identidade, ele já perdeu dinheiro, amor e prestígio tentando encontrar um lugar seguro no mundo. A possibilidade de um casamento de conveniência com a agora viúva Enid Winterton é particularmente intrigante, porque sugere uma solução socialmente aceitável para duas pessoas que precisam preservar aparências por motivos diferentes. Seria uma aliança prática, talvez até afetuosa, mas construída sobre o reconhecimento de que a sociedade ainda não oferece a Oscar a liberdade de ser quem realmente é.

Há também uma mudança geracional mais ampla. O dinheiro está criando oportunidades, novas profissões estão surgindo e algumas das antigas divisões entre classes começam a perder força. Personagens como Jack Trotter, que transformou sua habilidade como relojoeiro em uma possibilidade real de ascensão social, demonstram que o futuro já não pertence exclusivamente àqueles que nasceram nos salões elegantes da Quinta Avenida.

E isso explica por que audacity talvez seja a palavra mais otimista dos quatro retratos. Enquanto os pais lutam para conquistar ou preservar posições, a geração seguinte começa a questionar se essas posições realmente merecem todos os sacrifícios exigidos para alcançá-las.

Quatro retratos, uma sociedade em transformação

O conceito visual da campanha é especialmente feliz porque existe uma contradição fascinante entre os personagens e as molduras que os cercam. Na Era Dourada americana, retratos eram símbolos de riqueza, permanência e respeitabilidade. Ter a própria imagem eternizada em uma pintura significava afirmar que alguém havia conquistado um lugar na sociedade e, principalmente, que merecia permanecer nele. Mas os personagens de The Gilded Age estão justamente vivendo um momento em que essas posições deixam de ser estáveis.

Bertha conquistou o mundo social que desejava, mas corre o risco de perder o casamento que sustentou sua trajetória. Agnes preservou a tradição durante décadas, mas precisou aprender que a autoridade também pode mudar de mãos. Peggy pertence a uma família respeitada, mas continua obrigada a defender direitos que deveriam ser evidentes. E os mais jovens estão descobrindo que nenhum sobrenome, fortuna ou casamento pode garantir a felicidade quando a própria vida precisa ser vivida segundo as expectativas dos outros.

Julian Fellowes sempre demonstrou uma fascinação particular pelas transformações sociais provocadas pelo dinheiro, pela tecnologia e pelo enfraquecimento das hierarquias tradicionais. Foi assim em Downton Abbey e continua sendo em The Gilded Age, embora a versão americana dessa história seja ainda mais explicitamente marcada pela competição, pela ostentação e pela possibilidade de ascensão social.

Os quatro pôsteres não revelam exatamente o que acontecerá na quarta temporada, mas oferecem pistas sobre os conflitos que deverão dominá-la. E talvez a grande questão seja justamente essa: depois de tantos esforços para entrar na moldura dourada da sociedade, quantos desses personagens estarão dispostos a quebrá-la para conseguir aquilo que realmente desejam?


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