Há cerca de 20 anos, Kim Kardashian aparecia ao lado de Paris Hilton, organizava seu closet e era frequentemente apresentada como sua assistente. Paris era a estrela. Kim estava na órbita dela. Hoje, a antiga coadjuvante construiu um império que obriga até quem despreza as Kardashians a reconhecer sua capacidade de entender o mundo em que vivemos.
Seria ela a maior influenciadora da história? Não existe uma régua capaz de resolver essa disputa. Mas, se considerarmos a transformação da própria vida em uma plataforma de entretenimento, consumo e poder, é difícil deixá-la fora da conversa. Kim ajudou a estabelecer uma profissão que milhões de pessoas tentam exercer, inclusive algumas que fazem questão de dizer que não a suportam.
É essa trajetória que Citizen Kim: The Woman Who Created the Future, de Jonathan Van Meter, pretende investigar. Com lançamento americano marcado para 27 de outubro, a biografia autorizada chega com uma ambição explícita no subtítulo: apresentar Kim como “a mulher que criou o futuro”. Ainda não li o livro, mas a entrevista do autor ao The Hollywood Reporter oferece uma discussão que vai muito além das revelações familiares.
Afinal, como alguém tão exposto consegue despertar a sensação de que permanece incompreendido? E como um jornalista experiente, contratado para investigar essa distância, termina admitindo que também se deixou conquistar?
Antes da fama, aprender a olhar
A imagem de Kim ao lado de Paris é importante porque registra uma hierarquia que parecia bastante definida. Hilton personificava uma celebridade que já provocava a pergunta usada depois contra Kardashian: famosa por fazer o quê?
Kim trabalhava com organização de closets e revenda de roupas, inclusive para Paris. A descrição de “assistente”, embora tenha se popularizado, comprime atividades e uma amizade anterior em uma função conveniente para contar a história da ascensão. Ela não saiu de um universo distante para descobrir Hollywood. Já estava próxima de dinheiro, celebridades e dos mecanismos que decidiam quem merecia ser fotografado.
Isso não diminui o que construiu. Ajuda a entender seu ponto de partida sem transformar uma mulher privilegiada em uma personagem que veio do nada.
Na minha leitura, sua grande percepção foi compreender que a curiosidade não precisava terminar na fotografia. Podia continuar no programa de televisão, atravessar o site, chegar ao celular e se converter em uma relação cotidiana com o público. A atenção emprestada por alguém mais famoso poderia se tornar uma audiência própria.

Um escândalo não sustenta duas décadas
A divulgação do vídeo íntimo com Ray J continua sendo usada como explicação suficiente para tudo o que veio depois. É uma maneira de encerrar a conversa antes de ela começar. Também mantém a sexualidade de uma mulher como sentença permanente sobre seu valor.
Há controvérsias sobre as circunstâncias da distribuição, e Van Meter admite na entrevista que não esclareceu como o material chegou à empresa responsável por lançá-lo. Portanto, a biografia não autoriza tratar uma versão disputada como questão resolvida.
Mas existe outra pergunta, independentemente dessa origem: quantas pessoas expostas por escândalos conseguem sustentar quase duas décadas de relevância?
O vídeo ajuda a explicar a atenção de um momento. Para entender a permanência, é preciso olhar para o trabalho posterior. Keeping Up with the Kardashians, lançado em 2007, transformou uma família em narrativa contínua. Casamentos, rivalidades, maternidade, negócios e reconciliações passaram a alimentar um universo no qual cada integrante podia produzir novas histórias.
Kris Jenner teve um papel decisivo nessa construção. Reconhecer a competência de Kim também exige reconhecer a estrutura familiar, empresarial e profissional que tornou sua expansão possível. O império não foi produzido por uma mulher sozinha diante de um telefone.
Quando a intimidade vira uma empresa
Kim entendeu como oferecer familiaridade em escala industrial. O público acompanha sua vida e pode sentir que a conhece, embora veja uma seleção organizada de acontecimentos. Até a exposição de conflitos pode reforçar essa proximidade: a família discute, sofre, faz as pazes e retorna no episódio seguinte.
O interessante é que perceber a existência dessa construção não impede necessariamente o envolvimento. Podemos saber que existe edição e ainda nos emocionar. Podemos identificar uma campanha e desejar o produto.
A passagem para os negócios amplia essa relação. Uma celebridade pode receber para recomendar uma marca. Ser proprietária de uma empresa permite participar de outra maneira do valor gerado por sua influência.
A Skims é a demonstração mais concreta dessa mudança. Em novembro de 2025, uma rodada de investimento de US$ 225 milhões avaliou a companhia em US$ 5 bilhões. Trata-se do valor atribuído à empresa naquela operação, não da fortuna pessoal de Kim. Ainda assim, é uma dimensão empresarial que torna insuficiente descrevê-la apenas como alguém que publica fotografias.
Sua imagem ajuda a atrair o olhar. Transformar esse olhar em uma empresa duradoura exige produtos, distribuição, equipes, investimento e decisões comerciais. O sucesso da influenciadora abriu portas; a continuidade do negócio depende de atravessá-las.
Os defensores que ninguém esperava
Uma das partes mais interessantes da entrevista de Van Meter é a resistência que ele relata ter encontrado quando anunciou que escreveria sobre Kim. Para algumas pessoas, dedicar anos de trabalho a ela já parecia um erro de julgamento.
Entendo a reação, mas há uma confusão aí. Considerar um fenômeno digno de análise não exige aprovar tudo o que ele representa. A influência de Kim sobre beleza, consumo e exposição pessoal merece ser examinada justamente porque seus efeitos ultrapassam a vontade de gostar dela.
No sentido inverso, a proximidade pode produzir uma defesa igualmente automática. Van Meter conta episódios em que a viu trabalhar, administrar situações difíceis e cuidar dos filhos. São experiências que lhe ofereceram acesso a dimensões ausentes da caricatura pública.
O problema começa quando reconhecer humanidade passa a funcionar como resposta suficiente a qualquer crítica. Ser uma mãe carinhosa não resolve as contradições de uma indústria de aparência. Trabalhar muito não elimina o privilégio. Ter sido alvo de misoginia não torna todas as decisões comerciais irrepreensíveis.
É possível sustentar essas ideias ao mesmo tempo. Kim pode ter sido injustamente reduzida a um escândalo e também ter ajudado a tornar mais exaustiva a relação de milhões de mulheres com a própria imagem.
Quando o biógrafo se deixa conquistar
Van Meter admite que desenvolveu uma atitude protetora em relação a Kim e levou essa dificuldade para a terapia. Ele próprio associa o envolvimento à morte da mãe, no início do projeto, e à maneira maternal com que percebeu Kardashian.
É uma revelação relevante porque vem do autor. Não precisamos diagnosticar Kim nem atribuir a ela uma estratégia consciente de sedução para reconhecer o que aconteceu: a relação alterou o olhar de quem escreveria sobre ela.
A franqueza não elimina a questão da distância jornalística. Apenas a torna visível.
Na mesma entrevista, ao defender afirmações sobre procedimentos estéticos, Van Meter apresenta a confiança na palavra de Kim como fundamento. Em outro momento, reconhece que não entrevistou Ray J ou Kanye West, figuras importantes em etapas diferentes de sua trajetória. Paris Hilton, segundo seu relato, cancelou a conversa 17 vezes.
Essas ausências não tornam impossível escrever uma biografia. Mas importam para avaliar qual retrato foi possível construir. Acesso privilegiado e visão completa são coisas diferentes.
Segundo Van Meter, Kim leu o manuscrito para checagem factual, questionou passagens e acabou aceitando material que a incomodava. Isso sugere uma negociação mais complexa do que a ideia de uma encomenda sem atritos. Ainda assim, saber o que ela autorizou não dispensa perguntar o que o autor conseguiu confrontar.

A mulher que criou o futuro?
O subtítulo é provocador porque esse futuro já está ao nosso redor. Pessoas que transformam rotina em conteúdo, intimidade em vínculo comercial e identidade em marca pessoal. Profissionais de áreas muito diferentes que precisam aparecer, alimentar canais e demonstrar relevância continuamente.
Kim não inventou sozinha esse mundo. Paris Hilton já havia explorado a celebridade como negócio, e muitas outras figuras contribuíram para essa transformação. O que Kardashian fez foi ampliar, combinar e sustentar essas possibilidades com uma eficiência extraordinária.
Também há um custo nessa herança. Se tudo pode virar conteúdo, o descanso pode parecer uma oportunidade perdida. Se a imagem é um ativo, envelhecer, engordar ou simplesmente desaparecer por alguns dias pode adquirir o peso de uma falha profissional.
É por isso que me interessa discutir Kim sem reduzir a análise à admiração ou ao desprezo. Seu império revela tanto uma capacidade de compreender desejos quanto uma habilidade de participar de sua fabricação.
Há 20 anos, ela ajudava a organizar o closet de Paris Hilton. Hoje, ajuda a organizar parte do que o mundo deseja vestir, mostrar e ser. E talvez o sinal mais expressivo de sua influência esteja nas pessoas que rejeitam seu nome enquanto tentam, todos os dias, fazer da própria vida uma marca.
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