A televisão já nos mostrou inúmeras vezes que não precisamos gostar dos personagens para acompanhar suas histórias. Alguns dos maiores sucessos dos últimos anos foram construídos justamente em torno de pessoas arrogantes, cruéis, manipuladoras ou simplesmente insuportáveis. O problema começa quando não encontramos nada além dessas características, quando os conflitos parecem existir apenas para produzir novos conflitos e, sobretudo, quando não conseguimos identificar o que realmente está em jogo. É a impressão que tive ao assistir aos dois primeiros episódios de War, nova série da HBO Max, que reúne um elenco de excelentes atores para contar uma história que, até agora, parece não saber exatamente aonde pretende chegar.
Criada por George Kay, de Lupin e Hijack, a produção acompanha o divórcio milionário de Morgan Henderson (Dominic West), um magnata da tecnologia, e Carla Duval (Sienna Miller), uma estrela de Hollywood. Os dois estão em guerra, com acusações, traições e estratégias jurídicas conduzidas por escritórios rivais de Londres. A premissa é simples, mas oferece uma quantidade enorme de possibilidades dramáticas. Poderíamos acompanhar a deterioração de um casamento, a exposição pública de suas intimidades, as disputas pelo patrimônio ou os mecanismos de uma indústria jurídica que transforma conflitos pessoais em negócios milionários. War tenta fazer tudo isso simultaneamente e, pelo menos inicialmente, não consegue desenvolver nenhuma dessas possibilidades de maneira realmente convincente.

Morgan e Carla são igualmente desagradáveis. Ele é arrogante, infiel e acostumado a resolver seus problemas com dinheiro. Ela tampouco desperta grande simpatia, manipulando situações e utilizando sua condição de celebridade como parte da disputa. Não há necessidade de escolher um lado, naturalmente, mas seria interessante compreender o que existiu entre aquelas pessoas, por que permaneceram juntas e o que realmente estão perdendo com a separação. Nos dois primeiros episódios, não encontramos um casamento que está se desfazendo diante de nossos olhos, mas duas pessoas que parecem detestar uma à outra desde o primeiro minuto. E, considerando suas fortunas, qualquer resultado provavelmente continuará garantindo a ambos uma vida extraordinariamente confortável.
Há também um problema curioso na escolha do elenco. Todos são excelentes, mas quase todos parecem interpretar variações de personagens que já conhecemos de outros trabalhos. Dominic West volta ao território familiar do homem poderoso, infiel e moralmente comprometido, enquanto Sienna Miller parece novamente convocada para interpretar uma mulher sofisticada envolvida em uma relação turbulenta. Pip Torrens, com sua presença imponente e ameaçadora, praticamente já nos anuncia o tipo de personagem que encontraremos antes mesmo de abrir a boca. Phoebe Fox também trabalha com uma intensidade e uma rigidez que fazem parte de seu repertório conhecido. Não se trata de questionar a qualidade das interpretações, mas de observar como a produção parece acomodar seus talentos em lugares seguros, sem oferecer grandes surpresas.
O resultado é uma série em que os personagens são imediatamente reconhecíveis, mas não necessariamente interessantes. Sabemos quem é o milionário arrogante, quem é a celebridade vingativa, quem é o advogado veterano disposto a ultrapassar limites e quem representa a geração mais jovem tentando conquistar espaço. O problema não está em utilizar arquétipos, algo perfeitamente legítimo na dramaturgia, mas em não oferecer, pelo menos até agora, elementos suficientes para transformá-los em indivíduos mais complexos do que suas funções dentro da narrativa.
E aqui chegamos à minha principal dificuldade com War: afinal, que história estamos acompanhando? O divórcio de um casal ou as estratégias de dois escritórios de advocacia? Porque, se o interesse está no casamento, faltam emoção, intimidade e alguma compreensão sobre o vínculo entre os protagonistas. Se a proposta é um drama jurídico, precisamos acreditar na inteligência das estratégias, na importância das disputas e nas consequências das decisões tomadas. A série apresenta reuniões, ameaças, negociações e revelações sucessivas, mas a movimentação constante não significa necessariamente que a história esteja avançando em alguma direção.

A presença de Johnny Warren (Archie Renaux) torna essa questão ainda mais evidente. Jovem advogado, ambicioso e com dificuldades para encontrar uma oportunidade profissional, ele aceita infiltrar-se no escritório responsável pela defesa de Carla para transmitir informações confidenciais à equipe adversária. A justificativa envolve sua necessidade de conquistar uma posição, demonstrar seu valor e atender às expectativas da namorada. Mas estamos falando de alguém que, para construir uma carreira, aceita participar de uma operação que poderia destruí-la definitivamente. A espionagem entre escritórios de advocacia não é apenas uma esperteza moralmente discutível: representa uma violação gravíssima de deveres profissionais, especialmente os de confidencialidade e lealdade ao cliente.
É claro que pessoas tomam decisões irracionais, inclusive quando acreditam estar agindo em benefício próprio. E a dramaturgia não precisa apresentar personagens que se comportem sempre de maneira sensata. O problema é que precisamos compreender de alguma forma essa disposição para arriscar tudo. A ambição de Johnny é apresentada como explicação suficiente para uma escolha extremamente perigosa, enquanto a série parece esperar que acompanhemos sua atuação como um jogo de inteligência e ousadia. Por enquanto, o personagem me provoca mais dúvidas sobre a credibilidade do roteiro do que interesse sobre seu destino.
As estratégias dos advogados também levantam uma questão curiosa. Todos parecem preocupados em vencer, independentemente das consequências, mas ainda não está claro o que torna aquela vitória especialmente importante para nós, espectadores. Naturalmente, há dinheiro, reputações profissionais e interesses pessoais envolvidos. Entretanto, essas motivações são suficientes para os personagens, não necessariamente para quem acompanha a história. Uma boa narrativa precisa transformar os objetivos individuais em conflitos capazes de despertar nossa curiosidade, nossa identificação ou até nossa indignação. Em War, temos uma sucessão de pessoas desagradáveis tentando derrotar outras pessoas igualmente desagradáveis, sem que o resultado pareça especialmente relevante.
Parte da crítica internacional recebeu a série com entusiasmo, valorizando justamente seu exagero porque o próprio divórcio funciona principalmente como um pretexto para movimentar os personagens. Mas a falta de profundidade do casal protagonista, embora tenha encontrado nos advogados elementos mais interessantes, também foi destacada. São avaliações que ajudam a compreender as diferenças de expectativa diante da proposta.
Talvez War funcione melhor quando aceita sua condição de melodrama luxuoso, sem grandes pretensões de discutir a natureza humana, o casamento ou as relações de poder. Mas a presença de tantos atores talentosos, o ambiente sofisticado e a própria estrutura de drama jurídico sugerem uma ambição que ultrapassa o simples entretenimento. E quando uma série parece prometer mais do que efetivamente entrega, é inevitável que seus excessos se tornem menos divertidos e suas fragilidades mais evidentes.

Succession demonstrou que podemos acompanhar durante anos uma família de milionários detestáveis sem precisar torcer por qualquer um de seus integrantes. A diferença é que, por trás do dinheiro e da crueldade, havia uma tragédia familiar sobre abandono, reconhecimento e a necessidade desesperada de conquistar o amor de um pai. Havia um conflito emocional claro, mesmo quando seus personagens não eram capazes de reconhecê-lo. Em War, ainda não encontrei nada equivalente, nem necessariamente uma alternativa que justifique nossa permanência naquele universo.
A temporada tem oito episódios; portanto, seria precipitado concluir que a série não encontrará seu caminho. Talvez os conflitos pessoais dos advogados ganhem importância, talvez o divórcio revele algo mais profundo ou talvez War assuma definitivamente sua vocação para o entretenimento exagerado. Por enquanto, porém, a sensação é de estar assistindo a uma produção cara, bem interpretada e movimentada, mas sem um objetivo dramático suficientemente claro.
Não me incomoda acompanhar personagens desagradáveis. O que me incomoda é não encontrar uma boa razão para acompanhá-los. E essa é a guerra que War ainda precisa vencer.
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