A Apple TV descobriu em Mick Herron um universo que parece inesgotável de personagens imperfeitos, investigações tortuosas, humor britânico e crimes que escondem muito mais do que aparentam. Depois do sucesso de Slow Horses, foi a vez de Down Cemetery Road provar que as histórias do escritor não dependem necessariamente de espionagem para funcionar. Bastam bons mistérios, diálogos inteligentes e, sobretudo, personagens extraordinários. E quando esses personagens são interpretados por Emma Thompson e Ruth Wilson, o resultado fica ainda melhor. Agora, com a segunda temporada confirmada, 12 novos atores anunciados e uma trama que promete ser mais sombria, a expectativa é alta.
A primeira temporada apresentou uma parceria improvável, mas irresistível. Zoë Boehm, a investigadora particular interpretada por Emma Thompson, é uma mulher difícil, sarcástica, inteligente e absolutamente incapaz de seguir convenções. Sarah Tucker, vivida por Ruth Wilson, começou como uma mulher comum envolvida acidentalmente em uma conspiração perigosa, mas terminou descobrindo uma coragem que talvez nem soubesse possuir. Juntas, construíram uma relação que passou da desconfiança à cumplicidade, com uma química que se tornou o grande diferencial da série.
E é justamente essa parceria que continuará no centro da história.

Novos rostos para um novo mistério
A Apple TV anunciou em 15 de outubro a chegada de 12 atores ao elenco da segunda temporada. Entre eles estão Martin Clunes, conhecido por Doc Martin, Fionn Whitehead, de Dunkirk, Paterson Joseph, de Wonka, e Amanda Abbington, de Sherlock. Também foram confirmados Ashley McGuire, Dimitri Leonidas, Aasiya Shah, Paul Chahidi, Liz White, Jeff Rawle, Amber Grappy e Yali Topol Margalith.
É um elenco britânico daqueles que costumam transformar até participações menores em momentos memoráveis. A presença de Ashley McGuire, aliás, cria uma pequena conexão com Slow Horses, universo que já demonstrou como Herron sabe escrever personagens secundários que frequentemente roubam a cena.
Por enquanto, a produção mantém em segredo os personagens que cada um interpretará. Isso inclui a identidade do novo vilão, figura que deverá ocupar um espaço importante na investigação.
Além de Emma Thompson e Ruth Wilson, estão confirmados os retornos de Tom Riley, Joshua James e Sarah Kestelman. Isso indica que a série não pretende simplesmente abandonar os vínculos construídos na primeira temporada para começar outro mistério do zero. A vida de Sarah, seu casamento com Mark e a relação cada vez mais próxima com Zoë ainda deverão ter consequências.
Dois livros, uma investigação e um assassino em série
A grande novidade, porém, não está apenas no elenco. A segunda temporada será inspirada em dois romances de Mick Herron, The Last Voice You Hear e Smoke and Whispers, respectivamente o segundo e o quarto volumes da série literária protagonizada por Zoë Boehm.
É uma escolha curiosa, principalmente porque a adaptação não seguirá rigorosamente a cronologia dos livros. E, conhecendo o estilo do escritor, há motivos para acreditar que essa combinação não será acidental.
A nova investigação começa quando uma mulher morre diante de um trem. Zoë é contratada para descobrir o que realmente aconteceu e acaba arrastando Sarah para uma história que envolve o comércio clandestino de arte e antiguidades. O que inicialmente parece um caso isolado cresce até colocar as duas diante de um assassino em série, alguém que está disposto a fazer qualquer coisa para manter seus crimes escondidos.
No romance The Last Voice You Hear, a vítima é Caroline Daniels. Seu namorado desaparece e, quando um adolescente também morre em circunstâncias suspeitas, Zoë começa a perceber que os acontecimentos podem estar relacionados. O mistério passa por corrupção policial, identidades escondidas e pela busca de um criminoso que deixa rastros bastante perturbadores.
Não sabemos quanto dessa estrutura será mantida na televisão, mas é uma trama que oferece exatamente o tipo de terreno no qual Herron se movimenta melhor: pessoas aparentemente comuns descobrindo que estão cercadas por segredos muito maiores do que imaginavam.
E, evidentemente, a possibilidade de ver Emma Thompson diante de um assassino em série já seria motivo suficiente para acompanhar a nova temporada.

O livro que pode mudar tudo
Mas existe um detalhe ainda mais intrigante. O outro romance escolhido para a adaptação, Smoke and Whispers, começa com uma situação que pode representar uma enorme reviravolta para a série.
Nos livros, Zoë Boehm aparentemente está morta.
Um corpo encontrado no rio Tyne, em Newcastle, é identificado como sendo o da investigadora. Sarah, incapaz de aceitar completamente o que aconteceu, decide investigar a suposta morte da amiga. O que encontra é uma história envolvendo velhos conhecidos, segredos e perguntas que tornam a identidade do corpo apenas uma parte do mistério.
É importante destacar que essa é a premissa do romance, não uma confirmação do que acontecerá na segunda temporada. Entretanto, a escolha de combinar justamente esses dois livros abre uma possibilidade fascinante. A investigação do assassino em série pode ser o ponto de partida para uma ameaça muito mais pessoal, colocando Zoë no centro de uma conspiração da qual talvez nem ela consiga sair ilesa.
Outro detalhe interessante é que Smoke and Whispers recupera Gerard Inchon, personagem que já apareceu na primeira temporada da série, interpretado por Tom Goodman-Hill. Seu retorno televisivo ainda não foi confirmado, mas a conexão literária existe e merece atenção.
Afinal, Herron raramente introduz um personagem ou um acontecimento sem ter alguma coisa guardada para mais tarde. Quem acompanha Slow Horses conhece muito bem esse método.
O verdadeiro segredo de Down Cemetery Road
Há também uma questão importante sobre o futuro da adaptação. Embora Zoë seja a protagonista da série literária, a televisão encontrou algo que transcende os mistérios escritos por Herron: a relação entre duas mulheres muito diferentes, que se reconhecem justamente naquilo que têm de mais contraditório.
Emma Thompson construiu uma Zoë fascinante porque não tenta torná-la simpática. Ela é desagradável quando quer, impaciente quase sempre, frequentemente inconveniente e, ainda assim, irresistível. Thompson consegue fazer com que uma pausa, um olhar ou uma resposta atravessada sejam tão expressivos quanto uma cena de ação.
Ruth Wilson, por sua vez, encontrou em Sarah uma personagem que cresce diante de nossos olhos. Não se trata de uma heroína convencional, mas de uma mulher que, confrontada com uma realidade brutal, começa a questionar os limites da própria vida. E Wilson é especialmente boa quando precisa revelar emoções que a personagem ainda não consegue colocar em palavras.
Separá-las seria arriscar justamente aquilo que tornou a primeira temporada especial. Por isso, acredito que a adaptação deverá preservar a parceria, mesmo que precise reorganizar acontecimentos importantes dos romances.
Afinal, não estamos acompanhando apenas uma série policial. Estamos acompanhando duas mulheres que, por razões completamente diferentes, descobriram que não conseguem mais ignorar aquilo que está errado ao redor delas.

Quando estreia a segunda temporada?
A segunda temporada continuará sob a responsabilidade criativa de Morwenna Banks, enquanto Börkur Sigþórsson assume a direção principal. A Apple TV ainda não anunciou oficialmente uma data de estreia.
Também não sabemos quantos elementos de Smoke and Whispers serão efetivamente incorporados nem se a possível morte de Zoë chegará à televisão. O que está confirmado é que a nova temporada terá um assassino em série, uma investigação ligada ao mercado clandestino de arte e um elenco significativamente ampliado.
Para mim, porém, o maior atrativo continua sendo assistir a Emma Thompson e Ruth Wilson dividindo a cena. Mick Herron pode construir as conspirações mais elaboradas, apresentar criminosos perigosos e espalhar cadáveres pelo caminho, mas o verdadeiro triunfo de Down Cemetery Road está em algo mais simples: duas atrizes extraordinárias interpretando mulheres que não pedem licença para ser quem são.
E, se a série realmente decidir brincar com a possibilidade de perder Zoë Boehm, teremos um mistério ainda mais interessante. Porque descobrir quem está matando pode ser apenas o começo. A grande pergunta talvez seja quem conseguirá sobreviver à investigação.
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