Novo James Bond: o teste que passa por Moscou contra 007

Josh O’Connor, Callum Turner ou Jack Lowden? A busca pelo próximo James Bond parece ter chegado à etapa decisiva. Segundo a imprensa especializada, os testes finais podem começar nesta sexta-feira, 23 de outubro, e continuarão na próxima semana. Os três estão entre os candidatos mencionados, mas haveria pelo menos um quarto nome ainda não revelado. Por enquanto, nenhum anúncio oficial.

Confesso: ainda não vejo nenhum dos três como James Bond. Admiro os atores, acompanho seus trabalhos e reconheço qualidades que poderiam funcionar no personagem. Mas aquela associação imediata entre o rosto e o número 007 ainda não aconteceu para mim. Posso mudar de ideia, evidentemente. Daniel Craig ensinou a muita gente que convém esperar o ator entrar em cena antes de decretar que ele não serve para o papel.

Enquanto aguardamos, a disputa oferece uma oportunidade irresistível de recuperar um dos meus filmes favoritos da franquia. Eu amo Moscou contra 007. Amo a trama de espionagem, Sean Connery, a ameaça de Robert Shaw, o confronto no trem. E há uma lembrança que vai além da tela: aquelas pastas masculinas chamadas de “007”, com fechadura de combinação, que transformavam até o ato de carregar documentos em uma pequena fantasia de agente secreto.

O filme ajudou a estabelecer um imaginário que perdurou por décadas. E uma de suas cenas se tornou referência para descobrir quem poderia ocupar o lugar de Connery.

O quarto pelo qual passam os candidatos

Durante um evento no British Film Institute, em 2022, Michael G. Wilson revelou que a produção recorria à mesma passagem para testar aspirantes ao papel. É o encontro de Bond com Tatiana Romanova no quarto do hotel, em Moscou contra 007.

Na descrição do produtor, Bond retorna ao quarto, começa a tirar a camisa e se prepara para o banho. Ao ouvir um ruído, pega a arma e vai investigar. Encontra uma mulher esperando por ele na cama. Para Wilson, quem conseguisse fazer aquela cena funcionar teria condições de interpretar Bond. Parece simples, mas ele fez questão de ressaltar a dificuldade.

Em poucos movimentos, o ator precisa transmitir intimidade, vigilância, autoridade e desejo. Ele está relaxando, identifica uma possível ameaça e passa à sedução sem perder completamente a desconfiança. Há humor, presença física e uma conversa que precisa soar espontânea.

Martin Campbell, que dirigiu as estreias de Pierce Brosnan e Daniel Craig no personagem, resumiu a exigência com a ideia de uma atuação “sem esforço”. O trabalho existe, mas o público não deveria perceber o ator se empenhando para parecer James Bond.

Connery tinha essa qualidade. A segurança vinha antes da fala. Ele podia sorrir sem deixar de parecer perigoso, aproximar-se de alguém sem entregar o que estava pensando. Reproduzir seus gestos seria relativamente simples; encontrar uma versão própria dessa mistura é outra história.

Craig também passou pelo teste e contou, em entrevista publicada em 2006, que detestava a gravação. Esperava até que Barbara Broccoli a destruísse. O futuro protagonista de Cassino Royale, portanto, não saiu daquela experiência acreditando ter resolvido o personagem.

Cabe uma distinção: Wilson descrevia a tradição da equipe que comandou a franquia durante décadas. Com a Amazon MGM no controle criativo e Denis Villeneuve na direção do próximo longa, ainda não há confirmação pública de que os candidatos atuais vão interpretar essa mesma passagem. Mas ela continua sendo uma ótima maneira de entender o que se procura em um Bond.

Antes de tudo, Robert Shaw mata James Bond

Uma das coisas que mais adoro em Moscou contra 007 é a maneira como ele começa. Um homem persegue Bond durante a noite e o estrangula com um fio escondido no relógio. O assassino é Red Grant, interpretado por Robert Shaw. Antes mesmo dos créditos, parece que perdemos nosso protagonista.

Então retiram uma máscara do rosto da vítima. Aquele homem não era Bond: tratava-se de um exercício de treinamento da SPECTRE. Grant estava demonstrando sua capacidade de executar o agente.

É uma abertura excelente porque produz o choque de ver Connery aparentemente morrer e estabelece a competência do adversário. Quando Grant voltar a se aproximar do verdadeiro Bond, já sabemos do que ele é capaz.

A máscara também introduz uma ideia que atravessa o filme: as aparências são instrumentos de trabalho. Pessoas assumem identidades, escondem lealdades e oferecem informações cuidadosamente preparadas. O espectador é enganado antes de compreender as regras do jogo. Muito antes das máscaras se tornarem uma assinatura de outras franquias de espionagem, Bond já explorava o prazer de nos fazer acreditar no rosto errado.

Shaw é extraordinário nesse papel. Seu silêncio incomoda, sua atenção ameaça. Grant não precisa dominar cada cena com discursos porque a possibilidade de violência está instalada desde o primeiro encontro com o público.

A continuação de Dr. No está nos detalhes

Lançado em 1963, Moscou contra 007 é o segundo filme da série oficial, depois de 007 contra o Satânico Dr. No, de 1962, e antes de 007 contra Goldfinger, de 1964. Terence Young voltou à direção, dando continuidade à construção cinematográfica de Connery como o agente de Ian Fleming.

Essa continuidade aparece de uma maneira deliciosa quando reencontramos Bond com Sylvia Trench, vivida por Eunice Gayson. É a mulher que ele conhece no cassino no primeiro filme, justamente na sequência de sua apresentação como “Bond, James Bond”.

Em Moscou contra 007, os dois estão em um encontro à beira do rio quando o trabalho volta a interferir. Gosto desse detalhe porque ele dá ao personagem uma vida que parece continuar entre uma missão e outra. Sylvia não desapareceu simplesmente porque os créditos de Dr. No terminaram.

A ligação principal, porém, está na própria trama: a SPECTRE quer se vingar da morte do Dr. No. A missão anterior produziu consequências, e a organização pretende fazer Bond pagar por elas.

Uma armadilha em plena Guerra Fria

O plano envolve uma máquina decodificadora soviética, a Lektor, cobiçada pela inteligência britânica. Tatiana Romanova, funcionária do consulado soviético em Istambul, oferece a possibilidade de obtê-la e afirma ter se apaixonado por Bond ao ver sua fotografia.

É uma história suspeita, e os britânicos sabem disso. O valor da máquina, entretanto, justifica investigar a oferta. Bond parte para a Turquia, onde conta com a ajuda de Kerim Bey, interpretado por Pedro Armendáriz, cuja cumplicidade com o agente dá ao filme parte de seu calor humano.

Tatiana, vivida por Daniela Bianchi, também está sendo manipulada. Ela acredita cumprir uma missão para seu país ao obedecer a Rosa Klebb, sem conhecer toda a operação da SPECTRE. O plano é usar os britânicos para obter a Lektor e destruir Bond em circunstâncias comprometedoras.

É essa circulação desigual de informações que torna o filme tão envolvente. Bond sabe que existe uma armadilha, mas não conhece todos os seus mecanismos. Tatiana conhece sua tarefa, mas ignora quem realmente se beneficia dela. E nós acompanhamos a aproximação de Grant com uma ansiedade que os personagens ainda não podem compartilhar.

Até o encontro no quarto contém essa duplicidade. A sedução está inserida em uma operação: os dois são filmados clandestinamente para que a intimidade possa ser usada contra o agente. A cena que se tornaria um teste para candidatos a Bond também mostra o perigo de ele acreditar demais no próprio poder de atração.

Robert Shaw e a luta no Expresso do Oriente

Lotte Lenya faz de Rosa Klebb uma vilã memorável, com uma autoridade desagradável e aquele sapato de lâmina envenenada que entrou para a história da série. Mas é Shaw quem oferece a Connery um confronto físico à altura.

Grant funciona como uma espécie de duplo sombrio de Bond: treinado, atento, capaz de representar um papel quando necessário. Ao assumir a identidade de um contato britânico, transforma uma suposta proteção em ameaça.

O encontro no Expresso do Oriente é o grande pagamento de tudo o que a abertura prometeu. A luta acontece em um compartimento apertado, onde não há espaço para manter a elegância. Os corpos batem nas paredes, os movimentos ficam limitados e a sobrevivência depende de aproveitar uma oportunidade mínima.

A sequência levou cinco dias para ser filmada, com participação de Connery, Shaw e seus dublês. Continua impressionante pela brutalidade e pela clareza: entendemos o espaço, o risco e o esforço dos dois homens.

É uma das melhores demonstrações de por que Connery funcionava tão bem. A segurança do personagem não o tornava imune. Quando precisava lutar pela própria vida, ele convencia também no desespero.

A pasta 007 e um sucesso que saiu da tela

É nesse confronto que a maleta apresentada pelo setor Q encontra sua função decisiva. O equipamento esconde armas, moedas de ouro e um mecanismo de gás lacrimogêneo, acionado quando a abertura é feita de maneira incorreta. A explicação inicial prepara uma solução que o filme aproveita no momento de maior perigo.

Também é a estreia de Desmond Llewelyn como o homem dos equipamentos, papel que o tornaria uma das presenças mais queridas e duradouras da franquia.

Para mim, a maleta traz ainda a lembrança das pastas “007”, com seus segredos numéricos, que passaram a fazer parte do cotidiano masculino. Havia algo irresistível naquela promessa: por fora, uma pasta de trabalho; na imaginação, um objeto de espionagem.

A associação comercial foi duradoura. A maleta do filme inspirou inclusive um brinquedo lançado em 1965, posteriormente recuperado em edições para colecionadores. Bond já vendia a fantasia de participar de seu mundo por meio de um objeto.

O sucesso nas bilheterias foi igualmente expressivo. Com orçamento na casa de US$ 2 milhões, Moscou contra 007 acumulou cerca de US$ 78,9 milhões mundialmente, em valores nominais e incluindo relançamentos. A aventura consolidou Connery e ampliou o fenômeno que começara com Dr. No.

Goldfinger levaria essa popularidade a outro patamar. Mas o segundo filme já havia demonstrado que o público queria voltar para encontrar aquele homem — e que havia uma identidade cinematográfica capaz de sustentar novas aventuras.

Matt Monro ainda não canta na abertura

Outra curiosidade deliciosa: Moscou contra 007 tem uma canção-tema, mas ainda não abre com Matt Monro cantando. Nos créditos iniciais, ouvimos um arranjo instrumental que incorpora a composição de Lionel Bart e o reconhecível tema de James Bond.

A voz de Monro aparece no rádio, durante o encontro de Bond com Sylvia, e retorna no encerramento. Foi apenas no filme seguinte, com Shirley Bassey e Goldfinger, que se estabeleceu aquele ritual que hoje parece inseparável da franquia: uma grande voz interpretando a canção-tema sobre os créditos de abertura.

Há uma pequena precisão nessa história: Dr. No já incluía canto em sua abertura, com “Kingston Calypso”, uma adaptação de “Three Blind Mice”. O que Bassey ajudou a definir foi o modelo da grande canção original como apresentação musical do filme.

Até essa assinatura precisou de alguns longos para encontrar sua forma. E, quando pensamos em quem poderia cantar o próximo tema, estamos discutindo uma tradição que Moscou contra 007 ajudou a construir, mas ainda não havia se fixado por completo.

Lowden, O’Connor ou Turner?

Voltamos, então, aos candidatos. Se a aposta for preservar uma imagem mais imediatamente associada à elegância e ao charme de Bond, entendo o apelo de Callum Turner. Jack Lowden oferece intensidade, inteligência e uma relação já familiar com o universo da espionagem, embora River Cartwright, de Slow Horses, esteja longe da segurança de 007. Josh O’Connor me parece a possibilidade mais imprevisível: um ator capaz de tornar um personagem sedutor e desconfortável quase ao mesmo tempo.

São caminhos possíveis de interpretação, não informações sobre o que os produtores procuram. Os três nomes divulgados também não equivalem a uma lista oficial e encerrada: ainda existe a possibilidade de outro candidato nessa etapa.

Minha dificuldade talvez esteja justamente em já enxergar personalidades muito específicas nos três. Para vê-los como Bond, preciso assistir à transformação. Descobrir como entram em um ambiente, como falam, como reagem quando o charme deixa de funcionar.

É aí que a velha cena de Moscou contra 007 continua tão interessante. Ela permite observar o que uma fotografia de smoking jamais vai revelar. O candidato precisa sustentar a atenção do público durante uma conversa e fazer a passagem entre perigo, humor e desejo parecer natural.

Ainda não tenho meu favorito. Tenho, isso sim, uma vontade enorme de rever Connery, Shaw, Tatiana e aquela maleta. Enquanto esperamos para descobrir quem será o próximo Bond, Moscou contra 007 continua lembrando o tamanho do desafio. Connery fez tudo parecer fácil demais.


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