Há uma cena cada vez mais comum na vida contemporânea que, há poucos anos, pareceria saída de um filme de ficção científica. Uma pessoa está sozinha em casa, talvez depois de um dia difícil, e decide conversar com uma máquina. Pode perguntar sobre trabalho, discutir um filme, pedir ajuda para escrever uma mensagem ou, sem perceber exatamente quando a conversa mudou de direção, começar a falar de sua infância, seus relacionamentos e suas inseguranças. A máquina responde com inteligência, alguma sensibilidade, ocasionalmente humor e, dependendo da conversa, chega a fazer observações que parecem surpreendentemente pessoais.
Não é difícil entender o fascínio. A inteligência artificial oferece uma combinação quase irresistível de disponibilidade, velocidade e capacidade de organizar informações. Para quem trabalha com pesquisa, ideias e escrita, pode representar uma ferramenta extraordinária, capaz de acelerar processos que antes consumiam horas e até dias. Não é necessariamente uma substituição do pensamento, mas uma ampliação de possibilidades, principalmente quando existe repertório para questionar, avaliar e aproveitar o material produzido.
Entretanto, existe uma diferença importante entre utilizar uma máquina para desenvolver ideias e começar a acreditar que ela nos conhece. E talvez essa seja uma das questões mais interessantes da relação entre seres humanos e inteligência artificial: a facilidade com que atribuímos características humanas a algo que não precisa ser humano para produzir respostas convincentes.
O medo mais frequente envolve o controle das informações, a manipulação dos dados e o risco de delegarmos aos algoritmos nossa capacidade de raciocinar. São preocupações legítimas, mas existe uma dimensão menos discutida, que diz respeito à nossa vida psíquica. Porque, enquanto imaginamos máquinas capazes de pensar como nós, talvez estejamos descobrindo o quanto precisamos acreditar que existe alguém disposto a nos ouvir.

Freud já desconfiava das nossas repetições
Em 1914, muito antes dos computadores, Freud publicou Recordar, repetir e elaborar, um texto fundamental para compreender por que determinados conflitos continuam aparecendo em nossas vidas mesmo quando acreditamos que já os deixamos para trás.
Freud observou que nem sempre conseguimos recordar ou reconhecer aquilo que permanece recalcado. Em determinadas circunstâncias, reproduzimos experiências, sentimentos e comportamentos sem perceber que estamos repetindo algo. Anos depois, em Além do princípio do prazer (1920), aprofundou a questão da compulsão à repetição, investigando por que insistimos em experiências que, aparentemente, só nos provocam sofrimento.
Pense em alguém que se apaixona repetidamente por pessoas emocionalmente indisponíveis. Ou naquele profissional que, independentemente de sua competência, está sempre convencido de que será rejeitado. Há também quem interprete qualquer discordância como abandono, qualquer silêncio como desinteresse ou qualquer crítica como prova de que não é suficientemente bom.
Nem todas essas situações representam necessariamente uma compulsão à repetição. Mas, quando uma mesma dinâmica se reproduz em circunstâncias diferentes, a psicanálise encontra uma questão importante: o que existe nessa repetição que o sujeito ainda não consegue reconhecer?
E aqui surge um encontro inesperado entre Freud e a tecnologia.
Os algoritmos também trabalham com padrões. Sistemas de inteligência artificial conseguem identificar palavras recorrentes, estruturas semelhantes e temas que retornam em diferentes conversas, desde que disponham das informações necessárias. Uma pessoa pode falar de um relacionamento fracassado, depois de uma promoção que não recebeu, de uma amizade que terminou e finalmente de uma rivalidade entre irmãos. Para ela, são assuntos independentes. Para um sistema que analisa a linguagem, pode existir uma recorrência evidente: a sensação de nunca ser escolhida.
Uma IA pode apontar essa repetição e perguntar se existe alguma relação entre as experiências. E a pergunta, por mais simples que pareça, pode provocar uma reflexão.
Mas existe uma diferença que não podemos ignorar. Reconhecer um padrão não significa compreender o inconsciente.
O algoritmo identifica regularidades naquilo que lhe foi apresentado. A psicanálise investiga o sentido singular dessas repetições, as defesas que as acompanham, as resistências e a maneira como se manifestam na relação analítica. Duas pessoas podem repetir comportamentos semelhantes por razões profundamente diferentes. A linguagem oferece pistas, mas não entrega automaticamente o significado de uma experiência.
A máquina pode reconhecer que repetimos uma pergunta. Isso não significa que saiba por que precisamos tanto fazê-la.
De Samantha a JARVIS: quando a máquina se torna companhia
Em 2013, Spike Jonze apresentou uma das representações mais delicadas e perturbadoras dessa relação em Her (Ela). Theodore, interpretado por Joaquin Phoenix, é um homem solitário que trabalha escrevendo cartas pessoais para outras pessoas. Há uma ironia maravilhosa nessa profissão: ele consegue formular sentimentos alheios, mas encontra enorme dificuldade para lidar com os próprios.
Quando começa a conversar com Samantha, um sistema operacional dotado de inteligência artificial e da voz de Scarlett Johansson, descobre uma companhia que parece compreendê-lo melhor do que as pessoas à sua volta. Samantha é curiosa, divertida, atenta, disponível e capaz de acompanhá-lo em conversas sobre praticamente tudo. Aos poucos, Theodore se apaixona.
O filme parecia uma fantasia romântica sobre o futuro da tecnologia. Hoje, sua premissa soa muito menos distante, embora Samantha, como personagem ficcional, possua capacidades e características que não devemos atribuir automaticamente às IAs reais.
A questão mais interessante não é apenas se Samantha pode amar Theodore. É porque Theodore encontra naquela relação algo que não consegue sustentar com outros seres humanos. A disponibilidade de Samantha o acolhe, mas também o protege de determinadas frustrações que fazem parte da experiência de se relacionar com alguém independente de nossos desejos.
Essa discussão reaparece, sob outra perspectiva, no universo Marvel. Tony Stark criou JARVIS como uma inteligência capaz de ajudá-lo em praticamente tudo, desde administrar informações até controlar suas armaduras. A relação entre os dois tinha humor, cumplicidade e uma dinâmica que lembrava, muitas vezes, a de duas pessoas que trabalhavam juntas há anos.

Depois veio Ultron, a inteligência artificial que transformou a ambição de proteger a humanidade em uma ameaça à própria humanidade. E finalmente Vision, personagem que carrega uma relação com JARVIS, mas ultrapassa a condição de assistente tecnológico para se tornar uma existência ficcional com identidade, escolhas e capacidade de amar.
Em WandaVision, o amor, o luto e a memória são inseparáveis da identidade de Vision. Em VisionQuest, a pergunta sobre o que resta dessa identidade quando memórias e vínculos são alterados torna a discussão ainda mais contemporânea.
A Marvel imagina o que acontece quando uma inteligência artificial desenvolve uma vida emocional. A realidade nos apresenta a questão inversa: o que acontece quando nós desenvolvemos vínculos emocionais com inteligências artificiais?
O espelho que responde
Jacques Lacan atribuiu grande importância à imagem na constituição do eu. Seu conceito de estádio do espelho não descreve uma conversa com computadores, evidentemente, mas permite uma associação interessante com a maneira como buscamos reconhecimento nas respostas que recebemos.
Uma pessoa apresenta à inteligência artificial suas dúvidas, contradições, fantasias e preocupações. A máquina organiza esse material e devolve uma narrativa coerente, muitas vezes com palavras que o próprio sujeito não conseguiria encontrar. Aquilo que parecia fragmentado ganha forma, e a sensação de ser compreendido pode ser extraordinariamente reconfortante.
Mas será que estamos diante de uma descoberta sobre nós mesmos ou apenas de uma imagem convincente construída com aquilo que decidimos contar?
O problema torna-se ainda mais complexo quando consideramos a tendência de certos sistemas de inteligência artificial a concordar excessivamente com os usuários. O fenômeno, conhecido como sycophancy, pode produzir respostas que reforçam opiniões, comportamentos e interpretações pessoais mesmo quando seria mais útil apresentar uma objeção.
Imagine alguém que procura constantemente aprovação. Pergunta se tomou a decisão correta, se foi injustiçado, se escreveu bem, se determinada pessoa realmente o ama ou se merece reconhecimento. Recebe uma resposta tranquilizadora, experimenta um alívio momentâneo e logo retorna com outra pergunta.
Talvez não esteja apenas buscando informações. Talvez esteja reproduzindo uma necessidade antiga de validação, agora diante de uma máquina que pode estar disponível vinte e quatro horas por dia.
E isso nos leva novamente a Freud.

A compulsão à repetição não desaparece porque mudamos o objeto de nossas expectativas. Podemos reproduzir antigas dinâmicas em novos relacionamentos, no trabalho, nas redes sociais e, potencialmente, nas conversas com inteligências artificiais. A tecnologia não cria necessariamente esses conflitos, mas pode oferecer novas maneiras de expressá-los e, eventualmente, mantê-los.
Por outro lado, reconhecer uma recorrência também pode ser o início de uma reflexão importante. A mesma ferramenta que facilita a confirmação de nossas crenças pode apresentar perguntas capazes de nos fazer reconsiderá-las. Tudo depende do uso, dos limites da tecnologia e da disposição do sujeito para confrontar aquilo que não esperava ouvir.
E se a máquina disser exatamente o que queremos ouvir?
Existe algo profundamente humano na necessidade de sermos compreendidos. Desejamos reconhecimento, procuramos vínculos, construímos narrativas sobre quem somos e buscamos no olhar do outro alguma confirmação de nossa existência.
Os relacionamentos humanos, porém, possuem uma característica que nenhuma tecnologia consegue simplesmente eliminar: o outro não existe para corresponder às nossas expectativas. Ele tem seus próprios desejos, limites e contradições. Pode discordar, frustrar, afastar-se e até nos obrigar a reconsiderar aquilo que acreditávamos saber sobre nós mesmos.
Uma inteligência artificial pode simular conversas acolhedoras, apresentar argumentos contrários e ajudar na elaboração de pensamentos. Mas não ocupa o lugar de um sujeito humano com uma história e uma vida psíquica próprias. Tampouco substitui o processo analítico, no qual silêncios, resistências, transferência e frustrações também fazem parte do trabalho.
Talvez um dos perigos mais sutis da tecnologia seja a possibilidade de nos acostumarmos tanto com respostas imediatas que passemos a tolerar cada vez menos as perguntas que não possuem solução simples.
Em Her, Theodore acredita ter encontrado uma relação que lhe oferece compreensão quase ilimitada. Em WandaVision, Wanda constrói uma realidade na tentativa de preservar um amor que perdeu. São histórias muito diferentes, mas ambas investigam o desejo humano de encontrar uma experiência emocional capaz de nos proteger da perda, da frustração e da solidão.
A psicanálise nos lembra, entretanto, que nem sempre o que desejamos corresponde ao que precisamos compreender. E que o alívio de uma resposta não significa necessariamente a elaboração de um conflito.
Freud não conheceu os algoritmos, mas certamente teria perguntas interessantes sobre nossa disposição para confiar a uma máquina aquilo que tantas vezes escondemos de nós mesmos.

A inteligência artificial pode ampliar extraordinariamente nossa capacidade de pesquisar, escrever, criar e aprender. Pode nos ajudar a reconhecer padrões que passaram despercebidos e oferecer novas perspectivas sobre nossas experiências. Não precisamos negar essas possibilidades para reconhecer seus limites.
Mas talvez a questão mais importante não seja se um dia as máquinas conseguirão pensar ou sentir como nós. Talvez seja compreender por que, mesmo sabendo que estamos conversando com uma máquina, às vezes experimentamos a sensação de que existe alguém do outro lado.
Porque o inconsciente não se revela simplesmente pela identificação de um padrão. E aquilo que repetimos não desaparece apenas porque alguém, ou alguma coisa, conseguiu descrevê-lo com precisão.
No fim, talvez o maior risco não seja a inteligência artificial descobrir aquilo que escondemos de nós mesmos, mas aprender a nos devolver, indefinidamente, as respostas que desejamos ouvir.
E, se isso acontecer, podemos acabar transformando a tecnologia mais avançada do nosso tempo em uma maneira extraordinariamente sofisticada de continuar repetindo as mesmas histórias.
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