Atenção: o texto contém spoilers das duas temporadas de MobLand, até o quarto episódio da segunda.
Há personagens que são perigosos porque não conseguem controlar seus impulsos e outros que são ainda mais ameaçadores porque sabem exatamente como usá-los. Maeve Harrigan, interpretada por Helen Mirren em MobLand (Terra da Máfia), pertence a uma categoria particularmente perturbadora: a das pessoas que confundem amor com posse, proteção com controle e família com uma extensão de suas próprias ambições. Desde a primeira temporada, sabemos que ela é capaz de manipular todos ao seu redor, inclusive o marido e os filhos, mas é na segunda que seus movimentos começam a revelar algo ainda mais sombrio. Maeve não parece interessada apenas em preservar o império criminoso dos Harrigan. Ela quer decidir quem pode exercer o poder, como ele será exercido e, sobretudo, quem permanecerá subordinado à sua vontade.
A princípio, é fácil vê-la como uma versão de Lady Macbeth, a mulher que incentiva o marido a cometer atrocidades para conquistar ou manter o poder. A comparação faz sentido, mas talvez seja insuficiente. Maeve não atua apenas sobre Conrad (Pierce Brosnan), um homem violento, impulsivo e cada vez mais imprevisível. Ela construiu uma estrutura familiar na qual praticamente todos foram condicionados a buscar sua aprovação, temer suas reações ou executar suas decisões. E, para compreendê-la, é preciso olhar especialmente para dois personagens: Kevin, seu filho, e Eddie, o neto que descobriu ser também filho biológico de Conrad.

Kevin: o filho que nunca conseguiu ser suficiente
Kevin Harrigan (Paddy Considine) talvez seja a maior vítima emocional de Maeve, justamente porque nunca conseguiu romper completamente com a mãe. Não estamos falando de um homem inocente, incapaz de violência ou distante dos negócios criminosos da família. Kevin participa desse universo e também é responsável por suas escolhas. Mas existe nele uma tentativa, ainda que contraditória, de preservar alguma coisa que não seja definida exclusivamente pela brutalidade dos Harrigan.
A primeira temporada revelou o trauma de violência sexual que sofreu quando estava preso na adolescência, uma experiência que ajuda a compreender suas dificuldades de intimidade, sua necessidade de reconhecimento e sua relação particularmente complicada com a própria masculinidade. Kevin passou boa parte da vida tentando provar que era forte o suficiente para corresponder às expectativas do pai, mas há uma crueldade adicional na relação com Maeve. Ela não apenas exige força. Ela parece considerar a vulnerabilidade uma fraqueza que precisa ser eliminada.
O mais revelador é que Kevin compreende parte desse mecanismo. No final da primeira temporada, ele reconhece a responsabilidade da mãe na formação de Eddie e na própria trajetória, descrevendo como Maeve transforma os homens da família em monstros para que possam protegê-la. Essa percepção é fundamental porque desloca a personagem da posição de mãe superprotetora para algo muito mais perverso. Maeve não cria os filhos para que possam viver sem ela. Cria instrumentos de defesa e continuidade de seu poder.
E existe ainda a humilhação que atravessa seu casamento com Bella (Lara Pulver). Conrad havia se envolvido com ela antes de seu relacionamento com Kevin, e Eddie, criado como filho de Kevin, é na verdade seu meio-irmão. Maeve conhece essa história e participa da perpetuação de uma dinâmica em que o filho é constantemente diminuído pelo próprio pai. Quando finalmente revela a Eddie sua verdadeira origem, não está preocupada em reparar uma injustiça familiar. Usa a verdade como uma nova arma.
Eddie: o monstro que Maeve prefere
Se Kevin representa um filho que ainda tenta exercer algum julgamento próprio, Eddie (Anson Boon) parece oferecer a Maeve uma oportunidade de reconstruir o modelo que deseja. Impulsivo, cruel, vaidoso e desesperado por reconhecimento, ele reúne características que sua avó não apenas tolera, mas parece estimular. A descoberta de que é filho de Conrad altera sua posição na família e acrescenta uma camada particularmente cruel à rivalidade pela sucessão.
É importante observar que Eddie não foi simplesmente corrompido de um dia para o outro. A série sugere um processo de influência que começou quando ele ainda era muito jovem. Kevin e Bella tentaram protegê-lo desse mundo, mas não conseguiram impedir que Maeve se aproximasse e passasse a moldar seu comportamento. É quase uma repetição da história de Kevin, com uma diferença decisiva: Eddie parece abraçar aquilo que o homem que acreditava ser seu pai passou a vida tentando administrar.
Na segunda temporada, Maeve continua a utilizá-lo como peça de seus planos. A missão misteriosa para a Irlanda, acompanhada por Gina, é um dos movimentos que mais me intrigam até o quarto episódio. Por que enviá-lo para longe de Londres justamente quando a família enfrenta uma ameaça tão séria? Por que permitir que Gina participe, depois de demonstrar tanta resistência ao relacionamento? Ainda não sabemos exatamente o que pretende conseguir, mas sabemos que Maeve não costuma agir sem calcular a utilidade de cada pessoa.
O que me interessa especialmente é a possibilidade de que ela esteja substituindo Kevin por Eddie não apenas na sucessão dos Harrigan, mas também em sua preferência emocional. Não porque ame mais o neto, mas porque reconhece nele alguém mais disposto a realizar aquilo que deseja. Para uma mulher como Maeve, a obediência pode ser confundida com lealdade e a crueldade, com competência.

Seraphina: a filha que representa uma ameaça
A relação com Seraphina (Mandeep Dhillon) acrescenta outra dimensão à personalidade de Maeve. Filha de Conrad com outra mulher, Seraphina representa uma traição conjugal que nunca foi verdadeiramente assimilada. Mas o ressentimento não parece ser apenas sentimental. Seraphina também tem inteligência, ambição e capacidade para disputar espaço nos negócios, o que torna sua existência duplamente inconveniente.
Na segunda temporada, a súbita tentativa de reconciliação de Maeve desperta desconfiança. E com razão. Quando a personagem começa a investigar as propriedades do anticongelante como veneno e Conrad encontra o produto escondido entre seus pertences, a série aponta para a possibilidade de que ela esteja preparando o assassinato de Seraphina. Não temos a execução do plano nem uma confissão definitiva sobre todos os seus detalhes, mas a ameaça é suficientemente concreta para transformar qualquer gesto de afeto em suspeita.
É uma das manifestações mais assustadoras de Maeve: a possibilidade de encenar uma aproximação maternal enquanto planeja eliminar alguém. Seraphina não é sua filha biológica, mas pertence à família que ela afirma defender. Isso nos obriga a perguntar o que significa família para Maeve. Laços de sangue? Obediência? Ou simplesmente a conveniência de cada relação?
Conrad e Harry: dois homens que ela não consegue controlar completamente
O casamento com Conrad é uma parceria construída sobre ambição, violência e cumplicidade. Durante muito tempo, Maeve parece ter encontrado no marido o instrumento ideal para exercer uma forma indireta de poder. Mas Conrad está se tornando cada vez mais instável e suas decisões colocam todos em risco. A segunda temporada sugere que ela percebeu a necessidade de construir alternativas, inclusive sem compartilhar seus planos com ele.
O problema é que Conrad também conhece a mulher com quem se casou. Ao descobrir o anticongelante, percebe que algo está acontecendo à sua revelia. Não sabemos ainda como reagirá, mas a possibilidade de uma guerra dentro do próprio casamento talvez seja tão perigosa quanto o confronto com os inimigos externos.
Harry Da Souza (Tom Hardy) representa outro obstáculo. É ele quem habitualmente consegue antecipar as consequências das decisões desastrosas dos Harrigan, administrar conflitos e impedir que as rivalidades familiares destruam os negócios. Sua lealdade, entretanto, não significa obediência cega a todos os caprichos de Maeve. E isso a torna particularmente desconfortável com sua presença. Harry tem uma autoridade que não depende do parentesco e uma competência que os filhos de Conrad nem sempre demonstram.
Para Maeve, alguém assim é ao mesmo tempo indispensável e ameaçador.

Uma mãe que precisa dos próprios monstros
Há uma leitura psicológica particularmente interessante nessa dinâmica familiar. Maeve parece incapaz de reconhecer plenamente os outros como indivíduos independentes, com desejos, limites e necessidades que não coincidam com os seus. Filhos e netos existem como prolongamentos de sua vontade. O amor, quando aparece, vem acompanhado de exigências, competição, culpa e manipulação.
Seria simplista reduzi-la a um diagnóstico ou acreditar que uma infância traumática, ainda não suficientemente explorada pela série, explicaria automaticamente seu comportamento. O que podemos analisar são suas ações e a repetição de um padrão no qual a vulnerabilidade alheia é transformada em oportunidade de controle. Kevin precisa provar que é forte. Eddie precisa provar que é digno do nome Harrigan. Seraphina precisa aceitar que sua presença será sempre questionada. Conrad precisa continuar poderoso, mas dentro de limites que Maeve considera convenientes.
E todos, de alguma maneira, precisam dela.
Helen Mirren é especialmente eficaz porque não interpreta Maeve como uma vilã que anuncia suas intenções a cada cena. Muitas vezes, basta a delicadeza calculada de uma frase, um sorriso ou uma demonstração aparentemente inocente de preocupação para percebermos que alguma coisa está sendo preparada. A atriz consegue fazer com que a personagem pareça maternal e ameaçadora quase simultaneamente, sem que uma característica anule a outra.
Ao chegar ao quarto episódio da segunda temporada, ainda não sei exatamente qual será seu movimento final. Se pretende afastar Conrad, eliminar Seraphina, transformar Eddie em seu sucessor ou simplesmente garantir que ninguém consiga agir sem sua aprovação. Talvez nem mesmo essas possibilidades sejam excludentes.
Mas uma coisa me parece cada vez mais clara: Maeve não quer apenas sobreviver à guerra entre as famílias criminosas. Ela quer determinar o que restará dos Harrigan quando tudo terminar.
E talvez a pergunta mais importante sobre essa personagem não seja até onde uma mãe é capaz de ir para proteger os filhos, mas o que acontece quando os filhos precisam ser protegidos da própria mãe?

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