ATENÇÃO: SPOILERS DO PRIMEIRO EPISÓDIO DA QUARTA TEMPORADA
Julian Fellowes não perdeu tempo. Depois de encerrar a terceira temporada de The Gilded Age com o casamento de George e Bertha Russell em crise, o romance de Marian e Larry interrompido e Oscar van Rhijn encontrando uma inesperada possibilidade de reconstruir sua vida, a série voltou com uma sucessão de acontecimentos capazes de alterar definitivamente o destino de seus personagens. E, desta vez, as consequências parecem ser mais sérias do que uma rejeição social ou uma posição desfavorável à mesa de jantar. Intensidade é a nova regra.
“Ring the Bells”, título do primeiro episódio da quarta temporada, começa com um casamento e termina com outro tipo de compromisso, muito mais perigoso para uma jovem da década de 1880. Entre os dois acontecimentos, uma tempestade atravessa Nova York, Gladys enfrenta um parto traumático na Inglaterra e George Russell descobre que sobreviver a uma tentativa de assassinato talvez tenha sido apenas o começo de seus problemas.

Oscar e Enid: um casamento que desafia as convenções
O primeiro grande acontecimento é o casamento de Oscar van Rhijn e Enid Winterton. A união é uma solução engenhosa para dois personagens que, por razões muito diferentes, precisam reinventar suas vidas, e o temporal que se anuncia na cidade é uma metáfora perfeita para os dois.
Afinal, Oscar encontrou em Enid uma mulher que conhece sua orientação sexual e as restrições que a sociedade impõe à sua vida afetiva, e está disposta a aceitar um casamento sem as expectativas românticas tradicionais. Ela, por sua vez, encontra nele o sobrenome, a posição social e a respeitabilidade que sua fortuna, sozinha, não consegue assegurar. É uma negociação de vantagens mútuas, mas não necessariamente desprovida de afeto ou cumplicidade.
Os dois pretendem transformar a união em uma oportunidade para conquistar autonomia e até organizar encontros artísticos, construindo um ambiente social próprio. O problema é que escapar das regras de uma sociedade não significa deixar de sofrer suas consequências.
Enid chega a propor a consumação do casamento para que possam ter um herdeiro, mas Oscar recusa. A intimidade que ambos aceitaram não elimina as dificuldades práticas de uma união construída para esconder aspectos essenciais de suas vidas. Oscar não pode simplesmente abandonar sua sexualidade, assim como Enid não consegue apagar o passado.
E esse passado finalmente alcança Agnes, numa falha de continuidade tão gritante que chega a ser um desapontamento. Afinal, a surpresa dela diante da descoberta de que sua nova nora já trabalhou como criada parece ignorar que, na primeira temporada, Agnes fez Bertha demitir a própria Enid justamente por suspeitar de uma ligação entre ela e Oscar. O problema não é apenas descobrir a origem social da nora, mas aparentemente não reconhecer alguém com quem já havia se envolvido diretamente. Para uma mulher cuja identidade está profundamente ligada à tradição e à posição de sua família, a revelação é especialmente humilhante. Depois de tudo o que Oscar já lhe fez enfrentar, Agnes descobre que sua recuperação social também depende de uma mulher que jamais teria considerado aceitável para o filho. As circunstâncias mudaram e o dinheiro fala mais alto.
É uma das ironias mais interessantes do episódio: a sobrevivência da aristocracia nova-iorquina depende cada vez mais de pessoas que ela própria costumava desprezar.

Marian e Larry: a tempestade muda tudo
Marian Brook e Larry Russell chegam à quarta temporada separados, apesar dos sentimentos que evidentemente continuam existindo. Segundo ela explica a Ada, que estranhamente não sabe, o casal tentou se acertar, mas não conseguiu. Por que não? Já falaremos sobre isso. O fato é que Larry passou uma temporada em Chicago e Marian claramente está sofrendo por isso. Ele foi à igreja para o casamento, mas não para a recepção. E aí vem a “não exatamente surpresa” do porquê.
Ao fim da festa oficial, Oscar e Enid levam Marian para o centro da cidade, a uma casa que, na temporada passada, ela passou boa parte do tempo criticando. E quem ela encontra por lá? Nem precisa apostar, claro que é Larry, que não apenas nunca se desculpou pelo que fez na temporada passada, como continua frequentando esse tipo de estabelecimento.
Seja como for, a aproximação dos dois é fofa e reacende uma relação que nunca foi verdadeiramente encerrada. As bandeiras vermelhas já estavam levantadas quando, no final da noite, Larry decide levar Marian para casa. A tempestade está em seu auge e, no caminho para uptown, a carruagem sofre danos, impedindo que retornem normalmente para casa. Casualmente, eles estão em frente a um hotel. Inicialmente, reservam quartos separados, respeitando ao menos formalmente as convenções sociais. Mas Larry procura Marian, e os dois passam a noite juntos.

É um acontecimento decisivo porque Marian, que sempre demonstrou maior independência de pensamento do que suas tias, finalmente atravessa uma fronteira que a sociedade da época considera intransponível para uma mulher solteira.
O encontro tem um componente romântico inegável. Eles se amam, estão afastados por circunstâncias que nenhum dos dois conseguiu resolver completamente e, diante de uma oportunidade inesperada, deixam de resistir. Mas a manhã seguinte destrói qualquer ilusão de que poderiam simplesmente retomar suas vidas como se nada tivesse acontecido.
Marian acorda assustada com o que fez e com as consequências possíveis. Uma gravidez, uma testemunha indiscreta ou a mera circulação de rumores seriam suficientes para comprometer sua reputação. Larry, sendo homem, não enfrentaria o mesmo julgamento. E ele, mais uma vez, parece não se importar com ela porque não apenas não tem pressa em sair dali para ajudá-la, como tampouco a tranquiliza retomando o noivado.


Quando retorna para casa, Marian percebe o tamanho do risco ao ouvir as preocupações de Agnes e Ada com a possibilidade de alguém imaginar que ela passou a noite acompanhada. As tias desconhecem o que realmente aconteceu, mas a reação delas demonstra exatamente por que Marian tem motivos para temer.
Fellowes costuma tratar os romances da série com uma leveza que contrasta com a severidade das regras daquele mundo. Desta vez, porém, a relação entre Marian e Larry ganha uma dimensão que ultrapassa os obstáculos habituais de um casal apaixonado. O que antes poderia ser resolvido com uma conversa, uma declaração ou uma proposta de casamento agora carrega consequências potencialmente irreversíveis.
O mais interessante será observar se Marian conseguirá distinguir o que realmente deseja daquilo que acredita ser obrigada a fazer. Afinal, uma coisa é escolher Larry por amor. Outra, completamente diferente, é sentir que precisa se casar com ele para salvar sua reputação.
Gladys se torna mãe, mas paga um preço terrível
Enquanto Nova York se prepara para novas disputas sociais, Bertha está na Inglaterra, acompanhando o nascimento do primeiro filho de Gladys e do duque de Buckingham.
O parto é extremamente difícil. O bebê nasce vivo, um menino, mas as complicações colocam a própria vida de Gladys em risco. Durante o procedimento, os médicos retiram seu útero, tornando impossível que ela tenha outros filhos.
A notícia é devastadora para uma jovem cuja vida inteira foi organizada em torno de um casamento destinado a garantir posição e prestígio. Gladys sobrevive, mas perde a possibilidade de ter outros filhos, uma consequência especialmente dolorosa naquele contexto, no qual a continuidade de uma linhagem aristocrática estava diretamente associada à maternidade.
Bertha precisa enfrentar a situação como mãe, e não como a estrategista social que estamos acostumados a acompanhar. Seu dinheiro, sua determinação e sua capacidade de manipular circunstâncias não podem alterar o que aconteceu.
Existe uma ironia cruel nesse desfecho. Bertha lutou para que Gladys se casasse com um duque, mesmo contra a vontade de George e, inicialmente, da própria filha. Agora, diante de um acontecimento que nenhuma ambição poderia evitar, precisa reconhecer os limites de seu poder.
A sobrevivência de Gladys e do bebê oferece algum alívio, mas a revelação de que ela não poderá mais engravidar deixa uma sombra sobre o futuro da jovem duquesa. O casamento que Bertha considerava sua maior vitória social começa a quarta temporada marcado por uma perda íntima e definitiva. E, de alguma forma, nem Hector nem Bertha revelam a verdade para Gladys.

George Russell: um império sob ameaça
George continua afastado de Bertha, e a distância entre os dois já não pode ser atribuída apenas à irritação passageira com o casamento de Gladys.
Ele permanece em Nova York, recuperando-se dos ferimentos provocados pela tentativa de assassinato sofrida na temporada anterior. A identidade do responsável pelo atentado ainda não foi esclarecida, e George contrata investigadores da agência Pinkerton para descobrir quem tentou matá-lo.
Ao mesmo tempo, seus negócios enfrentam uma ameaça política crescente. A possibilidade de medidas contra os monopólios ferroviários, associada ao governo do presidente Grover Cleveland, coloca em risco o modelo de poder que sustentou sua ascensão.
A disputa com John D. Rockefeller, especialmente em torno das tarifas ferroviárias, acrescenta uma nova dimensão ao conflito. George não enfrenta apenas empresários concorrentes, mas também a perspectiva de um governo disposto a intervir no funcionamento de grandes corporações.
É uma situação particularmente interessante para um personagem que sempre acreditou na capacidade de controlar o próprio destino. Seu poder financeiro permanece imenso, mas já não parece suficiente para garantir sua segurança física, a estabilidade dos negócios ou a preservação do casamento.
E Bertha, que durante tanto tempo foi sua principal aliada, continua distante. Larry, pelo visto, seja pelo mau humor constante do pai ou porque repensou, sugere que George a chame de volta. Mas se cala quando o pai reage mal à proposta.

Agnes, Ada e o jantar presidencial
Agnes van Rhijn recebe uma oportunidade de recuperar o prestígio que acredita ter perdido: a New York Heritage Society a escolhe para receber o presidente Grover Cleveland em sua residência.
Para Agnes, trata-se de um reconhecimento quase providencial. Sua posição dentro da própria casa foi profundamente alterada depois que Ada passou a controlar os recursos financeiros da família. Agora, ela poderá novamente ocupar um lugar de destaque na sociedade. Naturalmente, existe um problema. O jantar precisa ser financiado por Ada.
A situação coloca as irmãs em um confronto que já não é simplesmente uma repetição de suas antigas discussões. Agnes continua se comportando como a autoridade máxima da residência, mas a realidade financeira já não sustenta essa posição. Ada, por outro lado, precisa decidir até que ponto permitirá que a irmã utilize sua fortuna para preservar uma hierarquia que não existe mais da mesma maneira.
A chegada de Enid à família ainda acrescenta uma possibilidade inesperada de apoio financeiro, embora Agnes tenha fortes razões para se sentir desconfortável com a origem social da nova nora.
O jantar presidencial promete devolver Agnes ao centro da vida social nova-iorquina. Mas talvez a maior dificuldade seja reconhecer que, para ocupar novamente esse lugar, precisará aceitar a ajuda de mulheres que não controla.


Peggy: sucesso profissional e resistência familiar
Peggy Scott também retorna diante de uma nova etapa da vida. Seu relacionamento com o Dr. William Kirkland caminha para o casamento, ao mesmo tempo que sua trajetória como escritora continua a conquistar reconhecimento.
Embora Elizabeth Kirkland, sua futura sogra, finja estar bem com a escolha do filho, ela é invasiva e desagradável, mesmo com Peggy aceitando tudo para evitar confrontos. O conflito potencial está sendo adiado com todos os “sim” de Peggy para a festa, mas a gente sabe que já já isso não vai funcionar.
Jack: a nova vida
Jack Trotter está realizando seu grande sonho. Já sem a parceria de Larry, ele se encontra com potenciais investidores, mas não sabe como se comportar socialmente e precisa de um curso básico com seus amigos na casa dos Van Rhijn. Quem se ressente com isso é Bridget, que já percebeu que em breve ele estará disputando, ou sendo disputado, por outras mulheres.


As mulheres começam a pagar pelas escolhas de todos
O que mais chama a atenção nesta estreia é a maneira como The Gilded Age parece alterar o peso das consequências para suas personagens femininas.
Marian e Larry finalmente compartilham uma noite de amor, mas é Marian quem corre o risco de ser destruída socialmente. Gladys tem um filho que assegura a continuidade da linhagem do marido, mas perde a possibilidade de uma nova gravidez. Enid conquista o sobrenome que desejava, mas descobre que sua liberdade será limitada pelas próprias regras que procurou contornar. Peggy alcança reconhecimento profissional, mas vê sua independência transformada em motivo de desaprovação.
Até mesmo Agnes e Ada, cuja relação sempre funcionou como uma espécie de comédia doméstica, precisam negociar questões reais de poder e dependência financeira.
Bertha, por sua vez, continua sendo a mulher que conseguiu modificar as regras de toda uma sociedade, mas que não sabe como reparar o próprio casamento. Sua maior vitória, o casamento aristocrático da filha, também não a protege da dor de vê-la sofrer.
O contraste com George é igualmente revelador. Enquanto as mulheres enfrentam julgamentos relacionados ao corpo, à sexualidade, à origem social e ao casamento, ele precisa lidar com a violência e com as forças econômicas e políticas que ameaçam seu império.
A quarta temporada começa, portanto, em um terreno menos confortável para todos. As disputas por convites, mesas e sobrenomes continuam presentes, mas já não são suficientes para esconder os conflitos mais profundos.

Julian Fellowes parece interessado em explorar o que acontece depois que seus personagens conseguem aquilo que tanto desejaram. Oscar encontrou uma esposa que aceita seu segredo, mas ainda precisará descobrir como viver dentro desse acordo. Bertha conseguiu transformar a filha em duquesa, mas não pode controlar o destino dela. Agnes recupera uma oportunidade de prestígio, mas depende da irmã para financiá-la. Marian finalmente vive o amor que desejava, mas acorda aterrorizada.
O episódio termina com uma pergunta particularmente interessante: quantas dessas conquistas realmente representam liberdade?
“Ring the Bells” abre a temporada lembrando que, naquela sociedade, ninguém podia simplesmente desejar alguma coisa sem considerar o preço. E que, quase sempre, eram as mulheres que recebiam a conta.
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