Tom Cruise receberá prêmio do AFI por sua carreira em 2027

Como publicado no Blog do Amaury Jr./Splash UOL

Tom Cruise já passou boa parte da carreira fazendo o impossível parecer parte da rotina. Talvez por isso seja fácil esquecer que, antes de se transformar no homem que se pendura em aviões e salta de lugares dos quais a maioria de nós nem chegaria perto, ele construiu uma filmografia que atravessa diferentes versões de Hollywood. O American Film Institute vai celebrar essa trajetória em 2027: Cruise será o homenageado da 52ª edição do AFI Life Achievement Award, em uma cerimônia marcada para 24 de abril, no Dolby Theatre, em Los Angeles.

Cruise passa a integrar uma lista que ajuda a dimensionar o peso da homenagem. Criado em 1973, quando o primeiro premiado foi John Ford, o AFI Life Achievement Award já reconheceu nomes como Bette Davis, Alfred Hitchcock, Steven Spielberg, Martin Scorsese, Meryl Streep e Tom Hanks. Mais recentemente, foi entregue a Julie Andrews, Nicole Kidman, Francis Ford Coppola e Eddie Murphy. A presença de Kidman, homenageada em 2024, acrescenta uma coincidência biográfica: os dois, que dividiram a vida e a tela, passam a ter suas trajetórias reconhecidas individualmente pela instituição.

A escolha faz sentido por várias razões. Uma delas é que poucos atores de sua geração mantiveram uma relação tão consistente com o público. Outra é que Cruise se tornou um defensor particularmente visível de uma ideia de cinema que a indústria já não sabe muito bem como preservar: a de que um filme pode ser um acontecimento e de que sair de casa para vê-lo faz parte da experiência.

O prêmio também oferece uma oportunidade de olhar para o conjunto. Porque, entre uma missão impossível e outra, há um ator que corre o risco de ficar escondido atrás das próprias proezas.

Antes das acrobacias, o ator

Há algo curioso na maneira como a imagem recente de Tom Cruise reorganizou a lembrança de sua carreira. As acrobacias se tornaram tão centrais à divulgação dos filmes que, às vezes, parece que estamos acompanhando um atleta tentando superar a marca anterior. Qual será o próximo salto? Em que veículo ele ainda não se pendurou? Quanto tempo consegue ficar sem respirar?

É uma estratégia eficiente, mas ocupa um espaço enorme na conversa sobre seu trabalho. Basta voltar a Nascido em 4 de Julho, Jerry Maguire ou Magnólia para lembrar que sua capacidade de sustentar um filme não depende exclusivamente da disposição de colocar o próprio corpo em perigo.

Cruise soube trabalhar a segurança, o charme e a competitividade de sua imagem, mas também encontrou personagens nos quais essas características revelavam alguma coisa menos confortável. A confiança podia ser uma defesa. O sorriso, uma ferramenta de controle. A necessidade de vencer, uma maneira de evitar o encontro com a própria fragilidade.

Em Magnólia, especialmente, há um uso cruel dessa presença. O homem que vende uma fantasia de domínio precisa enfrentar aquilo que seu discurso tenta manter longe. Já em De Olhos Bem Fechados, Stanley Kubrick coloca o astro em uma jornada na qual sua posição, seu dinheiro e sua aparência não lhe garantem compreender o que acontece ao redor. São filmes que tornam particularmente interessante observar o controle que Cruise exerce sobre sua imagem — e o que acontece quando um personagem começa a perdê-lo.

Uma carreira que atravessa Hollywood

A lista de diretores com quem trabalhou ajuda a dimensionar essa trajetória: Martin Scorsese, Oliver Stone, Stanley Kubrick, Paul Thomas Anderson, Steven Spielberg, Michael Mann. Não é apenas uma coleção de nomes importantes. São cineastas que encontraram maneiras diferentes de usar sua presença.

Em A Cor do Dinheiro, a juventude e a autoconfiança entram em confronto com a experiência de Paul Newman. Em Colateral, Michael Mann explora o desconforto de vê-lo como um assassino profissional, usando a precisão e a determinação que tantas vezes associamos ao herói. Spielberg, por sua vez, o colocou no centro de dois filmes de ficção científica bastante distintos, Minority Report e Guerra dos Mundos, nos quais sobreviver exige reconhecer os limites do próprio controle.

Essa variedade merece espaço em uma homenagem à carreira. A permanência de Cruise também está ligada à capacidade de trabalhar dentro de gêneros populares sem fazer exatamente o mesmo personagem em todos eles. Mesmo quando sua presença é imediatamente reconhecível, o filme pode colocá-la a serviço de algo inesperado.

O astro que vende a próxima sessão

Como produtor, Cruise ajudou a transformar Missão: Impossível em uma extensão de sua identidade profissional. A promessa de entrega se tornou parte do produto: o público acompanha Ethan Hunt, mas também acompanha Tom Cruise tentando realizar alguma coisa que parecia impraticável.

Há uma dimensão quase artesanal nessa insistência em mostrar o esforço necessário para construir o espetáculo. O risco, a preparação e a execução passam a fazer parte da história contada ao espectador antes mesmo de ele comprar o ingresso. A campanha começa muito antes da estreia e alimenta uma expectativa concreta sobre o que será visto na tela.

Top Gun: Maverick reuniu essas características com outro elemento poderoso: a passagem do tempo. O filme reencontra um personagem e um astro cuja permanência também está em discussão. Maverick precisa provar que ainda tem uma função naquele mundo, e é difícil separar inteiramente essa questão do lugar de Cruise em uma indústria que mudou tanto desde o primeiro Top Gun.

O resultado reforçou sua associação com a defesa das salas. Ao anunciar a homenagem do AFI, Kathleen Kennedy destacou justamente seu compromisso como ator e produtor e sua crença na capacidade dos filmes de reunir as pessoas.

Reconhecimento sem despedida

O AFI Life Achievement Award se soma ao Oscar honorário recebido em 2025. Cruise teve três indicações ao Oscar por atuação — por Nascido em 4 de Julho, Jerry Maguire e Magnólia — e outra como produtor de Top Gun: Maverick, indicado a melhor filme.

Prêmios pelo conjunto da obra costumam trazer um convite à retrospectiva. No caso dele, há uma tensão interessante entre celebrar o que já foi feito e acompanhar a insistência em encontrar o próximo desafio. Sua imagem continua organizada em torno de um futuro: o próximo filme, a próxima missão, a próxima razão para comprar um ingresso.

A homenagem de 2027 será uma oportunidade de rever o caminho inteiro. E de lembrar que, antes de nos convencer a olhar para a altura de seus saltos, Tom Cruise já havia construído personagens que merecem ser vistos mais de perto.


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