Como publicado em CLAUDIA
Em tempos de aspirantes a palestrantes do TED Talks, quando influenciadores parecem competir para descobrir a próxima fórmula do sucesso, a história de Elizabeth Holmes deveria ser obrigatória. Ela tinha todos os ingredientes para se tornar um fenômeno: uma ideia revolucionária, uma juventude aparentemente brilhante, uma história inspiradora e a promessa de mudar o mundo. Só faltava um detalhe: a invenção funcionar. E, por incrível que pareça, isso não impediu que ela convencesse alguns dos homens mais ricos e influentes dos Estados Unidos de que era um gênio.
Quatro anos depois de escrever sobre a minissérie The Dropout aqui em CLAUDIA, volto à trajetória de uma das maiores farsantes do Vale do Silício. Elizabeth Holmes está presa, condenada por fraudar investidores, mas não parece ter perdido sua capacidade de dominar as conversas. O motivo agora é You Can See Everything, documentário dirigido por Nathan Fielder e Lance Oppenheim, que estreou nos cinemas americanos em 16 de outubro e já provoca discussões sobre seus métodos, suas revelações e a própria definição de verdade.

A história merece ser relembrada. Em 2003, aos 19 anos, Holmes abandonou a Universidade Stanford para fundar a Theranos, empresa que prometia revolucionar os exames de sangue. Sua invenção permitiria detectar centenas de doenças usando apenas algumas gotas de sangue, dispensando procedimentos caros e desagradáveis. Era uma proposta quase irresistível, especialmente porque carregava uma promessa humanitária: tornar a medicina mais acessível.
Vestida com suas características blusas pretas de gola alta, inspiradas em Steve Jobs, falando com uma voz grave que se tornaria uma de suas marcas registradas, Holmes construiu cuidadosamente a imagem de uma visionária. Sua empresa chegou a ser avaliada em US$ 9 bilhões. Ela apareceu nas capas de revistas, foi celebrada como símbolo do empreendedorismo feminino e conquistou a confiança de investidores, políticos e empresários experientes. A Theranos chegou a despertar interesse no Brasil, com a possibilidade de levar sua tecnologia ao sistema público de saúde. O problema? A tecnologia não entregava o que Elizabeth prometia.
Uma investigação do jornalista John Carreyrou, publicada pelo The Wall Street Journal em 2015, começou a desmontar a farsa. Funcionários denunciaram irregularidades, os resultados dos exames foram colocados em dúvida e a empresa acabou fechando as portas em 2018. Holmes foi condenada em 2022 por quatro acusações de fraude contra investidores e recebeu uma sentença de 11 anos e três meses de prisão.
O que sempre me impressionou no caso não foi apenas sua ousadia, mas a facilidade com que tantas pessoas aceitaram sua narrativa sem exigir comprovações científicas suficientes. Não estamos falando de investidores ingênuos. Estamos falando de gente acostumada a negociar milhões, de conselheiros influentes, de profissionais que deveriam reconhecer a diferença entre uma promessa e um resultado. Holmes soube vender uma história antes de conseguir entregar um produto. E foi essa história que o mundo comprou.
Em 2019, o documentarista Alex Gibney já havia mostrado os bastidores dessa construção em A Inventora: À Procura de Sangue no Vale do Silício (The Inventor: Out for Blood in Silicon Valley), da HBO. Visto hoje, o filme é ainda mais assustador. Não apenas porque sabemos como tudo terminou, mas porque é possível acompanhar a dimensão do espetáculo criado em torno de uma mulher que parecia ter respostas para tudo, menos para as perguntas realmente importantes.
Em 2022, Amanda Seyfried interpretou Holmes na excelente minissérie The Dropout, disponível no catálogo do Disney+. A atriz reproduziu a voz artificialmente grave, os gestos calculados e a postura rígida da empresária, em uma atuação que lhe rendeu o Emmy. A série também mostrou sua relação com Sunny Balwani, executivo e companheiro de Holmes durante parte da existência da Theranos, igualmente condenado por fraude.
Na época, escrevi aqui sobre a dificuldade de lembrar, durante alguns momentos da série, que não estávamos assistindo a um documentário. A interpretação de Seyfried era tão convincente que parecia substituir a própria Elizabeth Holmes em nossa memória. Pois agora a história ficou ainda mais estranha. Amanda Seyfried voltou a interpretar Holmes, desta vez dentro de um documentário sobre a verdadeira Elizabeth Holmes. Isso mesmo.

You Can See Everything começa 34 dias antes da empresária iniciar o cumprimento de sua pena, em maio de 2023. Holmes e seu companheiro, Billy Evans, permitem que os cineastas acompanhem sua rotina familiar, com os dois filhos pequenos. A proposta, segundo Evans, seria oferecer ao público uma oportunidade de conhecer a mulher por trás das manchetes, em vez de apenas a criminosa retratada pela imprensa.
É interessante notar que, mesmo depois da condenação, Holmes continua procurando maneiras de recuperar o controle sobre sua imagem. A empresária que havia vendido ao mundo a narrativa de uma revolucionária da medicina agora deseja apresentar outra história: a de uma mulher incompreendida, mãe de família, que insiste em sua inocência. E encontra novamente uma plateia.
Mas os diretores não seguem o caminho convencional. Nathan Fielder, conhecido por The Rehearsal, trabalha justamente com a manipulação de situações reais, encenações e experiências que desafiam a percepção do espectador. Quando Holmes vai para a prisão e deixa de estar disponível para as filmagens, o documentário assume uma estrutura ainda mais ousada. Amanda Seyfried é convidada a recriar acontecimentos que as câmeras não registraram, repetindo cenas e conversas da vida real. É uma proposta cinematográfica original, sem dúvida. Mas, sendo generosos, podemos chamá-la de ousada. Sendo mais críticos, é questionável.
Porque estamos vivendo um momento em que distinguir fatos de factoides se tornou uma tarefa cada vez mais difícil. Imagens fabricadas por inteligência artificial, vídeos fora de contexto, histórias cuidadosamente editadas e versões conflitantes da realidade já fazem parte do nosso cotidiano. Quando um documentário deliberadamente mistura registros autênticos e encenações, até que ponto está investigando a verdade e até que ponto está participando da mesma confusão que pretende denunciar?
A crítica internacional tem recebido o filme com entusiasmo. Há quem considere sua estrutura revolucionária e quem veja na experiência uma investigação brilhante sobre os limites da confiança. Mas também há questionamentos sobre as escolhas dos diretores e aquilo que deixam de mostrar. O ex-funcionário da Theranos, Tyler Shultz, um dos denunciantes das práticas da empresa, criticou o filme por considerar que ele não apresenta informações fundamentais para compreender a fraude.
Amanda Seyfried também acaba envolvida em um confronto com Billy Evans, que questiona sua representação de Holmes em The Dropout. A atriz, por sua vez, precisa lidar com uma situação quase surreal: voltar a interpretar uma mulher real enquanto essa mesma mulher tenta recuperar o controle sobre a maneira como é representada.
O mais irônico é que o documentário parece confirmar aquilo que tornou Elizabeth Holmes tão fascinante desde o início. Mesmo derrotada judicialmente, ela continua capaz de colocar pessoas inteligentes, artistas, cineastas e jornalistas em torno de sua história. Já não vende uma máquina revolucionária. Agora, o produto é ela mesma. Não deixa de ser uma forma de reinvenção.

A discussão ultrapassa o caso Theranos. Vivemos cercados por discursos inspiradores sobre empreendedorismo, superação, liderança e transformação pessoal. Palestras motivacionais são compartilhadas como se fossem aulas de sabedoria, frases de efeito substituem argumentos e milhões de seguidores frequentemente parecem conferir autoridade a alguém. A capacidade de contar uma boa história tornou-se, por vezes, mais valorizada do que a capacidade de demonstrar que ela é verdadeira.
Não há nada de errado com histórias inspiradoras. O problema começa quando confundimos carisma com competência, confiança com conhecimento e convicção com evidência. Elizabeth Holmes soube explorar justamente essa disposição coletiva. Ela não inventou a nossa vontade de acreditar em gênios e milagres. Apenas percebeu como utilizá-la a seu favor.
You Can See Everything ainda não tem previsão de lançamento no Brasil, mas já merece atenção pelo debate que provoca. Para quem não conhece a história, The Dropout e o documentário de Alex Gibney são excelentes pontos de partida. E, para quem já conhece, talvez seja hora de rever tudo sob outra perspectiva.
Afinal, o aspecto mais assustador dessa história não é que Elizabeth Holmes tenha conseguido enganar tanta gente. É perceber que, mesmo conhecendo sua trajetória, continuamos interessados na próxima versão que ela tem a oferecer.
E talvez seja justamente essa a pergunta que deveríamos fazer antes de acreditar em mais uma narrativa irresistível: estamos procurando a verdade ou apenas uma história que gostaríamos que fosse verdadeira?
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