Como publicado em CLAUDIA
Existe uma ironia irresistível em convidar Isabelle Huppert, possivelmente a atriz francesa mais conhecida e respeitada de sua geração, para interpretar uma mulher que nunca conseguiu ser reconhecida como atriz. É justamente dessa contradição que parte A Ilustre Desconhecida, deliciosa comédia de Marc Fitoussi que integra a programação do 17º Festival de Cinema Francês do Brasil, que acontece até 11 de novembro, em mais de 50 cidades brasileiras.
Recém-lançado na França e chegando agora aos cinemas brasileiros, A Ilustre Desconhecida traz uma das ironias mais deliciosas do cinema deste ano: Isabelle Huppert, uma das atrizes mais admiradas do mundo, interpretando uma mulher que passou a vida tentando ser reconhecida como atriz. O diretor, que esteve no Rio de Janeiro para apresentar o filme, conhece muito bem sua estrela. Esta é a terceira parceria dos dois no cinema, depois de Copacabana (2010) e A Ritornela (2014), sem contar um episódio de Dez por Cento. Ainda assim, conseguiu encontrar um papel que ela jamais havia experimentado: o de uma artista que ninguém conhece.
A ideia, porém, não nasceu apenas dessa brincadeira com a imagem de Huppert. Fitoussi já havia se interessado pelo universo dos figurantes quando realizou o documentário Des figurants, no fim dos anos 2000. Ao acompanhar pessoas que passavam seus dias nos sets de filmagem, descobriu histórias de profissionais que sonhavam com uma carreira artística, mas nunca conseguiam ultrapassar a condição de figuras anônimas ao fundo das cenas. Uma dessas mulheres, em particular, ajudou a inspirar a personagem que anos depois seria interpretada por Huppert. O diretor guardou a ideia até encontrar a oportunidade de transformá-la em ficção, usando justamente uma das atrizes mais reconhecidas do mundo para representar alguém que permanece invisível.
Huppert interpreta Corinne Maclou, uma figurante profissional que atravessa décadas participando de filmagens, distribuindo currículos e tentando convencer diretores e produtores de que merece uma oportunidade. Ela conhece o cinema, entende de interpretação, tem experiência no teatro e acredita sinceramente no próprio talento. Mas nunca conseguiu passar da condição de figurante. E, para tornar tudo ainda mais cruel, não parece disposta a reconhecer que talvez o sucesso que tanto espera jamais aconteça.

A proposta é simples, seguindo uma tradição de filmes que usam os bastidores do cinema para falar do próprio cinema, de suas ilusões e contradições. Há algo da metalinguagem de A Noite Americana, de François Truffaut, e do prazer de observar artistas interpretando versões de si mesmos, recurso que ganhou uma nova dimensão com a série Dez por Cento. Aqui, atrizes famosas e respeitadas circulam pelos cenários interpretando suas próprias personas, enquanto a única personagem inteiramente fictícia é justamente aquela que gostaria desesperadamente de fazer parte desse universo.
O resultado é uma comédia inteligente sobre os paradoxos da fama, da arte, das mulheres e da identidade. Mas seria apenas um filme divertido, com boas piadas internas e participações especiais, se não fosse o talento extraordinário de Isabelle Huppert.
Corinne não é uma personagem particularmente simpática. Pode ser inconveniente, invasiva, insistente e incapaz de perceber os limites impostos pelos outros. Em determinados momentos, é difícil não sentir constrangimento por suas atitudes. Em outros, parece uma mulher que passou a vida inteira perseguindo um sonho sem admitir a possibilidade de fracasso. Huppert, no entanto, não tenta torná-la adorável nem pede nossa compaixão. Sua interpretação permite que a personagem seja simultaneamente ridícula, irritante, vulnerável e admirável, sem que uma característica anule a outra.
Há uma brincadeira especialmente deliciosa para os fãs da atriz quando Corinne aparece como figurante em uma filmagem de Madame Bovary. É impossível não lembrar que Huppert interpretou a protagonista da adaptação dirigida por Claude Chabrol, em 1991. A mulher que já foi Emma Bovary agora aparece ao fundo de uma cena que pertence a outra pessoa. A piada funciona porque conhecemos sua história, mas também porque representa perfeitamente aquilo que o filme pretende discutir: o quanto a posição que ocupamos modifica a maneira como os outros nos enxergam.
A verdadeira força da narrativa, porém, surge quando Corinne se aproxima de Sandrine Kiberlain, que interpreta uma versão de si mesma. A atriz famosa, admirada e bem-sucedida estabelece uma relação improvável com aquela mulher que parece representar tudo aquilo que ela nunca foi. Ou, talvez, tudo aquilo que poderia ter sido se sua trajetória tivesse seguido outro caminho.
É nessa parceria que o filme encontra suas melhores camadas, principalmente porque evita a condescendência. Não estamos diante de uma celebridade generosa que decide realizar o sonho de uma desconhecida, nem de uma história convencional sobre duas mulheres que descobrem o poder da amizade. A relação é mais complexa, construída sobre admiração, interesses, oportunidades, frustrações e expectativas que nem sempre correspondem à realidade.
E é também aqui que o filme ultrapassa os bastidores do cinema.

Quantas vezes somos incentivadas a nunca desistir de nossos sonhos? A acreditar que a persistência será recompensada, que o talento encontrará seu espaço e que basta continuar tentando para que finalmente alguém reconheça nosso valor? São mensagens positivas, especialmente para mulheres que cresceram aprendendo a diminuir suas ambições, mas que também podem se transformar numa armadilha.
Afinal, qual é o limite entre a perseverança e a incapacidade de aceitar a realidade? Quando a determinação deixa de ser uma qualidade e começa a produzir situações insustentáveis? E até que ponto podemos responsabilizar os outros por não nos oferecerem o reconhecimento que acreditamos merecer?
Corinne carrega essas contradições. Existe algo admirável em sua recusa de abandonar o sonho, especialmente numa indústria que costuma ser ainda mais cruel com mulheres que envelhecem. Ao mesmo tempo, sua necessidade de ser reconhecida acaba interferindo na maneira como se relaciona com as pessoas e interpreta as oportunidades. Ela não consegue simplesmente estar presente: precisa que sua presença signifique alguma coisa.
Sandrine, por sua vez, aparentemente já conquistou tudo aquilo que Corinne deseja. Mas reconhecimento não significa liberdade absoluta, assim como fama não garante segurança ou satisfação. Mesmo depois de chegar ao centro da cena, uma atriz continua submetida às expectativas do público, às decisões de quem a contrata e à pressão de corresponder à imagem que construíram dela. Uma tenta desesperadamente entrar nesse mundo; a outra precisa continuar justificando o lugar que conquistou.
Talvez a grande questão de A Ilustre Desconhecida esteja justamente nessa diferença entre aquilo que somos, aquilo que desejamos ser e aquilo que os outros reconhecem em nós. Nossa identidade não é construída apenas internamente. Também depende dos papéis que desempenhamos, das expectativas que encontramos e da maneira como somos percebidas. Mas existe um risco quando entregamos inteiramente aos outros a responsabilidade de confirmar nosso valor.
E há ainda uma dificuldade particular para as mulheres: somos frequentemente estimuladas a ser resilientes, discretas, generosas e compreensivas, mesmo quando estamos lutando por nossos próprios interesses. Uma mulher ambiciosa pode ser admirada enquanto permanece agradável. Quando insiste demais, exige demais ou deixa de respeitar determinadas convenções, passa a ser vista como inconveniente. Corinne incomoda justamente porque não sabe — ou não aceita — desempenhar o papel social que esperam dela.
Isso não significa que esteja sempre certa. E talvez seja essa a maior qualidade do roteiro de Fitoussi e da interpretação de Huppert: não tentar convencer o público de que ela merece necessariamente aquilo que deseja. Podemos compreender sua frustração sem justificar suas atitudes, reconhecer sua coragem sem ignorar seus excessos e admirar sua persistência sem transformar a desistência numa derrota moral.

No fundo, há uma diferença enorme entre não abandonar um sonho e permitir que ele determine toda a nossa existência. Nem sempre conseguimos aquilo que desejamos, nem todo talento encontra o reconhecimento esperado e nem toda oportunidade perdida representa uma injustiça. Aceitar essas possibilidades pode ser tão difícil quanto continuar lutando.
Com seu humor e sua crueldade delicada, A Ilustre Desconhecida nos convida a pensar sobre essas contradições sem oferecer respostas fáceis. E conta com uma das maiores atrizes do mundo para sustentar uma personagem que poderia ser reduzida a uma caricatura, mas que ganha uma dimensão profundamente humana.
Isabelle Huppert, que passou a carreira inteira ocupando o primeiro plano, consegue fazer da mulher que ninguém enxerga a presença mais impossível de ignorar. E talvez essa seja a ironia mais bonita do filme: mostrar que o reconhecimento pode depender de muitas circunstâncias, mas que a complexidade de uma existência jamais deveria ser medida pelo tamanho do papel que lhe deram.
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