Crescer diante das câmeras tem suas vantagens e seus desafios. O público acompanha cada transformação, guarda na memória os personagens que marcaram sua infância e, muitas vezes, demora a perceber que aquela menina já se tornou uma mulher. Julia Svacinna conhece bem essa experiência. Aos 21 anos, com quase uma década de carreira, ela já trabalhou com alguns dos maiores nomes da dramaturgia brasileira, transitou entre comédia, drama e suspense e agora começa a explorar novas possibilidades, inclusive atuando em inglês.
A mudança é evidente para quem acompanha sua trajetória, mas nem sempre para quem conviveu com ela profissionalmente. “Às vezes eu ainda tenho dúvida se as pessoas não me veem mais assim”, admite, referindo-se ao rótulo de atriz mirim. “Acho engraçado quando encontro algumas pessoas, especialmente em eventos e depois de um tempo sem ver, pois elas se assustam com a minha ‘cara de mulher’.”
Julia, porém, não parece particularmente preocupada em provar que cresceu. “Gosto de ser vista como nova e tratada como profissional, pois sou as duas coisas. Não sou mais ‘mirim’ há muito tempo”, explica. E, embora não consiga identificar o momento exato em que deixou de ser considerada uma atriz infantil, garante estar satisfeita com sua trajetória.
A declaração revela uma segurança interessante para alguém tão jovem. Em vez de transformar o amadurecimento em um rompimento com o passado, Julia parece entender que cada personagem e cada experiência profissional fazem parte de sua formação.
Uma infância entre câmeras e grandes atores
Aos 11 anos, Julia conquistou seu primeiro papel de destaque no cinema com Patrícia, de Um Tio Quase Perfeito, comédia estrelada por Marcus Majella, lançada em 2017. A personagem acompanhou a atriz ao longo dos três filmes da franquia, cujo terceiro capítulo chega aos cinemas em outubro de 2026.
“Foi a minha primeira protagonista, aos 11 anos, e acho que na época eu não tinha ideia do que isso significava. Tenho muito orgulho da Pat e ela para sempre vai ter um lugar especial no meu coração”, recorda.
A experiência também proporcionou o convívio com artistas como Ana Lúcia Torre, Letícia Isnard e Danton Mello. Mas essa seria apenas uma das oportunidades de aprender com atores experientes em uma fase em que a maioria das crianças ainda está descobrindo o que gostaria de fazer quando crescer.
Em Se Eu Fechar os Olhos Agora, minissérie que reuniu nomes como Antônio Fagundes, Murilo Benício, Débora Falabella, Mariana Ximenes e Gabriel Braga Nunes, Júlia interpretou Vera Lúcia. Conquistou o papel aos 12 anos e não esconde a dimensão que aquele encontro teve para ela.
“Imagina passar em um teste aos 12 anos e se dar de cara com todos esses atores, sabendo que eles agora são seus colegas de trabalho? Eu fiquei em choque por um bom tempo”, conta.
Pouco depois, em O Mecanismo, encarou um desafio completamente diferente ao interpretar Beta, uma menina dentro do espectro autista e filha do personagem de Selton Mello.
“Foi um dos meus maiores desafios até hoje. Fazer uma menina dentro do espectro autista aos 13 anos e ser filha do Selton Mello era muita responsabilidade, mas eu não trocaria por nada. Essas experiências são sempre das mais engrandecedoras.”
Trabalhar tão cedo poderia ter significado abrir mão de etapas importantes da infância e da adolescência, mas Julia faz questão de destacar o papel da família no equilíbrio entre as responsabilidades profissionais e a vida pessoal.
“Acredito que crescer exercendo uma profissão me fez ter um senso de responsabilidade muito grande ainda cedo, mas, sendo bem sincera, tive pais muito maravilhosos que me permitiram curtir e aproveitar cada fase da minha vida da maneira como se deve.”
Do cinema brasileiro ao desafio de atuar em inglês
Se os primeiros trabalhos apresentaram Julia ao público, os mais recentes mostram uma atriz interessada em ampliar seus horizontes.
Em Fazendo Meu Filme, adaptação do sucesso literário de Paula Pimenta, interpretou Natália, personagem conhecida pelos leitores da obra. Para alguém que também se considera apaixonada por livros e adaptações cinematográficas, havia uma responsabilidade particular em corresponder à imagem construída pelos fãs.
“Como leitora e grande amante de adaptações cinematográficas, viver a Nathalia foi uma experiência única. Me empenhei muito para conseguir ser o mais fiel possível, com a minha atuação, à descrição dela nos livros.”
Já em Família, Pero No Mucho, comédia lançada pela Netflix em 2025, Julia vive Mariana e contracena com Leandro Hassum. Filmada na Argentina, a produção proporcionou uma experiência de trabalho com profissionais de outra nacionalidade. A atriz não economiza elogios ao colega brasileiro: “Trabalhar com o Leandro Hassum é maravilhoso demais. Foi uma experiência muito especial.”
Em Precisamos Falar, suspense estrelado por Hermila Guedes, Emílio de Mello, Marjorie Estiano e Alexandre Nero, Julia integra o núcleo jovem da história como Valéria. O longa aborda os limites morais de duas famílias confrontadas com um crime envolvendo seus filhos adolescentes, mais uma oportunidade para a atriz se afastar das comédias familiares que marcaram parte de sua carreira.
Mas talvez o passo mais simbólico dessa nova etapa seja The Fox Sisters, filme dirigido por Wagner de Assis, em que interpreta Kate Fox na juventude. Baseada na história das irmãs que se tornaram figuras centrais no surgimento do espiritualismo moderno nos Estados Unidos, a produção brasileira é falada em inglês e reúne atores de diferentes nacionalidades.
Para Julia, foi a primeira oportunidade de atuar profissionalmente em outro idioma.
“Foi um desafio espetacular. Tive a oportunidade de interpretar em inglês profissionalmente pela primeira vez, ao lado de um elenco majoritariamente nativo do idioma. Foi uma experiência muito importante para mim.”
A atriz já havia feito cursos de interpretação fora do Brasil, mas trabalhar em outro idioma era um objetivo que ainda não havia conseguido realizar. Agora, a experiência abre a possibilidade de uma carreira que não se limite ao mercado brasileiro.
“Eu sempre quis atuar em outro idioma e já tinha feito cursos de atuação fora do país. É um desafio diferente e foi muito divertido. Acho que as portas vão se abrir conforme for e na hora que for, mas foi realmente um passo no caminho dos sonhos que eu tenho.”
Crescer não significa começar de novo
Uma das dificuldades frequentemente enfrentadas por atores que começaram a carreira na infância é convencer a indústria de que podem interpretar personagens adultos. Em Hollywood, há inúmeros exemplos de artistas que precisaram lutar contra a imagem infantil que os tornou conhecidos.
Julia, no entanto, não acredita que essa seja uma barreira particularmente difícil em seu caso. Sua trajetória, argumenta, sempre incluiu personagens muito diferentes entre si.
“Honestamente, eu acredito que não. Desde pequena estive em papéis muito distintos entre si. Acho que até possa haver uma predominância de gênero às vezes, mas não acho que não consigam me ver em diferentes papéis, nem que tenham dificuldade em me enxergar como uma jovem mulher. É o que eu sou, e isso é inegável.”
É uma resposta que também demonstra como Julia enxerga a própria carreira. Para ela, não existe necessariamente uma ruptura entre a menina que começou a atuar aos 11 anos e a mulher que agora busca novos personagens. Existe continuidade, aprendizado e, sobretudo, a liberdade de mudar.
Aos 21 anos, ela já sabe que tipo de atriz pretende ser? A resposta é mais cautelosa do que se poderia esperar de alguém com tantos trabalhos no currículo.
“Acho que venho construindo o tipo de atriz que eu quero ser, mas assim como nós estamos em constante mudança e evolução como seres humanos, acho que seria presunçoso da minha parte dizer que já sei o que quero para sempre. Gosto da jornada e me sinto feliz com o lugar que estou e com o caminho que vem se desenhando adiante.”
Talvez esteja aí a parte mais interessante de sua história. Julia Svacinna não precisa anunciar que deixou de ser uma atriz mirim, nem estabelecer uma nova identidade para convencer o público de que amadureceu. Sua carreira já conta essa história. E, depois de crescer interpretando tantas personagens diferentes, ela parece compreender que a próxima transformação não precisa ser definitiva. Afinal, aos 21 anos, ainda há muitas mulheres e muitas histórias para descobrir.
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