Conheço as florestas das montanhas Allegheny, no oeste da Pensilvânia. São lindas, especialmente no outono, quando as árvores mudam de cor e as estradas parecem desaparecer entre as montanhas. Morei naquela região durante a adolescência e sempre achei que havia algo inquietante na paisagem. A beleza, o silêncio e a sensação de isolamento frequentemente me lembravam Twin Peaks, de David Lynch. É o tipo de lugar onde tudo parece tranquilo, mas onde não é difícil imaginar que alguma coisa assustadora possa estar escondida entre as árvores.
Não por acaso, essa mesma paisagem tem um papel importante na construção da atmosfera de Noturno (Nocturne), nova série de suspense da Apple TV, que estreou em 30 de outubro com dois episódios. Filmada nos arredores de Pittsburgh, a produção utiliza as pequenas cidades, as florestas densas e o passado industrial da região para criar um universo sombrio, no qual a ameaça parece estar em toda parte.
Há uma familiaridade imediata com outras produções. A Pensilvânia já havia servido de cenário para Mare of Easttown e Task, ambas interessadas nas feridas de pequenas comunidades americanas, embora ambientadas na região próxima à Filadélfia. Noturno se desloca para o oeste do estado, onde o isolamento das montanhas e das florestas oferece outra dimensão ao suspense. Ao mesmo tempo, sua história remete a O Silêncio dos Inocentes, Mindhunter, True Detective e a tantas narrativas sobre assassinos em série, investigadores traumatizados e crimes que parecem desafiar qualquer explicação racional.
Poderia ser apenas mais do mesmo. E talvez parte seja. Mas os dois primeiros episódios, dirigidos por Tim Van Patten, apresentam motivos suficientes para acompanhar a temporada.

O menino que voltou dos mortos
A história começa quando um menino desaparecido há três anos reaparece vivo, em condições que reacendem uma investigação aparentemente encerrada. Sua irmã, sequestrada com ele, continua desaparecida. A possibilidade de encontrá-la depende de um homem que já está preso: Jurek Walter (Stephen Graham), um assassino em série internado numa instituição psiquiátrica de segurança máxima.
O caso traz de volta Jonah Lynn (Liev Schreiber), um ex-militar que se tornou detetive de homicídios e deixou a violência da Filadélfia em busca de uma existência mais tranquila no interior da Pensilvânia. O problema é que Jonah conhece Jurek e sabe que o fato de ele estar encarcerado não significa que tenha perdido sua capacidade de provocar sofrimento.
A investigação sugere que Walter pode ter contado com a ajuda de um cúmplice e que sua influência continua alcançando pessoas fora da instituição. É uma perspectiva especialmente perturbadora: a prisão não necessariamente interrompeu a atuação do criminoso.
Para tentar descobrir onde a menina está escondida, Saga Bauer (Zazie Beetz), agente do FBI e protegida de Jonah, aceita uma missão arriscada. Ela se infiltra no hospital psiquiátrico, fingindo ser paciente, para se aproximar de Jurek e obter informações.
É impossível não lembrar de Clarice Starling diante de Hannibal Lecter. A diferença é que Saga não se limita a entrevistar o assassino através de uma barreira de segurança. Ela precisa entrar no ambiente que ele conhece e enfrentar uma forma de manipulação cuja extensão ainda não compreende.
Stephen Graham e a sombra de Hannibal Lecter
A presença de Stephen Graham é, sem dúvida, um dos principais atrativos da série. Depois de Adolescência, o ator volta a explorar um personagem ligado à violência, mas agora numa posição completamente diferente. Jurek Walter não é um homem tentando compreender uma tragédia familiar. É alguém que parece conhecer perfeitamente o efeito que provoca nas outras pessoas.
A comparação com Hannibal Lecter é inevitável, mas também revela diferenças interessantes. Anthony Hopkins transformou Lecter numa figura quase aristocrática, de inteligência excepcional, cultura refinada e humor perverso. Graham segue outro caminho. Seu Jurek é menos ostensivo, quase banal em alguns momentos, e justamente por isso inquietante.
Sua força não está na aparência física ou em demonstrações de violência, mas na possibilidade de identificar as fragilidades emocionais daqueles que se aproximam dele. É uma ameaça que depende da palavra, da observação e da manipulação.
A relação com Karl Anders, funcionário da instituição interpretado por Rory Culkin, aponta para uma das dimensões mais promissoras da narrativa: como um homem aparentemente privado de liberdade consegue exercer tamanho domínio sobre outras pessoas?
Liev Schreiber, por sua vez, dá a Jonah o peso de alguém que já atravessou situações demais e sabe que uma investigação pode destruir tanto quem procura respostas quanto quem tenta escondê-las. Zazie Beetz completa o trio central com uma personagem que precisa equilibrar coragem, inteligência e vulnerabilidade num ambiente em que qualquer demonstração de fraqueza pode se tornar perigosa.
O elenco ainda reúne Bill Camp, Chrissy Metz, Poorna Jagannathan e Gary Carr. É um grupo de atores que ajuda a sustentar a sensação de que há muito mais em jogo do que simplesmente descobrir o paradeiro de uma criança.

Os livros de Lars Kepler
Noturno é baseada em dois romances policiais, O Homem de Areia (The Sandman) e Lázaro (Lazarus), publicados sob o pseudônimo Lars Kepler, utilizado pelo casal de escritores suecos Alexandra Coelho Ahndoril e Alexander Ahndoril.
Os livros pertencem à série protagonizada pelo detetive Joona Linna e fazem parte de uma tradição escandinava de thrillers sombrios, violentos e construídos em torno de investigações complexas.
Em O Homem de Areia, a descoberta de um jovem que reaparece depois de muitos anos desaparecido leva os investigadores a suspeitarem que uma menina ainda esteja viva, mantida em cativeiro. O responsável pode ser Jurek Walter, criminoso internado numa instituição de segurança máxima, cuja influência parece continuar operando fora dos muros.
Lázaro retoma o universo desse assassino e aprofunda as consequências de sua relação com os investigadores, explorando a perseguição psicológica e o medo de que ameaças consideradas encerradas possam retornar.
A adaptação americana transfere a história da Suécia para a Pensilvânia, substitui Joona Linna por Jonah Lynn e reorganiza as relações entre os personagens. Saga Bauer e Jurek Walter conservam seus nomes, mas a ambientação e parte da dinâmica dramática foram modificadas.
É uma escolha interessante porque o nordic noir sempre fez da paisagem uma extensão dos conflitos de seus personagens. Ao trocar as florestas escandinavas pelas montanhas da Pensilvânia, a série encontra um território que oferece um efeito semelhante, mas com uma identidade americana muito particular.
O que os primeiros episódios prometem
Os dois capítulos iniciais, Lazarus, Come Forth! e For Such a Time as This, estabelecem os principais conflitos sem revelar completamente suas conexões. O reaparecimento do menino, a possível existência de um cúmplice, o passado de Jonah com Jurek e a decisão de Saga de se infiltrar na instituição abrem diferentes frentes de suspense.
Por enquanto, o maior desafio de Noturno será encontrar uma identidade própria dentro de um gênero que já explorou praticamente todas essas situações. Conhecemos o policial atormentado, o assassino manipulador, a jovem investigadora exposta ao perigo e os segredos que sobrevivem durante anos. A originalidade, portanto, dificilmente estará na premissa, mas na maneira como a série desenvolverá essas relações.
Há também uma questão que me interessa particularmente: a tendência de transformar assassinos em série em figuras de inteligência quase sobre-humana, como se a crueldade viesse necessariamente acompanhada de uma compreensão excepcional da mente humana. O cinema e a televisão fizeram isso tantas vezes que o criminoso manipulador se tornou praticamente um personagem reconhecível antes mesmo de abrir a boca.
Stephen Graham tem talento suficiente para escapar dessa armadilha. Resta saber se o roteiro permitirá que seu personagem seja mais do que outra versão de Hannibal Lecter.
Enquanto isso, as florestas das Allegheny continuam ali, tão belas quanto ameaçadoras, oferecendo uma atmosfera que nenhuma explicação precisa tornar assustadora. Talvez seja essa a principal qualidade dos dois primeiros episódios: compreender que, em determinados lugares, o cenário já conta metade da história.
Com dez episódios previstos e lançamentos semanais até o Natal, Noturno entra no radar como um suspense que merece ser acompanhado. Ainda é cedo para saber se conseguirá surpreender, mas há talento, atmosfera e mistérios suficientes para justificar a próxima visita àquelas florestas.
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