MobLand: quem é Frankie e por que ele quer desestabilizar Harry

O texto contém spoilers até o episódio 4 da segunda temporada.

Harry Da Souza costuma ser o homem que entra quando os outros já perderam o controle. Enquanto os Harrigan discutem, ameaçam e agravam os próprios problemas, ele observa, calcula e resolve. É parte do prazer de acompanhar MobLand: mesmo quando tudo parece desmoronar, esperamos que Harry encontre uma saída. Frankie Cooper, o novo adversário interpretado por Johnny Flynn, chega justamente para testar essa confiança. O que acontece quando o homem encarregado de administrar as crises se torna o alvo de uma delas?

A princípio, Frankie poderia parecer apenas mais um criminoso disposto a tomar o negócio dos Harrigan. Mas há algo deliberadamente desconcertante na maneira como se apresenta. O figurino de veludo, o cabelo, a chegada de scooter e a tranquilidade com que provoca pessoas armadas criam uma figura que flerta com o ridículo sem deixar de ser perigosa. É possível rir dele e, segundos depois, perceber que era exatamente esse o espaço que precisava para agir.

Frankie é um traficante londrino recrutado por Colin Tattersall para atuar em favor de Kat McAllister. Ela encontra alguém capaz de atacar os Harrigan sem se expor diretamente, enquanto ele ganha a oportunidade de avançar sobre um império enfraquecido pelas próprias disputas. A associação, porém, não se sustenta apenas na ambição: Colin afirma ter provas suficientes para mandá-lo à prisão pelo resto da vida caso recuse o serviço. Frankie também responde a pressões, mesmo quando se comporta como se estivesse acima delas.

Até aqui, a série não revelou uma antiga história pessoal entre Frankie e Harry que explique uma vingança. O conflito apresentado tem uma razão prática: para derrubar os Harrigan, é preciso atingir o homem que continua mantendo a família em funcionamento. Conrad pode dar ordens, Kevin pode reivindicar o comando, mas é Harry quem transforma essas decisões em alguma coisa viável — ou tenta impedir suas consequências mais desastrosas.

A reunião era uma armadilha antes mesmo da explosão

No terceiro episódio, Frankie oferece uma reorganização do negócio: Conrad sairia do comando, ele assumiria e os demais poderiam continuar trabalhando na nova estrutura. Harry está incluído na proposta. Seria reconhecimento de sua competência? Em algum nível, sim. Mas Johnny Flynn acrescentou uma informação importante ao comentar a cena: na interpretação dele, Frankie não esperava realmente que aceitassem o acordo.

O discurso serve para observar, constranger e dividir. Frankie está conhecendo aquelas pessoas, absorvendo suas reações e descobrindo como poderá utilizá-las. A negociação tem algo de um jogo de pôquer, como o próprio ator descreveu. Enquanto fala, ele testa os lugares de cada um naquela família e expõe a precariedade do comando.

Isso muda o peso da sequência. A visita não fracassa porque Kevin e Seraphina recusam a proposta. A recusa já cabia no plano. O capacete com explosivos, deixado para trás depois da libertação de Bella, garante uma demonstração de força e provoca a morte de Dog, integrante da equipe de Harry. A aparência quase cômica da chegada torna a violência seguinte ainda mais brutal.

Harry é o adversário que Frankie não consegue ler

O problema para Frankie é que Harry não entrega o mesmo tipo de reação dos Harrigan. No quarto episódio, ele comenta com Colin que não conseguiu decifrá-lo. Minha leitura é que ali surge uma disputa pelo controle do encontro: Frankie provoca para descobrir onde pode avançar, enquanto Harry observa sem lhe oferecer essa certeza.

Colin já havia sugerido como contornar essa resistência. Ao lembrar a execução de François Ravaillac, com cavalos puxando seus membros em direções diferentes, apresenta uma metáfora para a estratégia contra Harry. As pessoas e responsabilidades que ele tenta proteger podem ser utilizadas para dividi-lo. Os Harrigan, Jan e Gina passam a integrar uma ofensiva que o obriga a responder a várias ameaças ao mesmo tempo.

É justamente aí que o vídeo de Jan com Donnie ganha importância. Frankie filma o encontro e envia as imagens a Harry, levando o ataque para dentro de sua intimidade. Podemos interpretar o gesto como uma tentativa de obter a reação que não conseguiu na reunião. Harry pode administrar um sequestro ou uma disputa pelo negócio; o que fará quando a provocação envolver seu casamento?

A humilhação também questiona a fantasia de que ele consegue manter o trabalho separado da família. Jan tenta construir uma vida fora daquele universo, mas acaba envolvida numa operação dirigida contra o marido. Harry não precisa estar presente para que seu mundo continue determinando o que acontece ao redor dele.

O humor faz parte da ameaça

Flynn buscou referências que ajudam a entender essa combinação. Em Get Carter, encontrou a inteligência e a ironia de Michael Caine, cuja ameaça não depende de exibir força física. Frankie carrega uma languidez quase felina, como alguém confortável demais em ambientes nos quais todos deveriam estar em alerta.

O ator também mencionou a comédia britânica, Kenneth Williams, a atitude dos irmãos Gallagher e uma ambiguidade sexual deliberada, especialmente nas cenas com Colin. Em outra entrevista, apontou referências de Joe Orton, de Brian Jones, dos Rolling Stones, e de Mooney, personagem que interpretou no teatro em Hangmen. Jez Butterworth queria recuperar parte daquela energia para MobLand.

Essa construção explica por que a excentricidade funciona. Frankie faz da conversa, do deboche e da invasão do espaço alheio maneiras de exercer poder. O humor desorienta: nunca sabemos exatamente quanto tempo existe entre a piada e a violência. Harry, com sua contenção, oferece uma resistência particularmente interessante a esse comportamento.

O que Frankie muda em MobLand

A pressão também amplia as fissuras dos Harrigan. Conrad questiona a lealdade de Harry, enquanto Bella compara a impulsividade de Kevin ao autocontrole do fixer. A família depende de uma competência que não pertence ao sobrenome e, quando essa dependência fica evidente, reage com ressentimento.

Essa é uma das contradições mais fortes da temporada. Harry precisa proteger pessoas que frequentemente tornam sua tarefa mais difícil. Frankie aproveita os conflitos existentes e acrescenta novas ameaças, obrigando-o a gastar energia tanto com o adversário quanto com aqueles que deveria defender.

Ainda falta conhecer melhor o passado de Frankie e descobrir até onde vai sua autonomia em relação a Colin e Kat. Mas já temos uma mudança importante: Harry continua competente, só que agora sua capacidade de agir está sendo testada por feridas que não pode resolver com a mesma distância profissional.

É essa promessa que me interessa. Frankie quer fazer Harry reagir como marido, pai e homem humilhado, enquanto ele insiste em funcionar como o profissional que controla a situação. Se conseguir romper esse autocontrole, talvez encontre a vulnerabilidade que procura. Mas também terá de lidar com o que vier depois — e ainda não sabemos se compreende o risco que está correndo.


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