Para quem, como eu, viveu o fenômeno Oasis nos anos 1990, acompanhou a turbulenta relação de Noel e Liam Gallagher, o rompimento em 2009 e a reconciliação que parecia praticamente impossível, Oasis: Don’t Look Back in Anger, finalmente disponível no Disney+, era um dos documentários mais aguardados do ano. Afinal, depois de 16 anos separados, os dois irmãos mais briguentos do rock britânico voltaram a dividir um palco e protagonizaram uma das maiores turnês de 2025. Era natural esperar revelações, bastidores, conversas inéditas e, principalmente, alguma explicação sobre como conseguiram superar tantos anos de insultos, mágoas e ressentimentos. Não é exatamente isso que encontramos, e confesso que terminei as pouco mais de duas horas de filme decepcionada, embora reconheça que ele revela algo muito mais interessante do que seus realizadores parecem perceber.
Criado por Steven Knight (Peaky Blinders) e dirigido por Dylan Southern e Will Lovelace, o documentário dedica tempo demais à grandiosidade do fenômeno Oasis, com longas sequências de shows, fãs emocionados e depoimentos sobre a importância da banda na vida das pessoas. Não questiono essa importância, muito menos a emoção de quem esperou tantos anos pela reunião, mas há algo excessivamente self-important na insistência em nos explicar o quão extraordinário é o Oasis. O filme parece confundir a relevância histórica da banda com a necessidade de reafirmá-la continuamente, tornando-se repetitivo e mais longo do que precisava. Para quem conhece essa história, nenhuma declaração de um fã seria tão fascinante quanto uma conversa espontânea entre Noel e Liam, especialmente porque são justamente essas conversas que quase não aparecem.

A escolha narrativa, entretanto, tem uma justificativa que merece atenção. Noel admite que não tinha a verdadeira dimensão do legado do Oasis e se surpreende ao encontrar uma geração inteira de jovens que jamais havia visto a banda ao vivo, mas que conhece suas músicas e canta cada verso como se tivesse participado daquela explosão cultural dos anos 1990. Durante os anos em que os irmãos ficaram afastados, o Oasis continuou existindo na memória de seus admiradores e conquistou outros tantos, inclusive pessoas que nem eram nascidas quando Definitely Maybe e (What’s the Story) Morning Glory? foram lançados. Para Noel e Liam, descobrir essa permanência parece ter sido uma experiência transformadora. Para nós, que continuamos ouvindo suas canções durante todo esse tempo, talvez nem tanto. Bastariam algumas sequências para demonstrar a força desse legado, sem sacrificar tanto espaço que poderia ser dedicado aos protagonistas.
Até porque a relação entre os Gallagher sempre foi, por si só, um espetáculo. Quem assistiu aos documentários anteriores conhece bem a mistura de amor, agressividade, admiração e rivalidade que marcou a história dos irmãos. Noel era o compositor, o responsável pelas músicas que fizeram do Oasis uma das maiores bandas de sua geração, mas era Liam quem ocupava o centro do palco, com uma voz inconfundível, uma presença magnética e uma arrogância que se tornou parte da identidade do grupo. Sempre tive a impressão de que Noel ressentia, em alguma medida, o protagonismo do irmão mais novo, enquanto Liam se incomodava com a dependência do talento de Noel como compositor. Era uma relação em que um precisava do outro para alcançar a dimensão que conquistaram juntos, mas ambos pareciam determinados a provar que eram individualmente mais importantes.
A separação acabou oferecendo aos dois a oportunidade de testar essa hipótese. Durante mais de uma década, Noel desenvolveu uma carreira consistente com o High Flying Birds, explorando outras referências musicais e se estabelecendo como artista independente. Sou assumidamente fã de Noel e considero que, embora nunca tenha reproduzido a dimensão cultural do Oasis, ele conseguiu construir uma identidade própria e uma discografia de qualidade. Liam também encontrou seu público, preservou o carisma e manteve viva aquela atitude que o transformou em um dos grandes vocalistas do rock britânico, mas nunca se tornou um compositor do mesmo nível do irmão. Ambos alcançaram sucesso em suas trajetórias individuais, e talvez tenha sido justamente essa experiência que permitiu a reconciliação. Depois de tantos anos tentando provar o próprio valor, já não precisavam competir entre si.

Sempre enxerguei Noel e Liam como duas forças opostas que, por alguma razão, conseguiam produzir música extraordinária juntas. Noel é metódico, organizado, contido, o homem que escreve, planeja e parece precisar manter tudo sob controle. Liam é instinto, provocação, imprevisibilidade e puro caos. Essa combinação foi fundamental para o sucesso do Oasis, mas também alimentou os conflitos que acabaram destruindo a banda. O que mudou, como revela o documentário, não foi a personalidade de nenhum dos dois, mas a maneira como aprenderam a conviver com suas diferenças. Noel reconhece que a disputa de poder deixou de existir e que agora estão em condições de igualdade, enquanto Liam apresenta uma reflexão surpreendentemente madura sobre autenticidade e responsabilidade, resumida na frase “You have to care a lot to not give a fuck”. Para alguém que passou boa parte da carreira defendendo o direito de dizer exatamente o que pensava, independentemente das consequências, reconhecer que a liberdade de ser quem somos também exige consideração pelo impacto de nossas palavras representa uma transformação importante. Liam continua sendo Liam, mas parece ter desenvolvido consciência sobre o próprio comportamento, reconhecendo que precisa estar atento para não permitir que o caos tome conta. É quase um caos consciente, uma contradição que combina perfeitamente com ele. Noel, por sua vez, parece ter compreendido que não precisa controlar tudo, muito menos o próprio irmão.
O mais interessante é que nenhum dos dois descreve a reconciliação como resultado de uma grande conversa, um pedido de desculpas ou algum gesto extraordinário. Eles simplesmente reconhecem que chegaram a outro momento da vida, no qual aquilo que antes os irritava perdeu importância. As mágoas não necessariamente desapareceram, mas deixaram de determinar a relação. É uma percepção que só parece possível com a distância que o tempo proporciona, quando conseguimos olhar para os conflitos da juventude e compreender que algumas batalhas não precisam continuar sendo travadas para sempre.
Uma das cenas mais reveladoras envolve justamente a geração seguinte. Noel conta, divertido, que os filhos dos irmãos, agora próximos, saíram juntos, beberam demais e acabaram ajudando uns aos outros enquanto passavam mal. Ao observar a situação, ele reconheceu imediatamente a si mesmo e Liam na juventude e brincou com o irmão sobre a semelhança. É um momento aparentemente banal, mas que resume melhor a reconciliação do que qualquer grande declaração. Os Gallagher conseguem olhar para os próprios excessos, reconhecer a juventude que compartilharam e rir de comportamentos que, décadas atrás, talvez tivessem provocado outra discussão. Seus filhos podem experimentar a mesma cumplicidade e as mesmas irresponsabilidades sem carregar o peso das rivalidades dos pais.
A nostalgia, nesse contexto, adquire um significado muito diferente daquele normalmente associado às reuniões de bandas famosas. Não se trata apenas de reviver a juventude, recuperar sucessos antigos ou explorar comercialmente a saudade do público. Para Noel e Liam, parece existir também a possibilidade de revisitar o passado sem precisar repetir seus erros, reconhecendo que a raiva, os excessos e as mágoas pertenciam a uma fase da vida que já não precisa definir quem são. Não significa negar o que aconteceu, mas aceitar que envelhecer também é aprender a conviver com a própria história.

É nesse sentido que a participação inesperada do padre Luke Bradbury, da igreja de St. Bernard, em Burnage, bairro de Manchester onde os irmãos cresceram, encontra uma das mensagens mais importantes do filme. Durante uma homilia sobre o perdão, o sacerdote explica que perdoar não significa necessariamente esquecer o que aconteceu, mas decidir que não queremos continuar carregando aquele peso. A cena tem uma conexão especial com a família Gallagher, particularmente com a mãe dos irmãos, Peggy, uma católica devota, e oferece a chave para compreender uma reconciliação que dispensa grandes gestos. Não é necessário reescrever o passado para seguir em frente, assim como não é preciso concordar sobre tudo o que aconteceu para deixar de viver em função do ressentimento.
E então chegamos ao encerramento, que considero uma das escolhas mais inteligentes do documentário. Em vez de terminar com algum dos inúmeros hinos do Oasis, o filme recorre a What the World Needs Now Is Love, canção composta por Burt Bacharach e Hal David em 1965. Não é segredo que Noel Gallagher é um admirador de Bacharach. Uma fotografia do compositor já aparecia na capa de Definitely Maybe, em 1994, e Noel chegou a dividir o palco com ele para interpretar This Guy’s in Love with You. Portanto, a escolha está longe de ser apenas uma mensagem sentimental sobre dois irmãos que fizeram as pazes. Ela conecta uma das grandes referências musicais de Noel ao momento em que o compositor finalmente parece compreender que a história do Oasis é maior do que suas antigas disputas.
A delicadeza da canção de Bacharach contrasta com a agressividade que sempre acompanhou a imagem pública dos Gallagher, mas também revela algo que esteve presente na música do Oasis desde o início. Por trás da arrogância, dos insultos e da atitude desafiadora, suas melhores composições sempre falaram de pertencimento, solidão, esperança e da necessidade de encontrar alguém que compreenda nossos sentimentos. Talvez Noel e Liam não tenham conseguido expressar essa vulnerabilidade um ao outro durante muitos anos, embora tenham sido capazes de compartilhá-la com milhões de desconhecidos por meio de suas músicas.
Isso não transforma Oasis: Don’t Look Back in Anger em um grande documentário. Continuo achando que faltaram bastidores, revelações e uma investigação mais profunda sobre a dinâmica de uma das relações fraternas mais fascinantes e turbulentas da história recente do rock. Como mencionei, o filme se alonga demais celebrando a própria importância e desperdiça parte do potencial de uma história que não precisava de tantos testemunhos externos para emocionar. Há uma ironia nessa escolha: um documentário sobre dois homens que finalmente parecem ter deixado de levar a si mesmos tão a sério acaba levando a importância cultural deles a sério demais.
Ainda assim, saí da experiência pensando que talvez sua maior revelação esteja justamente na ausência daquilo que esperávamos encontrar. Não houve uma grande reconciliação porque, aparentemente, ela já não precisava acontecer daquela maneira. Noel e Liam tiveram tempo para construir suas vidas, criar seus filhos, testar seus talentos individualmente e descobrir que o passado não precisava continuar sendo uma competição. Enquanto isso, suas músicas atravessaram gerações e se tornaram maiores do que qualquer desavença pessoal.
Para quem viveu toda essa história, há algo profundamente emocionante em perceber que os irmãos não precisaram recuperar a juventude para recuperar a relação. Precisaram apenas envelhecer o suficiente para finalmente olhar para ela com alguma ternura. Talvez seja esse, afinal, o verdadeiro sentido de Don’t Look Back in Anger: não esquecer o que aconteceu, mas aprender a olhar para trás sem raiva.

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