All’s Fair: recap e as perguntas para a segunda temporada

A primeira temporada de All’s Fair terminou com uma das personagens mais importantes presa por assassinato, uma amizade de décadas ameaçada e uma mulher determinada a destruir todas as outras. Nada muito surpreendente para o universo de Ryan Murphy, que transformou um drama jurídico sobre advogadas especializadas em divórcios milionários em uma novela de luxo, rivalidades e vinganças. E, apesar das críticas ferozes que recebeu na estreia, a série conquistou público suficiente para garantir uma segunda temporada, que chega ao Disney+ em 4 de novembro.

O curioso é que, depois de nove episódios acompanhando mulheres capazes de desmontar casamentos, identificar mentiras e proteger fortunas, descobrimos que nenhuma delas é particularmente competente quando precisa reconhecer a manipulação dentro do próprio escritório. Especialmente quando ela vem de alguém que conhecem há anos.

Com Kim Kardashian, Naomi Watts, Niecy Nash-Betts, Glenn Close e Sarah Paulson, All’s Fair deixou várias questões em aberto. Algumas são mistérios policiais, outras envolvem relacionamentos amorosos, mas a mais importante talvez seja a capacidade dessas mulheres de continuar confiando umas nas outras.

Como terminou a primeira temporada?

Allura Grant (Kim Kardashian), Liberty Ronson (Naomi Watts) e Emerald Greene (Niecy Nash-Betts) construíram uma firma de advocacia poderosa, especializada em separações milionárias. Com a orientação de Dina Standish (Glenn Close), as três conquistaram independência profissional depois de abandonar um escritório dominado por homens.

O problema é que a principal ameaça ao negócio não veio de um ex-marido milionário, de um cliente insatisfeito ou de algum concorrente. Veio de Carrington Lane (Sarah Paulson), antiga rival de Allura, cuja obsessão pelas mulheres do escritório se transformou em um elaborado projeto de vingança.

Carr passou boa parte da temporada tentando encontrar uma maneira de entrar na sociedade. Dina, que acreditava conhecer sua antiga protegida, chegou a sugerir a contratação como um gesto de reconciliação. Foi um erro que custou caro.

Depois de perceber que Carr não havia mudado, Dina passou a se opor à sua entrada. A resposta foi devastadora. Carr começou a manipular Liberty, explorando sua insegurança de nunca se sentir completamente integrada ao grupo, e depois voltou sua atenção para Allura, apresentando falsas evidências de que Dina estaria sofrendo algum tipo de deterioração mental.

O resultado foi uma intervenção constrangedora na qual as mulheres confrontaram a própria mentora, dando mais crédito às insinuações de Carr do que à história de amizade que compartilhavam. Como se não bastasse, a polícia chegou durante a discussão para prender Dina pelo assassinato de Lloyd Walton, o homem responsável por agredir sexualmente Emerald.

A cena final mostrou Carr riscando o nome de Dina de sua lista de vingança. Uma vitória importante, mas não definitiva. Afinal, as outras mulheres continuam na lista.

Dina realmente matou Lloyd Walton?

Esta é a primeira grande pergunta que a segunda temporada precisa responder. Lloyd foi assassinado depois de atacar Emerald, e a investigação policial encontrou motivos para suspeitar de alguém ligado ao escritório. Dina foi presa, mas a série não esclareceu se ela realmente cometeu o crime.

Carr pode ter manipulado evidências para incriminá-la? É perfeitamente possível, especialmente considerando a maneira como conseguiu fabricar uma narrativa sobre a suposta instabilidade emocional de Dina. Mas existe outra possibilidade: Dina pode ter protegido Emerald e decidido resolver o problema por conta própria.

Seria uma reviravolta interessante para uma personagem que passou a temporada exercendo uma autoridade quase maternal sobre as demais. Dina conhece os mecanismos do poder e sabe que a justiça nem sempre funciona como deveria. Ainda assim, a hipótese de que ela tenha cometido um assassinato precisa ser tratada como suspeita, não como conclusão.

Há também o luto pela morte de Doug. Carr explorou essa vulnerabilidade, transformando manifestações de sofrimento em supostos indícios de incapacidade. É uma das dimensões mais cruéis de sua estratégia: convencer as outras mulheres de que a dor de Dina seria prova suficiente para desacreditá-la.

E aqui está uma pergunta tão relevante quanto a identidade do assassino: quando a verdade aparecer, como Allura, Liberty e Emerald conseguirão reparar a traição cometida contra a mulher que sempre as protegeu?

Carrington Lane: a vingança de uma mulher que quer ser Allura

Sarah Paulson foi uma das grandes atrações da primeira temporada. Carr poderia ser apenas uma vilã caricatural, mas a atriz conseguiu transformá-la em uma personagem ao mesmo tempo patética, assustadora e fascinante.

Sua rivalidade com Allura ultrapassou os limites profissionais. Depois de se envolver sexualmente com Chase Munroe (Matthew Noszka), ex-marido de Allura, Carr passou a reproduzir a aparência da rival, em uma das sequências mais bizarras da temporada.

O detalhe essencial é que Chase chegou a chamá-la pelo nome de Allura durante um encontro íntimo. A humilhação ajuda a explicar a transformação física de Carr, embora não seja suficiente para justificar sua obsessão.

Carr não quer simplesmente derrotar Allura. Parece desejar ocupar seu lugar, conquistar seu reconhecimento e, ao mesmo tempo, destruir tudo aquilo que admira nela.

Quando uma mulher precisa se transformar na rival para tentar ser desejada, a competição deixa de ser apenas profissional ou amorosa. Há algo mais profundo em sua dificuldade de reconhecer limites entre admiração, inveja e identidade.

Sua sessão de terapia no último episódio deixou claro que a vingança se tornou o eixo em torno do qual organiza a própria existência. Carr não consegue abandonar a ideia de punir as mulheres que responsabiliza por seus fracassos, mesmo quando suas decisões ameaçam comprometer sua própria vida.

Mas até onde ela pretende chegar? A lista de vingança ainda tem nomes, e a segunda temporada pode transformar uma inimiga externa em alguém com influência direta sobre as decisões do escritório.

Allura e Chase: amor, ego ou a necessidade de vencer?

O casamento de Allura com Chase foi destruído por uma traição. O jogador de futebol se envolveu com Milan (Teyana Taylor), funcionária do escritório, antes de procurar uma reconciliação com a ex-mulher. Depois, acabou nos braços de Carr, tornando-se parte de uma disputa na qual parece ter cada vez menos controle.

Allura, por sua vez, nunca demonstrou estar inteiramente livre do relacionamento. A reconciliação chegou a parecer possível, mas os sentimentos continuam misturados ao orgulho ferido e à incapacidade de aceitar a derrota.

Será que Allura realmente ama Chase ou simplesmente não suporta a ideia de ser substituída? E Chase deseja recuperar o casamento ou está tentando reconstruir uma imagem de si mesmo que perdeu quando deixou de ser o marido de uma mulher poderosa?

São questões que a série ainda não desenvolveu com toda a profundidade possível. Existe um paradoxo interessante em Allura: uma advogada capaz de identificar as fraquezas dos casamentos alheios, mas que parece incapaz de reconhecer os próprios mecanismos de repetição.

A chegada de um novo homem à sua vida, interpretado pelo brasileiro Cauã Reymond, promete acrescentar outra possibilidade afetiva e, pelas primeiras imagens, uma dose considerável de sensualidade. O personagem é apresentado nas divulgações como um segurança, mas a natureza de sua relação com Allura ainda precisa ser esclarecida.

Liberty: a mulher que quase se casou com uma mentira

Liberty passou a primeira temporada tentando acreditar que havia encontrado um homem confiável. Reggie (O-T Fagbenle) parecia representar uma possibilidade de estabilidade emocional, especialmente em um ambiente profissional no qual ela acompanha diariamente o fracasso dos relacionamentos.

Até que Emerald descobriu que ele escondia sérios problemas financeiros.

A revelação levou Liberty a cancelar o casamento. Não foi necessariamente a situação econômica de Reggie que provocou a separação, mas o fato de ele ter escondido informações que poderiam comprometer o patrimônio da futura esposa.

É uma ironia perfeita para uma advogada especializada em proteger mulheres das consequências financeiras de casamentos fracassados.

Mais preocupante, porém, foi a facilidade com que Liberty aceitou as insinuações de Carr sobre suas amigas. A necessidade de se sentir incluída deixou-a vulnerável a uma mulher que soube oferecer exatamente o reconhecimento que ela procurava.

Na segunda temporada, Liberty terá de enfrentar não apenas as consequências da separação, mas também o papel que desempenhou na queda de Dina.

Emerald e o assassinato que pode destruir a firma

Emerald sempre foi uma das mulheres mais práticas e determinadas do grupo. Ex-policial e investigadora, sabe encontrar informações que os outros prefeririam manter escondidas. Mas foi também a personagem atingida por uma das experiências mais violentas da temporada, quando se tornou vítima de Lloyd Walton.

O assassinato de seu agressor colocou o escritório sob investigação e acabou levando à prisão de Dina. Embora Emerald tenha motivos evidentes para desejar justiça, isso não significa que seja responsável pelo crime.

Sua experiência policial pode ser decisiva para descobrir o que realmente aconteceu. Ao mesmo tempo, a possibilidade de que alguém tenha agido para protegê-la abre um conflito moral que a série ainda precisa explorar.

Até onde é possível justificar uma atitude tomada em nome de outra pessoa? E quem assume a responsabilidade quando a proteção ultrapassa os limites da lei?

O que esperar da segunda temporada?

O trailer e as informações oficiais indicam que a sociedade enfrentará uma nova crise, envolvendo alianças inesperadas, amizades colocadas à prova e uma revelação capaz de ameaçar a própria existência da firma.

A nova temporada terá oito episódios, começando com três lançados simultaneamente em 4 de novembro. Cauã Reymond se junta ao elenco, que também receberá participações de Denise Richards, Margo Martindale, Jaime Pressly e outras convidadas.

Mas a questão principal não está nos novos personagens ou nos extravagantes processos de divórcio que certamente continuarão fazendo parte da narrativa. Está no futuro de Grant, Ronson & Greene.

Carr conseguiu transformar a confiança entre as sócias em desconfiança e fez com que mulheres acostumadas a investigar mentiras aceitassem as suas sem questionamento. Dina, a pessoa que percebeu a manipulação, terminou presa. E Allura, que deveria ser capaz de reconhecer as intenções da maior rival, foi uma de suas vítimas mais fáceis.

All’s Fair nunca pretendeu ser um drama jurídico particularmente realista. É uma fantasia sobre mulheres poderosas que usam roupas caríssimas, vencem disputas milionárias e frequentemente tomam decisões pessoais desastrosas. Seu exagero faz parte da proposta e, em alguns momentos, também de seu encanto.

Agora, Ryan Murphy tem uma oportunidade interessante: fazer com que o espetáculo de luxo e vingança tenha consequências emocionais mais consistentes. Porque, depois de tudo o que aconteceu, não basta descobrir quem matou Lloyd ou quem será o próximo amante de Allura.

A pergunta que realmente deveria reger a segunda temporada é outra: o que resta de uma amizade quando a confiança foi destruída justamente pelas pessoas que deveriam protegê-la?


Descubra mais sobre

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

Deixe um comentário