Slow Horses nunca prometeu proteger seus personagens, mas a sexta temporada foi particularmente cruel com aqueles que aprendemos a admirar. Depois de J.K. Coe, chegou a vez de Emma Flyte, interpretada brilhantemente por Ruth Bradley, morrer em uma das sequências mais emocionantes da série. E, no caso dela, a ironia foi ainda maior: a mulher que tinha verdadeiro horror aos pangarés de Slough House morreu como uma deles, protegendo os colegas que antes considerava inferiores. Uma despedida brutal, mas que fez justiça a uma personagem que, em apenas três temporadas, conquistou seu lugar entre as figuras mais interessantes da história criada por Mick Herron. E que, nas palavras do improvável Roddy Ho, era simplesmente lendária.

Emma chegou à série na quarta temporada, substituindo Nick Duffy no comando dos Dogs, a temida unidade de segurança do MI5. Duffy havia terminado a terceira temporada em coma depois de seu confronto com os agentes de Slough House, abrindo espaço para uma mudança importante. Em vez de outro homem brutal, corrupto e acostumado a resolver problemas pela violência, conhecemos uma mulher disciplinada, inteligente e absolutamente convencida de que as regras existiam para serem cumpridas. Emma vinha da Polícia Metropolitana de Londres, onde havia trabalhado no combate à corrupção, e sua ascensão representava uma conquista pessoal importante. Era a primeira mulher a comandar os Dogs, um universo tradicionalmente masculino, e acreditava ter finalmente alcançado o reconhecimento que merecia.
Sua estreia aconteceu em meio à investigação da suposta morte de River Cartwright, quando David Cartwright atirou em um homem que acreditava ser seu neto. Foi nessa investigação que Emma começou a descobrir o quanto o mundo do MI5 era diferente daquele para o qual imaginava ter sido preparada. Jackson Lamb, naturalmente, não demorou a perceber suas fragilidades. Enquanto Flyte tentava conduzir uma investigação seguindo procedimentos, Lamb mentia, escondia informações e manipulava seus movimentos para proteger River e David. Emma chegou a tentar prendê-lo, mas acabou sendo conduzida por suas informações, inclusive quando foi enviada à procura de David no apartamento de Catherine Standish. O homem que considerava uma vergonha para o serviço secreto demonstrava conhecer os mecanismos da instituição muito melhor do que ela.
Essa foi uma das primeiras derrotas de Flyte, embora estivesse longe de significar incompetência. Emma era uma excelente investigadora, capaz de perceber inconsistências e compreender rapidamente situações perigosas. Seu problema era acreditar que as pessoas ao seu redor respeitavam as mesmas regras que ela. E, especialmente, acreditar que Diana Taverner estava do seu lado.
A relação com Diana foi fundamental para compreender a personagem. Emma admirava a poderosa dirigente do MI5 e imaginava que, ao trabalhar sob sua proteção, estava construindo uma carreira que poderia levá-la ao topo. Ruth Bradley explicou ao The Hollywood Reporter que interpretava essa relação quase como a de uma mãe e uma filha. Emma queria a aprovação de Taverner, acreditava ter sido escolhida por ela e enxergava na superiora um modelo de mulher bem-sucedida em uma instituição dominada por homens. O problema é que Diana jamais demonstrou o mesmo investimento emocional. Para ela, Emma era uma funcionária competente, mas perfeitamente descartável.


Na quinta temporada, começamos a perceber uma mudança. Emma continuava rigorosa e orgulhosa de sua posição, mas já não parecia tão convencida de que compreendia tudo o que acontecia ao seu redor. Depois dos acontecimentos traumáticos da quarta temporada, procurava recuperar a confiança de Diana e demonstrar que merecia o cargo. Sua experiência policial apareceu novamente na investigação do ataque ao shopping de Abbotsfield, quando percebeu rapidamente que o atirador não havia cometido suicídio, mas sido eliminado por outro homem. A competência permanecia intacta, enquanto sua confiança na instituição começava a apresentar rachaduras.
E Lamb continuava sendo um problema. Emma nunca conseguiu tratá-lo como um adversário comum porque ele não respeitava as regras do jogo que ela conhecia. Ele levava vantagem utilizando informações, mentiras e sua capacidade de manipular situações para permanecer alguns passos à frente. Mas, aos poucos, ficou evidente que sua superioridade não dependia apenas de esperteza. Lamb compreendia as pessoas, inclusive suas fraquezas, e conhecia os mecanismos de uma instituição que Emma ainda insistia em idealizar.
O que também fomos descobrindo é que a arrogância de Emma escondia uma mulher profundamente empática. Diferentemente de Duffy, que utilizava a autoridade como instrumento de intimidação, ela acreditava na responsabilidade de proteger pessoas. Podia ser autoritária, impaciente e até desagradável, mas não era cruel. E essa distinção tornou-se decisiva na sexta temporada. A humanidade não surgiu quando perdeu seu cargo ou quando foi obrigada a conviver com os pangarés. Sempre esteve ali, mesmo quando Emma fazia questão de escondê-la atrás de sua postura profissional.
Com Diana Taverner no comando do MI5, a relação entre as duas finalmente chegou ao limite. Emma percebeu que a superior estava envolvida em decisões cada vez mais questionáveis e tentou ajudá-la, antes de compreender que sua própria carreira poderia ser sacrificada para protegê-la. A resposta de Diana foi transferi-la para Slough House, justamente o lugar que Emma considerava a representação máxima do fracasso profissional. Para uma mulher que havia conquistado com tanto esforço seu espaço entre os Dogs, a transferência foi pior do que uma demissão.
O confronto entre as duas foi um dos momentos mais interessantes da temporada. Emma finalmente perdeu a paciência, abandonou a deferência e disse exatamente o que pensava. Não estava apenas reagindo a uma injustiça profissional, mas descobrindo que a mulher cuja aprovação buscara durante tanto tempo jamais havia demonstrado o mesmo respeito por ela. A relação quase maternal, como descreveu Ruth Bradley, terminou em uma ruptura particularmente dolorosa.
Mas há um detalhe importante: quando os Slow Horses apareceram em sua casa pedindo ajuda, Emma já sabia que havia sido transferida para Slough House. Lamb, por outro lado, sequer tivera tempo de descobrir que havia recebido uma nova integrante para sua equipe. Tecnicamente, Emma Flyte já era uma pangaré, embora ainda estivesse tentando compreender como sua carreira havia chegado àquele ponto.
E foi justamente nesse momento que conhecemos sua melhor versão. Sem cargo, prestígio ou qualquer obrigação de continuar arriscando a própria vida, Emma decidiu ajudar aqueles que antes desprezava. Mais do que isso, foi graças às informações que forneceu que Lamb conseguiu identificar a conexão entre Damien Cantor e Frank Harkness, peça fundamental para compreender a conspiração e encontrar uma saída para a crise. A contribuição de Emma foi decisiva, demonstrando que continuava sendo uma excelente agente, independentemente da posição que ocupasse.

A transformação se completou no episódio final, Judgment Day, durante o confronto na casa de campo de Diana Taverner. Enquanto os assassinos cercavam os Slow Horses, Emma percebeu que Shirley, Roddy e Reece estavam em perigo e correu pela praia para salvá-los. Não houve hesitação, cálculo político ou preocupação com as consequências. Ela simplesmente fez aquilo que acreditava ser sua obrigação.
Emma conseguiu atingir um dos homens armados e proteger seus colegas, mas acabou enfrentando Frank Harkness, interpretado por Hugo Weaving. E foi nesse momento que a série decidiu alterar significativamente sua morte em relação ao romance Joe Country.
Há ainda uma ironia particularmente cruel na trajetória de Emma Flyte: ela entrou em Slow Horses justamente por causa de Frank Harkness. Na quarta temporada, foi a operação comandada pelo mercenário, que enviou seus próprios filhos para eliminar David Cartwright e Sam Chapman, que desencadeou a investigação responsável por colocar Emma no caminho de Jackson Lamb. O homem que, indiretamente, marcou o início de sua história na série foi o mesmo que, duas temporadas depois, a executou pessoalmente. E há algo especialmente perturbador nessa circularidade. Frank continuou sendo exatamente o mesmo homem, indiferente às vidas que destruía, enquanto Emma passou por uma profunda transformação. Ela perdeu a arrogância, a confiança cega na instituição e a admiração por Diana Taverner, mas preservou a humanidade que sempre existiu por trás de sua rigidez. Ele não mudou. Ela mudou completamente. E foi ela quem morreu.
No livro de Mick Herron, Emma deixa o MI5 depois de se recusar a aceitar o rebaixamento imposto por Diana. Acaba ajudando Louisa Guy a procurar Lucas, filho de Min Harper, e as duas trocam de casacos, um detalhe aparentemente banal que contribui para a tragédia. Emma é encontrada por um dos homens de Harkness, que tenta obter informações sobre o menino e acaba matando-a. É uma morte cruel, consequência direta de sua decisão de proteger outras pessoas, mas sem a dimensão do confronto que a adaptação escolheu apresentar.
Na televisão, Emma ganhou uma última batalha. E que batalha. Ferida pelas costas por Harkness, ela ainda conseguiu reagir. Não desistiu quando percebeu a gravidade da situação, nem quando suas chances de sobrevivência praticamente desapareceram. Continuou lutando, chegou a atingir o assassino e, quando ficou sem munição, atirou a própria arma contra ele. Não foi suficiente. Harkness permaneceu diante dela, pronto para executá-la.
É o instante mais doloroso da sequência. Emma compreende que não tem mais como escapar. Fez tudo o que podia, resistiu até o último segundo e sabe que vai morrer. Então, finalmente, para de lutar e aguarda. Não há súplicas, negociações ou promessas. Apenas a consciência de que seu destino está decidido. Uma mulher que passou a vida tentando controlar as situações encontra, no fim, algo que já não pode controlar.
Ruth Bradley revelou que essa foi a primeira vez em sua carreira que interpretou o momento exato da morte de uma personagem. A atriz e o diretor Adam Randall optaram por não ensaiar excessivamente a cena, preservando a espontaneidade de uma reação que ninguém poderia realmente antecipar. Bradley contou que o roteiro continha uma indicação particularmente simples e poderosa: Emma percebia que aquele seria seu último momento. O restante foi construído durante a gravação, incluindo a decisão de lançar a arma contra Harkness. E o resultado é devastador. Emma não morre como uma heroína invulnerável, mas como uma mulher que compreende sua situação e, ainda assim, preserva a dignidade.
A mudança em relação ao livro fez justiça à personagem. Não porque sua morte original fosse menos significativa, mas porque a série permitiu que Emma demonstrasse até o último instante tudo aquilo que havíamos descoberto sobre ela. Sua coragem, sua competência, sua capacidade de proteger outras pessoas e, sobretudo, sua humanidade. Ao transformar Harkness em seu assassino, os roteiristas também eliminaram qualquer possibilidade de romantizar o personagem. Ele pode ter uma relação complexa com River, mas continua sendo um homem capaz de executar friamente uma agente que acabara de salvar outras vidas.

A roteirista e produtora Gaby Chiappe explicou que a alteração surgiu da necessidade de reunir as tramas de Joe Country e Slough House, os dois romances adaptados na sexta temporada. A essência da morte de Emma foi preservada, mas a decisão de torná-la vítima direta de Harkness acrescentou peso dramático à história. Especialmente porque o assassino termina a temporada vivo, enquanto Emma paga com a própria vida por ter escolhido proteger os outros.
E sua morte não encerrou apenas sua trajetória. Foi também o acontecimento que provocou uma transformação improvável em outro personagem: Roddy Ho.
Durante seis temporadas, Roddy foi o integrante mais irritante de Slough House, e isso não é pouca coisa em uma equipe comandada por Jackson Lamb. Arrogante, narcisista, inconveniente e absolutamente convencido de sua própria genialidade, ele sempre demonstrou uma capacidade extraordinária de se colocar acima dos demais. A violência, para Roddy, parecia frequentemente um jogo. O hacker que se divertia pedindo fotografias de cadáveres e comentando mortes com uma curiosidade quase mórbida nunca havia demonstrado grande capacidade de compreender o sofrimento alheio. Até encontrar Emma morta na praia.
Christopher Chung, intérprete de Roddy, explicou ao TV Insider que considerou essa cena um momento fundamental para a transformação do personagem. Apesar de seu fascínio por imagens violentas, Roddy nunca havia se deparado daquela maneira com o corpo de alguém que conhecia. A morte deixava de ser uma imagem distante, quase virtual, para se tornar uma realidade impossível de ignorar.
E é justamente nesse instante que Roddy faz algo que nunca esperaríamos dele. Depois de fugir do confronto, pensando apenas em salvar a própria pele, ele decide voltar para ajudar Shirley e Reece. Não se transforma milagrosamente em um agente competente, muito menos em um herói de ação. Continua sendo Roddy, atirando pessimamente e sem conseguir atingir os inimigos. Mas, pela primeira vez, demonstra coragem por outra pessoa. Entende que existem situações nas quais a própria sobrevivência não pode ser a única prioridade.
É uma transformação pequena, mas imensa para alguém como ele. E foi Emma quem a provocou. A mulher que precisou morrer para que Roddy descobrisse a realidade da violência e a responsabilidade de proteger os companheiros. Quando ele a descreve como a lendária, talvez esteja oferecendo a definição mais precisa de sua trajetória. Emma foi uma lenda não porque jamais tenha cometido erros ou porque fosse invencível, mas porque fez aquilo que Roddy, até então, sequer conseguia compreender: colocou a vida dos outros acima da própria.
Essa transformação também revela uma das maiores qualidades de Slow Horses. Os personagens não precisam se tornar pessoas completamente diferentes para demonstrar que mudaram. Roddy continua sendo inconveniente, egocêntrico e incapaz de reconhecer a própria falta de habilidade. Mas, depois de Emma, já não pode fingir que a morte é apenas mais uma imagem em uma tela. Há uma humanidade inesperada em sua reação, assim como havia uma humanidade que Emma escondia atrás de sua arrogância.
Ruth Bradley contou que conhecia o destino de Emma desde antes de gravar sua primeira cena, na quarta temporada. Leu os romances de Mick Herron e decidiu construir deliberadamente uma mulher convencida de sua superioridade, justamente porque sabia quanto ela ainda teria que mudar. Na quarta temporada, Emma era arrogante e se sentia acima dos pangarés. Na quinta, começou a revelar suas fragilidades e perdeu parte da segurança que sustentava sua identidade. Na sexta, finalmente encontrou sua verdadeira personalidade.
A atriz também revelou que se apaixonou progressivamente por Emma, uma personagem que começou a interpretar com certa distância, explorando sua arrogância, e terminou por compreendê-la profundamente. Foi uma trajetória que Bradley comparou ao próprio amadurecimento humano: as pessoas mudam, descobrem suas fragilidades e aprendem a reconhecer aspectos de si mesmas que antes desconheciam.

Há ainda um detalhe bonito em seu depoimento. Bradley contou que Gary Oldman foi uma das razões pelas quais decidiu ser atriz e que trabalhar com ele confirmou sua admiração. Além de destacar seu talento e sua preparação, elogiou a generosidade com os colegas e a equipe, observando que alguém pode ser um dos maiores atores vivos e, ainda assim, tratar todos com gentileza. Uma observação que, curiosamente, também parece dialogar com a trajetória de Emma: competência e grandeza não precisam ser acompanhadas de arrogância.
E é interessante observar o contraste entre Emma e Diana. As duas eram mulheres ambiciosas, inteligentes e determinadas a conquistar espaço em uma instituição dominada por homens. Mas enquanto Diana aprendeu a sobreviver sacrificando outras pessoas, Emma descobriu que sua competência não significava nada se não fosse acompanhada de responsabilidade. Diana terminou a temporada preservando o poder graças à intervenção de Jackson Lamb. Emma morreu protegendo os agentes que sua antiga chefe considerava descartáveis.
Será que Taverner sentirá alguma culpa? Ruth Bradley não parece particularmente otimista. Na entrevista ao The Hollywood Reporter, questionou se Diana seria capaz de demonstrar verdadeiro remorso, considerando tudo o que já fez com outros agentes, incluindo Sid Baker. E talvez tenha razão. A grande ironia de Slow Horses é que aqueles que ocupam as posições mais importantes frequentemente sobrevivem aos próprios erros, enquanto os que ainda acreditam em algum princípio acabam pagando o preço.
Também não deixa de ser significativo que a morte de Emma tenha ocorrido tão pouco tempo depois da de Coe. Os dois representavam trajetórias completamente diferentes. Coe era um homem marcado por traumas profundos que encontrou entre os pangarés uma espécie de família, embora jamais conseguisse se libertar inteiramente de seu sofrimento. Emma, ao contrário, construiu sua identidade profissional em torno da disciplina e da superioridade, apenas para descobrir que aqueles agentes considerados fracassados demonstravam uma lealdade que nunca encontrou no MI5.
Emma Flyte não era perfeita. Foi arrogante, autoritária e frequentemente insuportável. Mas jamais perdeu a capacidade de se importar com outras pessoas. E essa foi sua grande diferença. Enquanto tantos personagens de Slow Horses aprendem a sobreviver tornando-se cada vez mais cínicos, Emma descobriu que não precisava abandonar sua humanidade para ser uma boa agente.
Ela morreu como uma pangaré, embora Lamb sequer soubesse que havia ganhado uma nova integrante. Morreu defendendo os colegas, depois de ajudar a desvendar a conspiração que ameaçava a todos. Morreu lutando até onde conseguiu e aceitando seu destino quando percebeu que não havia mais nada a fazer. E, mesmo depois de morta, conseguiu fazer algo que parecia impossível: despertar em Roddy Ho um sentimento genuíno de responsabilidade pelos outros.

Ruth Bradley se despede de Slow Horses depois de transformar Emma em uma das personagens mais interessantes da série. Sua morte representa uma perda importante, mas também encerra uma trajetória que conseguiu transformar uma figura inicialmente antipática em alguém cuja ausência será profundamente sentida.
Emma Flyte entrou em Slow Horses convencida de que era melhor do que os pangarés. Saiu provando que era uma deles. E morreu como Roddy Ho jamais imaginou que alguém pudesse morrer: uma lenda.
Descubra mais sobre
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.
