Atenção: spoilers do primeiro episódio da segunda temporada.
Black Doves está de volta e, felizmente, Keira Knightley e Ben Whishaw continuam tão interessantes quanto na primeira temporada. A série criada por Joe Barton mantém sua mistura de espionagem, violência, personagens moralmente questionáveis e relacionamentos complicados, mas acrescenta uma dose ainda maior de humor. Nem sempre funciona, especialmente quando assassinos discutem tranquilamente como pretendem morrer, mas é parte da identidade de uma produção que nunca se levou inteiramente a sério.
A segunda temporada começa com Helen Webb (Keira Knightley) prestes a se tornar a esposa do primeiro-ministro britânico. Wallace (Andrew Buchan) está a poucos dias de assumir o cargo mais importante do governo, mas o casamento enfrenta uma crise. Em uma sessão de terapia de casal, ele admite que a convivência com a mulher parece uma encenação. É uma observação particularmente dolorosa porque o público sabe que, de certa forma, ele está certo.
Helen continua trabalhando para os Black Doves, uma organização de espionagem que comercializa informações confidenciais sem qualquer compromisso ideológico. Seu casamento com Wallace foi construído como parte dessa missão, embora os sentimentos que desenvolveu pela família sejam reais. A contradição, que sustentava boa parte da primeira temporada, ganha uma dimensão ainda mais perigosa quando Wallace chega ao poder.
Helen, por sua vez, está ressentida com a possibilidade de que sua nova posição a transforme apenas em uma fonte de informações. Ela quer continuar participando das missões, não se limitar à função de esposa dedicada que acompanha o marido em compromissos oficiais.
E, antes de avançarmos, é preciso registrar que Keira Knightley está deslumbrante no vestido azul que usa em Paris. A atriz sempre teve uma elegância particular, mas aquela roupa parece ter sido escolhida para nos lembrar de como uma espiã pode ser absolutamente letal sem perder a sofisticação.

Paris, um cofre e o misterioso Wildflower
Durante uma recepção oficial em Paris, Wallace conversa com Alexi Chernov (Goran Kostic), um russo exilado interessado em participar de uma futura conferência de defesa. Helen se aproxima da esposa dele, Katia (Sylvia Hoeks), conversa em russo e aproveita a oportunidade para roubar o cartão de acesso ao quarto do casal.
Enquanto o marido cumpre suas obrigações diplomáticas, ela deixa discretamente a recepção para participar de uma operação clandestina. Sua parceira é Laila Joshi (Ambika Mod), uma agente mais jovem, extremamente falante e pouco impressionada com a experiência de Helen. A missão deveria ser simples: entrar na suíte dos Chernov, abrir um cofre e copiar arquivos de um computador.
Naturalmente, nada sai como planejado.
Helen tem dificuldades para abrir o cofre enquanto Laila elimina os seguranças e faz comentários pouco tranquilizadores sobre a situação. No meio da operação, Helen recebe uma ligação de Sam (Ben Whishaw), que acaba orientando a amiga sobre como abrir o equipamento. Ele tem seus próprios problemas, mas a conversa é interrompida antes que consiga explicá-los.
As duas finalmente encontram o arquivo procurado, identificado como Wildflower, e precisam enfrentar outros homens armados antes de escapar. Helen ainda consegue retornar à recepção a tempo de acompanhar o encerramento do discurso do marido, como se nada tivesse acontecido.
A sequência estabelece o tom da temporada. O perigo é real, as mortes são tratadas com uma naturalidade desconcertante e o humor surge justamente do contraste entre a violência e as preocupações cotidianas dos personagens.
Mais tarde, Helen entrega o material a Reed (Sarah Lancashire), sua chefe e principal contato com os Black Doves. A reação de Reed ao examinar os arquivos sugere que Wildflower está relacionado a acontecimentos antigos e particularmente perigosos. Ela menciona que se trata de um eco do passado, mas se recusa a oferecer explicações.
Helen insiste que deseja continuar trabalhando como agente, mas Reed adverte que sua nova condição pode exigir mudanças nas regras. Também recomenda que permaneça atenta às ameaças ao redor.
Pouco depois, Reed é interceptada por dois carros e cercada por homens desconhecidos. Sua expressão resignada sugere que reconhece o perigo, mas não revela o que acontecerá com ela.
Sam, uma prisão e um contrato impossível de recusar
Enquanto Helen circula entre recepções diplomáticas e operações clandestinas, Sam continua vivendo de maneira bastante solitária, trabalhando como assassino profissional.
Sua primeira missão na temporada é eliminar um antigo espião. A vítima parece reconhecer o próprio destino e chega a negociar com Sam a maneira como deseja morrer. A conversa é quase absurda, especialmente porque ambos tratam o assassinato como uma transação profissional.
Antes de morrer, o homem sugere a Sam que ele representa seu próprio futuro: um assassino envelhecido, sozinho e sem muitas perspectivas.
A observação incomoda Sam, que já havia demonstrado na primeira temporada o desgaste emocional de uma vida construída sobre violência, perdas e relacionamentos impossíveis.
O problema é que, depois de executar o trabalho, ele encontra policiais esperando na saída. Sam é preso, e descobrimos que a ligação feita a Helen durante a missão de Paris era uma tentativa de pedir ajuda.
Quem aparece para tirá-lo da prisão é Patrick (Sam Riley), apresentado como advogado, embora evidentemente represente interesses bastante diferentes daqueles de um defensor comum.
Patrick trabalha para uma organização privada que deseja contratar Sam para eliminar quatro pessoas. Os nomes serão revelados progressivamente, e o pagamento inclui um adicional de 20% sobre seus honorários habituais.
O contrato não permite recusas depois que os alvos forem anunciados. Em troca, Patrick promete fazer desaparecer as acusações que levaram Sam à prisão. A organização demonstra ter influência suficiente para controlar o acesso às imagens das câmeras de segurança e interferir no funcionamento da própria polícia.
Sam compreende que foi colocado numa armadilha. Mas, sem alternativas aparentes, aceita a proposta.

Bem-vindos a Downing Street
De volta a Londres, Wallace finalmente assume o cargo de primeiro-ministro, e a família se muda para o número 10 de Downing Street.
O que deveria representar uma conquista extraordinária para o casal também evidencia a fragilidade do casamento. Wallace está preocupado com a relação, e Helen procura tranquilizá-lo, sugerindo que os dois ainda podem encontrar uma maneira de permanecer juntos.
Durante uma conversa aparentemente sincera no escritório do marido, ela aproveita a oportunidade para copiar secretamente os arquivos de seu computador.
É uma das cenas mais reveladoras do episódio porque Wallace não parece um homem particularmente cruel ou indiferente. Ao contrário, está tentando compreender a distância que se estabeleceu entre eles. Helen pode gostar dele, pode até acreditar que deseja salvar o casamento, mas continua incapaz de abandonar a vida construída sobre mentiras.
Também é curioso observar como a série trata a segurança da residência oficial britânica. Helen parece ter uma liberdade de movimentação incompatível com a vigilância que deveria cercar a esposa de um primeiro-ministro. Mas Black Doves sempre exigiu certa disposição para aceitar essas conveniências narrativas.
Enquanto isso, Helen percebe que Reed não compareceu ao encontro semanal das duas. A ausência é preocupante porque sua chefe dificilmente deixaria de seguir um protocolo sem justificativa.
Ao investigar as notícias sobre a operação em Paris, descobre que o ataque à suíte dos Chernov foi apresentado como um roubo comum, com desaparecimento de joias e ferimentos leves entre os seguranças. Nós sabemos que a história é falsa.
Outra informação chama sua atenção: uma antiga empregada doméstica ligada aos Chernov, Ida Povetkin, foi encontrada morta em Moscou.
Helen ainda não consegue compreender a ligação entre os acontecimentos, mas começa a suspeitar que a missão de Paris envolvia algo muito maior do que imaginava.
Uma nova chefia e informações que não deveriam ser descobertas
Preocupada com o desaparecimento de Reed, Helen procura Sam. Os dois se encontram e compartilham suas dificuldades. Ela revela as suspeitas sobre a antiga chefe, enquanto ele explica como acabou preso e foi obrigado a aceitar um contrato de assassinato.
A amizade entre os dois continua sendo o principal vínculo afetivo da série. Helen e Sam conhecem as piores características um do outro e, mesmo assim, conseguem oferecer um tipo de confiança que não encontram em suas relações pessoais.
Sam está hospedado em um hotel e, ao receber a identidade de seu primeiro alvo, percebe que precisará de ajuda. Trata-se de Erik Klein, conhecido pelo codinome Zeus, um homem protegido por vários seguranças.
Ele recorre a Williams (Ella Lily Hyland) e Eleanor (Gabrielle Creevy), a dupla de assassinas que ganhou espaço na primeira temporada. As duas continuam oferecendo alguns dos diálogos mais divertidos da produção, discutindo relacionamentos e compromissos sociais com a mesma naturalidade com que planejam assassinatos.
Williams, aliás, demonstra certo incômodo porque Eleanor pretende ir a uma apresentação de O Fantasma da Ópera com outra pessoa. É um daqueles detalhes que tornam os personagens de Black Doves tão peculiares.
Helen também descobre que sua posição como esposa do primeiro-ministro parece tê-la afastado de determinadas operações da organização. As colegas brincam com a mudança, mas ela não aprecia a ideia de ser tratada como alguém cuja utilidade se resume a roubar informações do marido.
Pouco depois, ao buscar os filhos na escola, Helen é abordada por um homem que anuncia mudanças na estrutura dos Black Doves. Reed desapareceu, e a organização deseja que ela conheça seus novos superiores. O homem é Robert Conteh (Babou Ceesay).
Helen comparece ao escritório de uma empresa chamada Woodrow, Augustus & Sons, onde encontra integrantes da direção dos Black Doves. Eles demonstram particular interesse pela operação realizada em Paris e revelam uma informação perturbadora: a missão não havia sido oficialmente autorizada.
Reed agira por conta própria. A revelação altera o significado de tudo o que aconteceu. Se a operação não fazia parte das atividades regulares dos Black Doves, o que Reed pretendia descobrir? E por que precisou envolver Helen?
Conteh informa que assumirá o posto de contato responsável por Helen, mas ela se recusa a aceitar a mudança sem conhecer melhor o homem. Exige informações sobre sua trajetória e consegue que ele abra seu arquivo no computador.
O que ele não percebe é que Helen utiliza a mesma tecnologia empregada contra Wallace para copiar os dados de seu novo superior.
Mais uma vez, a habilidade de Helen em enganar os homens à sua volta se revela fundamental.
Entre os documentos, ela encontra informações sobre Reed e suas conexões. Ida Povetkin, a empregada morta em Moscou, estava ligada à organização. E há outro nome conhecido: Erik Klein.
O primeiro alvo de Sam é um agente ativo dos Black Doves.

O primeiro alvo e uma morte que muda tudo
Enquanto Helen faz suas descobertas, Sam, Williams e Eleanor já estão posicionados para eliminar Klein.
A operação envolve uma invasão violenta e a execução dos homens encarregados de proteger o alvo. Sam consegue finalmente alcançar Klein, mas enfrenta resistência. O homem demonstra treinamento e não pretende morrer sem lutar.
Helen percebe que Sam foi contratado para assassinar alguém da própria organização e tenta desesperadamente avisá-lo.
O problema é que o telefone dele cai durante o confronto, impedindo que receba a ligação.
Quando Helen finalmente consegue estabelecer contato, é tarde demais.
Erik Klein está morto.
O assassinato confirma que alguém está utilizando Sam para atingir os Black Doves. Também elimina uma pessoa que poderia ajudar Helen a compreender o desaparecimento de Reed e o verdadeiro significado da operação Wildflower.
A temporada estabelece, assim, duas linhas narrativas que provavelmente fazem parte da mesma conspiração: uma agente desaparecida depois de investigar um arquivo misterioso e um assassino contratado para eliminar integrantes da própria organização.
Resta descobrir quem está coordenando os ataques e por quê.
O que esperar da segunda temporada?
O primeiro episódio funciona bem porque preserva aquilo que tornou Black Doves interessante: a combinação de violência estilizada, espionagem, humor ácido e personagens incapazes de construir relações afetivas sem comprometer a vida de alguém.
Mas há uma mudança importante. Na primeira temporada, Helen precisava esconder suas atividades para preservar o casamento e a família. Agora, sua posição é ainda mais delicada porque Wallace ocupa o centro do poder britânico e começa a questionar a autenticidade da relação.
A crise do casal pode ser tão perigosa quanto as ameaças externas. Afinal, quanto mais Wallace se distancia emocionalmente, mais difícil se torna para Helen sustentar a encenação que permitiu aos Black Doves acompanharem sua ascensão política.
Sam enfrenta um conflito diferente. A conversa com o antigo espião que executou parece ter colocado diante dele uma imagem perturbadora de seu futuro. A solidão, o desgaste e a consciência de que sua profissão dificilmente permite uma aposentadoria tranquila tornam suas escolhas cada vez mais difíceis.
Há ainda a questão de Reed. Sua reação ao arquivo Wildflower, o desaparecimento e a revelação de que conduziu uma operação não autorizada sugerem que ela conhecia uma ameaça que os demais integrantes dos Black Doves ainda não compreenderam.
E há uma pergunta particularmente importante: quem teria recursos e influência suficientes para mandar prender Sam, libertá-lo imediatamente e utilizá-lo para eliminar agentes de uma organização especializada justamente em vender segredos?
A estreia não oferece respostas, mas estabelece as peças de um conflito que pode atingir tanto os Black Doves quanto o próprio governo britânico.
E deixa uma pequena homenagem musical que não deveria passar despercebida. Em uma lembrança de Helen, Reed comenta como gostaria que fosse organizado seu funeral, incluindo a execução de She’s Always a Woman, de Billy Joel, no órgão da igreja. A canção acompanha os créditos finais, uma escolha ao mesmo tempo irônica e melancólica para uma personagem cuja capacidade de manipular pessoas sempre foi uma de suas maiores habilidades.
Se Reed está realmente morta, desaparecida ou conduzindo uma operação que ninguém compreende, ainda não sabemos.
Mas uma coisa é certa: Helen terá dificuldade para continuar sendo apenas a elegante esposa do primeiro-ministro. E, pelo visto, essa é justamente a última coisa que ela deseja.
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