Lupin volta ainda mais espetacular, mas continua prisioneiro da própria fórmula

A realidade resolveu prestar uma homenagem involuntária a Lupin quando, em outubro de 2025, ladrões invadiram o Museu do Louvre em plena luz do dia, roubaram joias históricas e escaparam em motocicletas. A operação foi tão ousada que parecia uma sequência escrita para Assane Diop, o irresistível ladrão interpretado por Omar Sy na série francesa da Netflix. Um ano depois, com a estreia da quarta temporada, fica difícil não pensar que, em certos momentos, a realidade consegue ser mais surpreendente do que a ficção. E isso diz bastante sobre o principal problema de Lupin: depois de tantos golpes espetaculares, já sabemos que tudo é possível e, consequentemente, quase nada consegue realmente nos surpreender.

Não é uma questão de qualidade de produção, muito pelo contrário. A série continua belíssima, Paris permanece praticamente como uma personagem e Omar Sy tem um carisma capaz de sustentar situações que dificilmente aceitaríamos em qualquer outra história. O problema é que existe uma fórmula tão estabelecida que, para aproveitar plenamente os oito novos episódios, precisamos aceitar antecipadamente que tudo o que estamos vendo pode ser uma ilusão, uma encenação ou apenas uma parte de um plano muito maior que será explicado retrospectivamente. É divertido, sem dúvida, mas também pode ser cansativo. E não é a primeira vez que sinto isso em relação à série.

A quarta temporada começa quatro anos depois da prisão voluntária de Assane, que havia decidido se entregar para proteger a família. Ele está prestes a recuperar a liberdade e promete ao filho, Raoul, uma viagem ao Senegal, como se finalmente fosse possível abandonar os golpes e recuperar o tempo perdido. Naturalmente, nada acontece conforme o planejado. Alguém começa a anunciar roubos simultâneos a museus franceses utilizando o nome de Lupin, e as imagens de segurança parecem mostrar Assane cometendo crimes enquanto ele permanece atrás das grades. Durante uma das operações, a policial Sofia Belkacem sofre uma queda grave, transformando o suposto impostor em um criminoso ainda mais perigoso.

Assane precisa provar que não é responsável pelos roubos, mas, para fazer isso, escolhe justamente a solução que conhece melhor: fugir da prisão e voltar à vida de disfarces, manipulações e golpes impossíveis. Aqui já temos a primeira ironia de uma temporada que insiste na impossibilidade do protagonista escapar da própria identidade. O homem que prometeu abandonar o crime precisa cometer novos crimes para provar sua inocência, enquanto o filho que aguardou quatro anos pelo reencontro descobre, mais uma vez, que as promessas paternas podem ser adiadas indefinidamente.

A identidade do falso Lupin é revelada relativamente cedo. Adèle Kapoor, interpretada por Laïka Blanc-Francard, é uma hacker habilidosa que utiliza deepfakes, drones, hologramas e outros recursos tecnológicos para reproduzir os truques de Assane. Existe algo interessante nessa atualização do personagem: enquanto o ladrão original depende de sua capacidade de observar comportamentos, construir disfarces e manipular pessoas, sua imitadora utiliza tecnologias capazes de fabricar identidades sem sequer precisar estar presente. É uma espécie de Lupin da era digital, menos interessado na arte de desaparecer do que na possibilidade de fazer qualquer pessoa aparecer onde nunca esteve.

Mas Adèle não é apenas uma admiradora tentando superar o mestre. Ela é filha de Assane com Juliette Pellegrini, resultado de um relacionamento da juventude que foi brutalmente interrompido pela intervenção de Hubert Pellegrini. O milionário afastou a criança dos pais e a enviou para adoção na Inglaterra, mantendo sua existência em segredo. Ao descobrir suas origens, Adèle procura a mãe e cria uma maneira bastante elaborada de atrair a atenção do pai. Em outras palavras, a garota herdou não apenas o talento de Assane para os golpes, mas também sua incapacidade de resolver um problema familiar sem organizar uma operação criminosa de dimensões cinematográficas.

A descoberta aproxima Assane de Juliette e coloca os três em busca de um tesouro ligado às Joias da Coroa Francesa, protegido por famílias ricas e influentes que se consideram guardiãs desse patrimônio. Entre elas está a família Pellegrini, o que permite à série recuperar seu principal antagonista e, ao mesmo tempo, ampliar a escala dos assaltos. O que começou como uma história de vingança pessoal contra uma injustiça cometida ao pai de Assane agora envolve conspirações históricas, objetos preciosos, sociedades privilegiadas e operações cada vez mais improváveis.

Visualmente, tudo funciona. As perseguições, a operação na Torre Eiffel, a busca pelas joias e a elaboração dos planos demonstram uma ambição que transforma a temporada em um espetáculo de ação. Omar Sy, que também assumiu funções de comando criativo nesta nova fase, parece perfeitamente confortável em um universo no qual Assane deixou de ser apenas um ladrão extraordinariamente inteligente para se aproximar de um herói praticamente indestrutível. A questão é que, quanto mais espetaculares ficam os golpes, menos espaço sobra para aquela inteligência aparentemente simples que tornava os primeiros episódios tão interessantes.

O verdadeiro golpe está dentro da família

Curiosamente, as melhores possibilidades dramáticas desta quarta temporada não estão nos roubos, mas nas relações pessoais de Assane. Quando finalmente deixa a prisão, ele descobre que o mundo continuou existindo sem ele e que as pessoas que ama não permaneceram congeladas, aguardando seu retorno. Claire, sua ex-companheira, está apaixonada por Benjamin, justamente o amigo mais próximo e parceiro de tantos crimes. Os dois construíram uma vida durante sua ausência, e Assane precisa aceitar que abrir mão da liberdade também significou abrir mão do controle sobre a própria história.

A revelação funciona porque, pela primeira vez, o mestre das manipulações não tem um plano capaz de resolver o problema. Benjamin confessa que sempre amou Claire, e a reação de Assane revela uma vulnerabilidade que nenhum assalto conseguiria produzir. Ele pode enganar policiais, falsificar aparências e antecipar movimentos de inimigos, mas não pode exigir que as pessoas permaneçam emocionalmente disponíveis enquanto ele decide quando participar da vida delas.

A situação se torna ainda mais complicada com Raoul, agora um jovem adulto que cresceu convivendo com as ausências, os perigos e as promessas não cumpridas do pai. A chegada de Adèle representa uma ameaça emocional que Assane demora a compreender. Encantado com a descoberta de uma filha que compartilha seu talento e sua paixão pelos golpes, ele estabelece com ela uma cumplicidade imediata, justamente aquilo que Raoul sempre desejou e raramente experimentou. A diferença é que Adèle parece compreender e admirar o universo do pai, enquanto Raoul conhece, sobretudo, as consequências de suas escolhas.

A revelação de que foi Raoul quem empurrou Belkacem durante o roubo ao museu acrescenta outra camada a esse conflito. Ele acreditava estar protegendo o pai quando atacou a policial, sem perceber que a pessoa perseguida era uma impostora. O rapaz acaba reproduzindo o comportamento impulsivo de Assane, mas sem possuir sua experiência ou sua capacidade de controlar as consequências. A série encontra aqui um tema interessante, que poderia ter sido explorado com ainda mais profundidade: o que acontece quando o filho de um homem que vive desafiando regras precisa construir sua própria relação com a responsabilidade?

Um final de traições e um pai que finalmente perde o controle

No episódio final, depois de conseguir reunir as joias e avançar na busca pelo tesouro, Assane recebe a notícia de que seus dois filhos foram sequestrados. Os responsáveis exigem a entrega da fortuna, e ele organiza a operação de resgate sem perceber que, desta vez, não está enfrentando apenas mais um adversário interessado em dinheiro. A armadilha foi preparada pelo próprio Raoul, que se aliou a Hubert Pellegrini, o homem responsável por destruir a vida do avô e transformar Assane no ladrão que conhecemos.

A revelação é deliberadamente cruel. Raoul ajudou Pellegrini a escapar da prisão na Malásia e encenou seu sequestro para obrigar o pai a confrontar aquilo que sempre evitou. Sua revolta não nasce simplesmente do ciúme da meia-irmã, mas de anos de abandono emocional, culminando na percepção de que Assane consegue demonstrar a Adèle uma proximidade que nunca soube oferecer ao primeiro filho. Pellegrini explora esse ressentimento e transforma o rapaz em instrumento de vingança contra o próprio pai.

A escolha de Raoul é difícil de aceitar, especialmente considerando tudo o que Pellegrini fez à família Diop, mas sua violência emocional tem uma função evidente no roteiro. Pela primeira vez, Assane enfrenta um adversário que não pode simplesmente enganar, porque o problema não é descobrir onde estão as joias ou como escapar da polícia. O problema é que seu filho não confia mais nele. E nenhuma explicação engenhosa é capaz de recuperar instantaneamente uma relação construída sobre tantas ausências.

O confronto chega ao limite quando Raoul obriga o pai a escolher entre acompanhá-lo ou tentar salvar Adèle, que parece estar ameaçada por uma bomba. Assane corre para proteger a filha, gesto que o rapaz interpreta como mais uma confirmação de que nunca foi sua prioridade. Raoul parte com Pellegrini em um helicóptero, enquanto a polícia se aproxima para impedir a fuga. Quando Belkacem dispara contra o jovem, Assane se coloca na frente do tiro e é atingido. A temporada termina com o protagonista caído, cercado por Claire, Benjamin, Juliette e Adèle, sem revelar se sobreviverá.

É um encerramento dramático, embora não necessariamente surpreendente. Depois de quatro temporadas nas quais Assane escapou de tantas situações impossíveis, fica difícil acreditar que a série realmente esteja disposta a eliminá-lo. O suspense sobre sua sobrevivência funciona mais como promessa de continuidade do que como uma dúvida genuína. O que interessa, na verdade, é a ruptura com Raoul e a possibilidade de que o maior desafio do ladrão seja finalmente aprender a ser pai.

Talvez seja essa a grande ironia da quarta temporada. Lupin continua capaz de organizar golpes brilhantes e enganar praticamente todos os personagens, mas já não consegue enganar o espectador com a mesma facilidade. Sabemos que sempre haverá uma carta escondida, uma identidade falsa, uma aliança inesperada e uma explicação capaz de reorganizar tudo o que vimos. A fórmula permanece eficiente, sobretudo graças ao carisma inesgotável de Omar Sy, mas eficiência não é necessariamente sinônimo de surpresa.

A série tem qualidade, humor, ritmo e beleza suficientes para justificar nossa atenção. Só exige que aceitemos sua lógica particular, na qual qualquer impossibilidade pode ser resolvida por uma revelação posterior. Para quem ainda encontra prazer nesse jogo, a quarta temporada oferece uma maratona generosa. Para quem, como eu, já começou a sentir o peso da repetição, fica a impressão de que Lupin se tornou refém do próprio talento.

E talvez o golpe mais inteligente que Assane poderia realizar agora fosse justamente aquele que nunca conseguiu executar: abandonar o personagem que criou e descobrir quem é quando não precisa enganar ninguém.


Descubra mais sobre

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

Deixe um comentário