Ben Affleck sabe fazer suspense. Já demonstrou isso em Medo da Verdade (2007), Atração Perigosa (2010) e, sobretudo, Argo (2012), quando conseguiu transformar uma história cujo desfecho todos conheciam em um thriller capaz de deixar o espectador sem respirar. Por isso, é ainda mais frustrante assistir a Animals, sua nova produção para a Netflix. Não falta elenco, não falta uma premissa interessante e certamente não faltam ambições. O que falta, surpreendentemente, é quase tudo aquilo que Affleck já provou saber fazer. O filme é escuro demais, confuso na condução da história e, talvez o mais decepcionante, não apresenta sequer uma atuação verdadeiramente memorável.
A escuridão, aliás, não é apenas uma questão estética. É um problema que compromete a experiência. Há momentos em que parece ser necessário fazer esforço para enxergar o que está acontecendo. Entendo a intenção de criar uma atmosfera sombria, especialmente numa trama em que os personagens escondem segredos e precisam enfrentar suas próprias contradições. Mas existe uma diferença enorme entre construir tensão com luz e sombra e simplesmente mergulhar tudo na penumbra. O resultado é cansativo e, em vez de aumentar o suspense, acaba afastando o espectador.
A história acompanha Mark Kimball (Ben Affleck), um advogado milionário que disputa a prefeitura de Los Angeles. Casado com Abigail (Kerry Washington), pai de um menino e aparentemente dono de uma vida perfeita, ele descobre que sua segurança é muito mais frágil do que imaginava quando recebe a notícia de que seu filho foi sequestrado. Os criminosos exigem um resgate milionário e, para consegui-lo, Mark precisa recorrer a pessoas e estratégias que colocam em risco sua reputação, seu casamento e suas ambições políticas.

É uma premissa clássica do cinema de suspense: colocar um homem poderoso diante de uma situação em que dinheiro, influência e prestígio deixam de oferecer proteção. Mas Animals quer ir além. A proposta é discutir até onde alguém está disposto a ir para preservar a própria família e, principalmente, o que acontece quando a moralidade se transforma em uma questão de conveniência. Mark é o tipo de personagem que construiu uma imagem pública cuidadosamente calculada, mas cuja integridade desaparece quando precisa tomar decisões que envolvem sacrifícios pessoais.
O problema é que Affleck não consegue nos fazer acreditar nesse homem, nem como político, nem como marido, muito menos como alguém genuinamente desesperado. Sua atuação parece constantemente presa à mesma expressão de preocupação, sem que o medo, a culpa ou o oportunismo ganhem profundidade. E isso enfraquece uma história que depende justamente da transformação — ou revelação — moral de seu protagonista.
Kerry Washington também não encontra muito espaço para desenvolver Abigail. A atriz tem talento de sobra para interpretar mulheres inteligentes, contraditórias e emocionalmente complexas, como demonstrou durante anos em Scandal. Aqui, entretanto, sua personagem parece existir principalmente em função das decisões do marido. Mesmo quando o roteiro revela aspectos mais complicados do casamento, falta intensidade à relação. Não sentimos intimidade, cumplicidade ou sequer um conflito suficientemente convincente para justificar as reações dos dois.
E a decepção não termina no casal principal. Gillian Anderson, Steven Yeun e Luis Gerardo Méndez completam um elenco que, no papel, deveria garantir ao menos boas cenas individuais. Anderson interpreta Dayle Burton, uma mulher capaz de oferecer soluções pouco convencionais para problemas delicados, mas sua presença não consegue elevar o conjunto. Yeun, normalmente excelente em personagens que escondem muito mais do que revelam, também parece limitado pelo material. É raro encontrar tantos atores talentosos sem que nenhum consiga realmente se destacar. Isso sugere um problema que ultrapassa as interpretações individuais e chega à própria direção.

Há ainda a questão do roteiro. Animals multiplica informações, interesses paralelos e reviravoltas, mas nem sempre consegue estabelecer uma ligação clara entre os acontecimentos. Confundir o espectador não é necessariamente ruim. Grandes suspenses dependem de informações incompletas, falsas pistas e descobertas inesperadas. O problema surge quando a confusão não parece fazer parte de uma construção inteligente, mas de uma narrativa que não sabe exatamente onde deseja concentrar sua atenção.
E é impossível ignorar a proximidade com Céu e Inferno (High and Low, 1963), de Akira Kurosawa, um dos grandes filmes sobre desigualdade social e responsabilidade moral. A história do homem rico que precisa decidir quanto vale a vida de uma criança que não é sua encontra um paralelo evidente em Animals. Mais recentemente, Spike Lee retomou a premissa em Highest 2 Lowest (2025), com Denzel Washington. Affleck chegou a interromper temporariamente os preparativos de sua produção ao descobrir as semelhanças entre os projetos, e o roteiro passou por alterações importantes.
Mas o que torna o clássico de Kurosawa tão extraordinário não é simplesmente o sequestro ou sua resolução. É a maneira como o diretor utiliza uma situação aparentemente individual para questionar as estruturas sociais e econômicas que determinam o valor atribuído às pessoas. Em Animals, essa discussão está presente, especialmente quando a identidade da criança sequestrada muda completamente a dimensão do dilema. Entretanto, o filme parece mais interessado em produzir novas complicações do que em explorar as consequências humanas de suas próprias ideias.
A partir daqui, spoilers.
Quando descobrimos que Denny, o filho de Mark, não foi sequestrado e que a verdadeira vítima é Hector, filho de uma família imigrante, encontramos finalmente o grande conflito moral da história. O homem que estava disposto a fazer qualquer coisa para salvar o próprio filho começa a calcular os custos de salvar o filho de outra pessoa. Sua preocupação com a repercussão política passa a disputar espaço com qualquer impulso de solidariedade. É uma inversão poderosa e extremamente atual.
Mas Affleck parece não confiar na força dessa revelação. Em vez de permitir que o dilema se desenvolva, acelera os acontecimentos até transformar a situação em uma sucessão de decisões criminosas, mortes e acordos convenientes. A violência assume o lugar da reflexão, enquanto os personagens passam a se comportar de acordo com as necessidades do desfecho.

O verdadeiro herói é Ramon, pai de Hector, que consegue salvar o menino. Entretanto, quem termina celebrado publicamente é Mark, capaz de manipular a história, apagar sua responsabilidade e transformar uma tragédia numa oportunidade eleitoral. O político vence, o casamento sobrevive e a imagem pública permanece intacta. A ironia é evidente: o homem que deveria perder tudo consegue conquistar ainda mais poder.
Não é uma conclusão desinteressante. Pelo contrário. A ideia de que a sociedade recompensa aqueles que sabem controlar a narrativa, independentemente de suas ações, poderia sustentar uma crítica política muito mais contundente. O problema é que o caminho até essa conclusão não tem a força necessária para torná-la verdadeiramente perturbadora. O filme explica sua tese, mas não consegue fazê-la reverberar emocionalmente.
Nos bastidores, Animals também enfrentou dificuldades. Além das reformulações do roteiro, a produção acabou associada a divergências entre Affleck e executivos da Netflix. Mas nenhuma dessas questões deveria servir como desculpa automática para o resultado. Filmes problemáticos durante a produção já se transformaram em obras extraordinárias. O que importa, no fim, é aquilo que chega à tela.
E o que chega à tela é uma oportunidade desperdiçada. Um suspense que deveria provocar ansiedade raramente consegue criar tensão. Um drama sobre limites morais não desperta grande envolvimento com seus personagens. Uma história sobre aparências e mentiras termina parecendo artificial demais para convencer.
Talvez a maior ironia de Animals seja justamente essa: um filme que pretende revelar a natureza humana por trás das máscaras sociais acaba oferecendo personagens que nunca parecem verdadeiramente humanos. E, vindo de um diretor que já demonstrou tanta habilidade para contar histórias de crime, poder e sobrevivência, a decepção é ainda maior.
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