Não gostei de Below. Queria ter gostado, o que talvez torne a decepção ainda maior. Afinal, a série reúne Josh Hartnett, Mackenzie Davis, uma comunidade pesqueira isolada em Terranova, um iceberg misterioso, uma criatura marinha, traumas familiares e uma discussão ambiental bastante atual. São muitos elementos promissores dentro de uma única produção. O problema é que quase nenhum deles encontra a profundidade que merecia.
Isso não impediu o público de se interessar. Em apenas quatro dias, Below somou 17 milhões de visualizações, chegou ao primeiro lugar entre as séries da Netflix no Brasil e no mundo e conquistou o maior lançamento de uma produção canadense na plataforma. Os números tornam a série incontornável, mas não necessariamente melhor. Na verdade, ajudam a revelar algo cada vez mais comum no streaming: o sucesso não depende apenas da qualidade, mas da capacidade de uma produção de apresentar uma premissa imediatamente reconhecível e manter o espectador curioso pelo episódio seguinte.
Nesse sentido, Below sabe exatamente o que está fazendo. Há alguma coisa nas águas de Snooks Arm. Um iceberg de aparência estranha surge próximo à pequena comunidade, pescadores desaparecem e uma substância contaminada começa a afetar os moradores. Calvin Penney, interpretado por Josh Hartnett, carrega desde a infância o trauma de ter visto o pai desaparecer no mar. Quarenta anos depois, continua em conflito com o filho, Wade, enquanto resiste às tentativas de esvaziar a vila onde sua família construiu a própria história.

É uma abertura eficiente. O cenário é belíssimo e ameaçador, a sensação de isolamento funciona e Hartnett possui exatamente a presença necessária para Calvin: é robusto, melancólico, teimoso e permanentemente cansado. Sua escalação também dialoga com a recente redescoberta de um ator que passou alguns anos distante das grandes produções e voltou mais interessante, maduro e disposto a interpretar homens quebrados. Ele ancora a série mesmo quando o texto parece não saber muito bem o que fazer com ele.
Mackenzie Davis, como a pesquisadora marinha Fonda Howander, também oferece à história uma racionalidade necessária. Enquanto Calvin reage ao desconhecido a partir da experiência e do trauma, Fonda tenta compreendê-lo cientificamente. A oposição entre os dois poderia sustentar uma discussão muito mais rica sobre medo, natureza e conhecimento. Contudo, Below frequentemente apresenta ideias que abandona antes de desenvolvê-las.
A comparação inevitável é com Tubarão, embora a série também procure referências em O Enigma de Outro Mundo, O Nevoeiro e no tipo de terror nostálgico recuperado por Stranger Things. O problema é que citar ou reproduzir a atmosfera de obras melhores não basta. O suspense depende do que não vemos, mas também daquilo que tememos perder. Em Below, a ameaça demora a adquirir peso porque muitos personagens são apresentados como tipos excêntricos antes de se tornarem pessoas.
A série quer celebrar a identidade particular de Terranova, seu sotaque, suas tradições, seu humor e a resistência de comunidades que se recusam a desaparecer. Essa talvez seja sua qualidade mais genuína. Snooks Arm não é apenas um cenário; é uma população ameaçada tanto pelo monstro quanto pelo abandono econômico e pela cobiça empresarial. Há uma boa história escondida nessa disputa entre permanecer e partir, preservar e explorar. Há também uma pergunta interessante: quem representa o verdadeiro perigo — a criatura que tenta sobreviver ou os homens que enxergam a natureza apenas como algo a ser dominado?
O problema é que Below não confia inteiramente nessa história. Em vez de aprofundar seus conflitos, acrescenta humor, grotesco, drama familiar, conspiração econômica, comentário climático e horror corporal, como se a soma de muitos tons pudesse substituir uma identidade narrativa. Em alguns momentos, a estranheza funciona. Em outros, a série parece não decidir se quer provocar medo, emoção ou riso. Acaba alcançando muito pouco de cada um.
Também não ajuda o excesso de explicações. O mistério é mais interessante quando ainda não sabemos exatamente o que existe sob a água. Quando a série revela a criatura e organiza racionalmente o que aconteceu, reduz uma ameaça quase ancestral a uma solução relativamente convencional. O monstro, descobrimos, não é exatamente o vilão. Trata-se de uma criatura inteligente que tenta proteger seus filhotes em um ambiente alterado pelo aquecimento das águas. A intenção ecológica é evidente e pertinente, mas chega diluída por uma trama que prefere conduzir o público até a próxima revelação em vez de permitir que a ideia adquira verdadeiro impacto.
Existe ainda uma inversão previsível: a criatura responde ao instinto, enquanto os seres humanos agem por ganância. A família Crocker e o interesse na exploração da região ocupam o lugar de antagonistas que o monstro gradualmente abandona. Não é uma conclusão equivocada, apenas familiar demais. Below sugere uma reflexão sobre crise climática, deslocamento populacional e sobrevivência cultural, mas recua sempre que poderia se tornar mais incômoda.
Ainda assim, é fácil entender por que tanta gente chegou ao fim. São apenas seis episódios, existe uma ameaça clara, cada capítulo entrega uma informação nova; e a paisagem confere à produção uma personalidade visual que seu texto nem sempre possui. A série foi construída para a maratona. Antes que o espectador tenha tempo de questionar suas inconsistências, já está suficientemente perto da conclusão para continuar.

É justamente aí que seus 17 milhões de visualizações fazem sentido. Below não se tornou um fenômeno porque seja extraordinária. Tornou-se um fenômeno porque oferece uma combinação bastante eficiente de estrela conhecida, mistério, horror acessível, cenário incomum e duração curta. Ela exige pouco, avança rapidamente e mantém uma pergunta simples no centro da narrativa: o que existe debaixo daquele iceberg?
A resposta, infelizmente, é menos interessante do que a promessa.
No final, Calvin consegue proteger sua família e a comunidade recupera alguma autonomia. A criatura morre depois de dar à luz, mas seus filhotes não sobrevivem às mudanças no ambiente. A imagem deveria ser devastadora. No entanto, a série não construiu densidade suficiente para que a tragédia alcance toda a força que poderia ter. Até mesmo o novo iceberg avistado no encerramento parece menos uma provocação genuína do que uma porta deixada aberta caso os números convençam a Netflix a transformar a minissérie em algo maior.
Talvez convençam. Below foi vendida como produção limitada e seus responsáveis afirmaram não haver, por enquanto, planos para uma continuação. Mas 17 milhões de visualizações costumam falar uma língua que qualquer plataforma entende.
Se voltar, há material para uma série melhor. Existe um universo cultural interessante, um conflito ambiental urgente e um protagonista que Josh Hartnett torna mais complexo do que está escrito. Nesta primeira passagem por Snooks Arm, porém, Below comprova apenas que uma excelente premissa pode nos levar até o fim sem jamais cumprir aquilo que prometeu no começo. A Netflix encontrou seu novo fenômeno. Eu ainda estou procurando a grande série que poderia existir dentro dele.
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