Atenção: o texto contém spoilers do segundo episódio da segunda temporada de Black Doves, “Put Your Head on My Shoulder”.
A segunda temporada de Black Doves avança rapidamente em sua conspiração internacional, mas o segundo episódio também deixa claro que os maiores perigos enfrentados por Helen (Keira Knightley) e Sam (Ben Whishaw) não estão necessariamente nas pessoas que desejam matá-los. O passado de Reed (Sarah Lancashire) começa a revelar uma operação clandestina realizada durante a Guerra Fria, enquanto Sam descobre que o contrato que aceitou para escapar da prisão envolve muito mais do que eliminar alguns antigos agentes. Como sempre, a série criada por Joe Barton mistura violência, espionagem e um humor tão mórbido que, em determinados momentos, quase nos faz esquecer que estamos acompanhando personagens capazes de cometer assassinatos com impressionante naturalidade.
O episódio retoma os acontecimentos imediatamente após a morte de Erik Klein, o agente dos Black Doves que Sam foi contratado para eliminar. Helen havia descoberto que o amigo estava trabalhando para alguém interessado em destruir integrantes da própria organização, mas não conseguiu avisá-lo a tempo. Agora, os dois precisam compreender quem está por trás dos assassinatos e, principalmente, por que uma operação aparentemente esquecida há décadas voltou a representar uma ameaça.

Wildflower e os segredos de Berlim Oriental
Uma etiqueta de bagagem leva Helen e Sam à estação King’s Cross, onde conseguem recuperar uma bolsa pertencente a Klein. A investigação também os conduz novamente a Ida Povetkin, a antiga empregada dos Chernov encontrada morta em Moscou, que trabalhava secretamente para os Black Doves e havia descoberto informações relacionadas à operação Wildflower.
Em uma gravação, Ida revela que Wildflower estava ligada a uma missão realizada em Berlim Oriental durante a Guerra Fria, da qual aparentemente apenas uma pessoa sobreviveu. A identidade desse sobrevivente permanece desconhecida, mas o fato de alguém estar procurando por ele sugere que os acontecimentos daquele período continuam perigosos. Ida havia comunicado suas descobertas a Reed antes de perceber que sua própria identidade fora comprometida, o que torna sua morte ainda mais suspeita.
Helen e Sam procuram Lenny Lines em busca de informações sobre os responsáveis pelos contratos de assassinato, mas ela afirma desconhecer quem estaria interessado em eliminar agentes dos Black Doves. A investigação, portanto, segue por caminhos paralelos, com Helen tentando compreender a ligação entre o desaparecimento de Reed e Wildflower, enquanto Sam precisa continuar cumprindo as ordens de seus misteriosos contratantes.
Seu segundo alvo é uma mulher conhecida pelo codinome Spitfire, uma senhora aparentemente inofensiva que o recebe em casa e oferece biscoitos. A conversa começa de maneira quase doméstica, embora ambos saibam que aquele encontro dificilmente terminará bem. Spitfire também trabalhou para os Black Doves, mas está aposentada há muitos anos e conhece detalhes da operação realizada em Berlim.
Quando Sam pergunta sobre Wildflower, ela confirma que os envolvidos tiveram uma oportunidade de agir sem restrições e aproveitaram a ocasião para revelar seu lado mais selvagem. A observação sugere que a missão talvez tenha envolvido acontecimentos muito mais graves do que uma operação de espionagem fracassada, mas a mulher não chega a oferecer maiores explicações. Antes disso, tenta sacar uma arma, obrigando Sam a reagir e matá-la.
O detalhe mais desconcertante vem em seguida, quando ele simplesmente come um dos biscoitos oferecidos pela vítima. É exatamente o tipo de humor mórbido que Black Doves parece determinada a intensificar nesta temporada, transformando uma cena de assassinato em uma situação quase absurda, na qual a brutalidade convive com pequenos gestos cotidianos.
Helen enfrenta a nova direção dos Black Doves
Enquanto Wallace (Andrew Buchan) recebe Cecile Mason, uma representante americana interpretada por Neve Campbell, Helen continua tentando preservar sua independência dentro da organização. Sua nova condição de esposa do primeiro-ministro britânico deveria representar uma vantagem estratégica para os Black Doves, mas, na prática, parece estar limitando sua participação em operações externas.
Robert Conteh (Babou Ceesay), que assumiu o posto de contato responsável por Helen após o desaparecimento de Reed, demonstra crescente desconfiança em relação à agente. Ele deseja saber o quanto ela conhece sobre Sam e Laila, sua parceira na missão de Paris, e revela que dois integrantes dos Black Doves foram assassinados no último mês. A organização também está procurando Reed, cuja ausência começa a provocar suspeitas sobre sua possível participação nos acontecimentos.
Conteh deixa claro que Helen não possui a liberdade que imagina e que sua associação com Sam pode colocá-la em uma posição particularmente delicada. A advertência não produz o efeito esperado, porque Helen continua convencida de que pode investigar a conspiração sem depender da autorização de seus superiores.
Ela procura Laila (Ambika Mod), a agente que a acompanhou durante o roubo dos arquivos em Paris, mas o reencontro rapidamente se transforma em uma perseguição por homens armados. As duas precisam escapar atravessando uma galeria de arte em Somerset House, numa sequência que utiliza o espaço e as instalações artísticas para criar situações de ação e comédia.
A cena é uma das mais divertidas do episódio justamente pelo contraste entre o ambiente sofisticado e a violência que se desenvolve entre as obras expostas. Helen e Laila precisam improvisar para escapar dos perseguidores, enquanto a série explora a diferença entre suas personalidades e a facilidade com que transformam uma situação potencialmente fatal em uma troca de comentários irônicos.
Depois de conseguirem fugir, Helen propõe que continuem trabalhando juntas, mas Laila recusa a oferta e pede que ela não volte a procurá-la. A rejeição reforça o isolamento crescente de Helen, que começa a perceber como sua posição política, antes considerada uma vantagem, pode estar afastando-a das atividades e das pessoas que sustentavam sua identidade profissional.

Reed está viva, mas o que aconteceu em Wildflower?
Uma das principais revelações do episódio confirma que Reed não foi assassinada. A antiga chefe de Helen está sendo mantida sob custódia pelos próprios Black Doves, e Conteh acredita que ela possa ter alguma responsabilidade na eliminação dos agentes ligados à operação Wildflower.
Durante o interrogatório, ele apresenta a gravação de Ida Povetkin e exige explicações sobre os acontecimentos de Berlim Oriental. Descobrimos então que Reed passou mais de cinco anos infiltrada em uma organização terrorista chamada Kestrel, numa das primeiras missões de sua carreira. A operação ocorreu durante a década de 1980 e envolveu pessoas ligadas aos serviços de inteligência soviéticos, entre elas Alexi Chernov, o diplomata russo que Helen encontrou em Paris.
Chernov trabalhava para a KGB e mantinha relações com a Kestrel, organização que aparentemente esteve envolvida em acontecimentos violentos ainda não esclarecidos. Segundo Conteh, todos os participantes da operação estão mortos, com exceção de Reed, embora Ida tivesse descoberto que Chernov procurava alguém identificado como o único sobrevivente de Wildflower.
A contradição é evidente e levanta novas dúvidas sobre a versão apresentada pela organização. Se Reed é realmente a única sobrevivente, quem Chernov está tentando encontrar? E por que uma operação realizada décadas antes voltou a provocar assassinatos justamente agora?
Reed permanece evasiva e se recusa a esclarecer o que realmente aconteceu, comportamento que apenas intensifica as suspeitas sobre sua participação na conspiração. A personagem, que na primeira temporada parecia controlar praticamente todas as informações relevantes, agora se encontra em uma posição vulnerável, pressionada por pessoas que talvez conheçam muito menos sobre seu passado do que imaginam.
Também é interessante observar como Black Doves começa a deslocar seu mistério para acontecimentos anteriores à história que conhecíamos. Se a primeira temporada estava concentrada nas consequências de um assassinato e nas relações pessoais de Helen, agora a narrativa parece interessada em explorar a própria origem das operações clandestinas que sustentam a organização.
Sam descobre quem está por trás dos assassinatos
Paralelamente, Sam continua investigando o contrato que aceitou para escapar da prisão, mesmo sabendo que seus empregadores não tolerariam qualquer tentativa de descobrir suas identidades. Lenny encontra informações sobre outro profissional que recebeu uma proposta semelhante, embora sua tarefa não envolvesse assassinar ninguém, mas armazenar armas em uma propriedade de Londres.
Sam vai até o endereço indicado e acaba encontrando Patrick (Sam Riley), o homem responsável por sua contratação. A visita não é recebida com entusiasmo, porque Patrick deixa claro que Sam deveria apenas cumprir as ordens recebidas, sem investigar quem está pagando pelos serviços ou quais interesses estão envolvidos.
Para garantir sua obediência, Patrick apresenta uma gravação comprometedora de Helen assassinando um homem e ameaça divulgar as imagens caso Sam se recuse a continuar trabalhando para ele. A chantagem é especialmente cruel porque demonstra que os contratantes conhecem a relação entre os dois amigos e compreendem exatamente qual é o ponto mais vulnerável do assassino.
Sam também descobre que está trabalhando para a Kestrel, a mesma organização terrorista que Reed havia infiltrado durante a Guerra Fria. A revelação estabelece uma ligação direta entre os assassinatos, o desaparecimento da antiga chefe dos Black Doves e a operação Wildflower, embora ainda não esteja claro qual é o objetivo final da conspiração.
Patrick, entretanto, não pretende permitir que Sam tenha tempo para avaliar suas descobertas e anuncia que existe um novo alvo, alguém que deverá ser eliminado naquela mesma noite. A escolha da vítima demonstra que seus empregadores estão interessados não apenas em utilizar suas habilidades, mas em garantir que ele permaneça completamente submetido às ordens recebidas.

Wallace começa a desconfiar de Helen
Enquanto isso, Wallace enfrenta uma crise cada vez mais evidente no casamento. Dani, sua antiga assistente, insinuou que Helen poderia estar mantendo um relacionamento extraconjugal, aumentando as suspeitas de um homem que já havia reconhecido, no primeiro episódio, que a convivência com a esposa parecia uma encenação.
A situação se torna especialmente delicada porque Wallace acaba de assumir o cargo de primeiro-ministro e precisa apresentar uma imagem de estabilidade familiar justamente quando começa a desconfiar de praticamente tudo que conhece sobre a mulher com quem se casou.
Durante uma conversa, ele pergunta diretamente se Helen pretende abandonar o casamento, e a resposta dela mistura sinceridade e manipulação de uma maneira que torna difícil identificar onde termina uma e começa a outra. Helen admite que nem sempre está feliz e que existem momentos em que precisa se esforçar para permanecer ao lado do marido, mas insiste que o ama, argumentando que não teria suportado tantos anos de compromissos políticos se seus sentimentos fossem inteiramente falsos.
O diálogo é interessante porque o público conhece a origem fraudulenta da relação, mas também acompanhou o desenvolvimento de sentimentos que não parecem simplesmente inventados. Helen pode ter se aproximado de Wallace como parte de uma missão, mas construiu uma família, teve filhos e compartilhou anos de convivência com um homem que desconhece praticamente tudo sobre sua verdadeira identidade.
A questão é que ela já não consegue separar completamente a vida que escolheu daquela que foi obrigada a representar. Wallace, por sua vez, parece estar cada vez mais próximo de reconhecer que existe algo profundamente errado no casamento, embora ainda não possua informações suficientes para compreender a dimensão da mentira.
Sam é obrigado a matar a própria possibilidade de felicidade
A parte mais dolorosa do episódio, entretanto, pertence a Sam, que havia iniciado uma aproximação afetiva com Jerry (Samuel Barnett), o concierge do hotel onde está hospedado. Os dois passaram uma noite juntos e começaram a conversar sobre a possibilidade de desenvolver um relacionamento, oferecendo ao assassino uma oportunidade inesperada de construir alguma coisa fora do universo da violência.
A solidão de Sam sempre esteve entre os aspectos mais interessantes do personagem, especialmente porque sua aparente naturalidade diante da morte contrasta com a dificuldade de lidar com os próprios sentimentos. Na primeira temporada, sua relação com Michael já havia demonstrado como a vida profissional interfere em qualquer tentativa de alcançar estabilidade emocional, mas Jerry parecia representar uma nova possibilidade.
Patrick, porém, escolhe justamente Jerry como o próximo alvo, utilizando a gravação comprometedora de Helen para obrigar Sam a cometer o assassinato. A decisão revela o grau de crueldade dos responsáveis pela conspiração, que não precisam apenas ameaçar a vida do assassino para controlá-lo, mas podem destruir aquilo que ele começa a considerar importante.
Antes de executar a missão, Sam encontra Williams (Ella Lily Hyland) em um bar e percebe que ela está apaixonada por Eleanor (Gabrielle Creevy), embora ainda não tenha conseguido admitir seus sentimentos. Ele aconselha a amiga a não desperdiçar a oportunidade de viver esse relacionamento, lembrando que o arrependimento por aquilo que deixamos de fazer pode acompanhar uma pessoa durante toda a vida.
A conversa adquire uma dimensão particularmente trágica porque Sam está prestes a destruir sua própria possibilidade de felicidade, justamente quando recomenda que outra pessoa não permita que o medo ou a hesitação impeçam uma aproximação amorosa.
Mais tarde, ele posiciona o rifle, observa Jerry pela mira e dispara, cumprindo a ordem que recebeu para proteger Helen. O assassinato encerra o episódio com uma crueldade que contrasta diretamente com o humor das sequências anteriores, porque agora a violência deixa de parecer um elemento estilizado de entretenimento e passa a produzir consequências emocionais impossíveis de ignorar.
Jerry não estava envolvido na conspiração, não representava uma ameaça e aparentemente desconhecia os conflitos que cercavam Sam. Sua morte serve apenas para demonstrar até onde Patrick está disposto a chegar para controlar o assassino e, principalmente, como a vida de Sam impede qualquer tentativa de construir relações afetivas duradouras.
O humor, a violência e o preço de uma vida dupla
O segundo episódio de Black Doves funciona particularmente bem quando confronta a naturalidade com que seus personagens cometem assassinatos com o sofrimento que essas mesmas ações podem provocar. No início, Sam mata uma mulher idosa e come um de seus biscoitos, numa sequência construída para provocar um riso desconfortável. No encerramento, ele assassina um homem com quem começava a desenvolver uma relação afetiva, obrigando o espectador a reconsiderar a violência que vinha sendo apresentada quase como uma brincadeira.
A contradição não é nova nas histórias sobre assassinos carismáticos, mas Joe Barton parece interessado em explorá-la de maneira mais explícita nesta temporada. Helen e Sam são personagens pelos quais desenvolvemos simpatia, embora ambos sejam capazes de atitudes moralmente indefensáveis, e a série frequentemente nos convida a compreender suas escolhas sem necessariamente exigir que reconheçam a gravidade do que fazem.
Também existe um paralelo interessante entre as trajetórias dos protagonistas. Helen está desesperada para provar que continua sendo uma espiã, enquanto Sam começa a perceber que talvez não consiga ser outra coisa além de um assassino. Ela teme perder a identidade profissional que construiu ao longo dos anos, enquanto ele parece compreender que essa mesma identidade lhe roubou praticamente todas as possibilidades de construir um futuro diferente.

O momento em que Sam aconselha Williams a declarar seus sentimentos por Eleanor é especialmente revelador porque demonstra que ele compreende perfeitamente a importância do amor, mas acredita que precisa sacrificá-lo para preservar a pessoa com quem mantém sua relação mais importante. A amizade com Helen continua sendo seu principal vínculo afetivo, embora protegê-la agora signifique aceitar ordens de pessoas que não hesitam em utilizar seus sentimentos contra ele.
Wallace, por outro lado, talvez seja o personagem que mais se aproxima de uma percepção verdadeira da própria realidade, justamente porque começa a desconfiar da encenação que sustenta sua vida conjugal. Enquanto Helen e Sam continuam tentando controlar as consequências de suas escolhas, o primeiro-ministro percebe que alguma coisa está errada, mesmo sem conhecer a dimensão do problema.
A conspiração envolvendo Wildflower e Kestrel ainda está longe de ser esclarecida, mas o episódio estabelece uma ligação importante entre o passado de Reed e os assassinatos que ameaçam os Black Doves. A existência de um sobrevivente desconhecido, a participação de Chernov e o silêncio da antiga chefe sugerem que os acontecimentos de Berlim Oriental terão consequências muito maiores do que imaginávamos.
Por enquanto, entretanto, a revelação mais significativa talvez não esteja no mistério de espionagem, mas na escolha de Sam, que sacrifica a possibilidade de amar para proteger uma amiga cuja própria vida também é sustentada por mentiras. Em um universo no qual praticamente todos trabalham para alguém e nenhuma informação é realmente segura, os sentimentos parecem ser a única coisa que ainda pode transformar uma obrigação profissional em uma tragédia pessoal.
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