All’s Fair: o avião cai, as máscaras também no episódio 2 (Recap)

Se o primeiro episódio da segunda temporada de All’s Fair terminou com uma ferroada, o segundo resolve testar a sinceridade das personagens a uma altitude pouco recomendável para qualquer acerto de contas. “Going Down” reúne aquelas mulheres em um avião particular, coloca todas diante da possibilidade de morrer e descobre que o medo pode produzir uma aproximação que anos de convivência não conseguiram garantir.

A cafonice continua intacta, assim como as roupas e os absurdos. Mas há uma mudança interessante na distribuição das atenções. Pelo menos nesses primeiros capítulos, Kim Kardashian parece menos central, deixando Sarah Paulson, Glenn Close e Naomi Watts conduzirem boa parte das cenas. E, quando o episódio depende de mulheres tentando administrar ressentimentos enquanto acreditam estar vivendo seus últimos minutos, essa combinação funciona.

O texto contém spoilers do segundo episódio da segunda temporada.

Um divórcio e uma perversão no meio do acordo

Desde a primeira temporada, a série usa os casos de divórcio como oportunidade para receber atrizes conhecidas em participações como clientes ricas, famosas ou simplesmente envolvidas em separações absurdas. É uma estrutura que permite reunir o elenco em torno de uma negociação e, ao mesmo tempo, apresentar alguma intimidade que talvez todos preferissem não conhecer.

O segundo episódio mantém o esquema: Carr de um lado, representando o marido, e as mulheres do escritório do outro. O que parecia uma separação encaminhada ganha um componente sexual envolvendo um animal, daqueles que Ryan Murphy gosta de introduzir justamente para observar o constrangimento geral. Até as advogadas, que profissionalmente deveriam estar acostumadas a ouvir de tudo, se surpreendem.

A graça não está apenas no choque. Essas negociações também mostram que, apesar das hostilidades, elas conseguem avaliar os próprios clientes com alguma distância. Representar alguém não significa acreditar em todas as suas versões, muito menos compartilhar suas escolhas. As mentiras e os comportamentos absurdos aparecem dos dois lados da mesa.

É nesse reconhecimento profissional que Carr fica mais próxima das rivais do que todas gostariam de admitir. Elas podem discordar de métodos, trocar ofensas e ameaçar destruir os negócios umas das outras, mas conhecem o material humano com que trabalham. Em determinados momentos, o olhar que compartilham sobre os clientes diz mais do que qualquer tentativa de reconciliação.

Isso também ajuda a explicar por que a ruptura nunca se completa. Existe uma história comum, uma linguagem profissional e uma capacidade de reconhecer a inteligência da outra, mesmo quando o convívio parece insuportável.

Dina continua acreditando em Carr

Dina prepara uma viagem para espalhar as cinzas de Doug e quer ao seu lado as pessoas próximas. Naturalmente, naquela lógica muito particular, Carr está incluída. Depois de tudo o que aconteceu, a insistência de Dina em manter essa mulher por perto continua sendo uma das decisões mais difíceis de compreender e mais necessárias para que o folhetim funcione.

Ela repete que Carr, no fundo, é uma boa pessoa. Nós ainda estamos esperando conhecer essa pessoa, mas não faltam sinais de uma vida difícil e de sofrimento acumulado. É possível entender a amargura sem considerar que isso resolva a crueldade.

Dina parece enxergar uma versão de Carr que as demais nem sempre alcançam. Liberty também se deixa atingir e convencer com facilidade. Minha impressão é que as duas cedem mais rapidamente às aproximações da rival do que Allura e Emerald, que costumam manter uma resistência maior. Mesmo assim, nenhuma delas consegue sustentar distância por muito tempo.

No avião, a convivência forçada oferece outra oportunidade para esse entendimento tortuoso. O problema é que Carr tem pavor de voar e transforma o medo em mais uma apresentação de Sarah Paulson.

O medo, o remédio e a sinceridade

Carr relata supostas coincidências com desastres aéreos, numa sequência construída para fazer rir. Particularmente, não sei se a piada funciona tão bem. Com tantos acidentes e episódios envolvendo jatos, o tema traz um desconforto que a intensidade da interpretação nem sempre consegue dissipar. Passou, mas não foi o humor que mais me conquistou aqui.

A confusão com o remédio acrescenta outra camada ao descontrole. Entre a substância colocada na bebida e a circulação dos copos, ninguém parece saber com segurança quem tomou o quê. A dúvida permanece enquanto a situação deixa de ser apenas uma crise de ansiedade.

Quando os dois motores pegam fogo, o medo de Carr passa a ser compartilhado por todos. A possibilidade de morrer transforma a viagem em uma troca de sinceridade: mensagens aos familiares, arrependimentos e coisas que talvez nunca fossem ditas em condições normais.

O melhor do episódio está nessa suspensão das defesas. São mulheres acostumadas a controlar a própria imagem e a encontrar as fraquezas dos outros, agora sem garantia de que terão tempo para corrigir o que fizeram. Por alguns minutos, vencer a discussão deixa de parecer tão importante.

Mais uma vez, elas conseguem se entender de uma forma tortuosa. O afeto aparece misturado à hostilidade, a confissão não elimina os ressentimentos e a aproximação continua longe de produzir uma convivência simples. Mas existe algo ali que explica por que insistem umas nas outras.

Liberty e Carr: a hostilidade muda de direção

Entre os arrependimentos de Carr está não ter experimentado sexo com uma mulher. Depois de tantas provocações homofóbicas contra Liberty, a confissão muda a leitura daquela atenção insistente. Não é suficiente para explicar ou desculpar tudo o que disse, mas introduz uma possibilidade que a série claramente pretende explorar.

A conversa sobre ser flexível cabe perfeitamente nesse movimento. Carr mantém sua disposição para provocar, mas agora a provocação também permite uma aproximação. Liberty, por sua vez, continua receptiva a uma mulher que consegue desestabilizá-la com uma facilidade preocupante.

A namorada de Liberty termina o relacionamento por considerá-la intensa demais, deixando disponível um ingresso para o show de Brandi Carlile. Carr se oferece para acompanhá-la, e a ideia não parece desagradar a Liberty.

É uma mudança bastante rápida depois do confronto anterior, mas a série nunca teve pudor em fazer suas personagens passarem da ofensa à intimidade. A questão passa a ser o que Carr fará com essa proximidade e quanto Liberty está disposta a ignorar para se sentir compreendida.

Raul sabe fazer tudo. É justamente por isso que desconfio

O perigo dá ao segurança de Allura a oportunidade de demonstrar que sua contratação tem utilidade. Raul, interpretado por Cauã Reymond, ajuda a impedir o desastre aéreo e ainda avança na investigação das ameaças contra a advogada, apontando Marcus Weller como suspeito. A possibilidade de sabotagem transforma a viagem em parte de um problema maior.

É uma estreia de competência tão impressionante que me deixa desconfiada. O homem é bonito, disponível, sabe agir diante de dois motores em chamas e consegue localizar quem pode estar atrás de Allura. Estamos diante de um segurança extraordinário ou de alguém cuja perfeição deveria nos preocupar?

Até aqui, a série nos deu bons motivos para desconfiar dos homens que chegam oferecendo exatamente o que essas mulheres parecem precisar. Isso não prova nada contra Raul. Minha suspeita vem da facilidade com que ele ocupa o lugar de solução para todos os problemas.

A proteção se estende à casa de Allura, incluindo a proximidade noturna. Evidentemente, a tensão entre os dois faz parte da proposta. Objetificadíssimo, Cauã entra nessa fantasia como um homem que pode ser admirado e em quem, teoricamente, se pode confiar. Eu ainda quero entender a segunda parte.

E o namorado de Dina também merece atenção

Raul não é o único homem que me deixa com uma pergunta. Dina fala de Brody, o rapaz que se aproximou dela trabalhando como garçom, e acrescenta uma informação curiosa: ele é rico.

Então por que estava trabalhando como garçom? Pode haver uma explicação perfeitamente razoável, mas a informação muda a maneira como olho para a aproximação. A questão nunca foi Dina ser desejada por um homem mais jovem. Depois de tanta dor, é bom vê-la se permitir outra experiência. O que desperta minha curiosidade é a história dele.

Há ainda um arrependimento do passado de Dina que permanece sem explicação completa, acrescentando outra camada ao que ela não divide imediatamente com as amigas. A mentora também tem uma vida que o grupo não conhece por inteiro.

“Going Down” termina ampliando os vínculos e as desconfianças ao mesmo tempo. As mulheres sobrevivem a uma experiência que as aproxima, Liberty encontra outra possibilidade em Carr e Allura passa a contar com um homem aparentemente capaz de protegê-la de tudo. Dina, por sua vez, experimenta um novo romance cercado de perguntas.

O medo de morrer fez com que elas baixassem a guarda. O que ainda precisamos descobrir é se escolheram bem as pessoas diante de quem se permitiram fazer isso.


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