Atenção: o texto contém spoilers do terceiro episódio da segunda temporada de Black Doves, “P Is for Poison”.
A segunda temporada de Black Doves chega à metade com uma conspiração que começa a conectar o passado de Reed (Sarah Lancashire), as atividades clandestinas de Helen (Keira Knightley) e os assassinatos que Sam (Ben Whishaw) foi obrigado a cometer. O terceiro episódio, “P Is for Poison”, também amplia uma contradição que vem se tornando cada vez mais importante: enquanto Helen faz praticamente qualquer coisa para preservar sua vida como espiã, Sam começa a questionar se essa mesma vida merece tantos sacrifícios.
Depois de matar Jerry, o concierge com quem começava a desenvolver um relacionamento, Sam está emocionalmente destruído. Helen, entretanto, continua concentrada na investigação de Wildflower e na possibilidade de resgatar Reed, sem compreender inteiramente o preço que o amigo está pagando para protegê-la. A diferença entre os dois fica evidente à medida que os acontecimentos avançam, especialmente quando descobrimos que alguém está utilizando a lealdade de Sam como instrumento para destruir os Black Doves.

Helen procura respostas e envolve Dani na investigação
Helen decide invadir o apartamento de Dani (Agnes O’Casey), antiga assistente de Wallace, para convencê-la a ajudá-la a acessar os arquivos dos Black Doves. A proposta evidentemente não agrada à jovem, que não parece particularmente interessada em participar de mais uma operação clandestina, mas acaba aceitando depois que Helen insiste.
O plano envolve a utilização de uma lente de contato especial, que permite a Helen acompanhar o que Dani está vendo enquanto procura informações sobre Wildflower. A sequência reafirma a facilidade com que a série transforma situações de espionagem em cenas de humor, especialmente porque Dani precisa improvisar diante de pessoas que não deveriam encontrá-la naquele local.
A busca não produz o resultado esperado, já que o arquivo de Wildflower está vazio. A situação se complica quando Robert Conteh (Babou Ceesay) aparece e começa a fazer perguntas sobre Reed. Dani consegue disfarçar suas intenções, mas a conversa permite que Helen descubra que a organização sabe onde sua antiga chefe está sendo mantida.
Dani também deixa claro que a ajuda prestada não foi gratuita e que Helen agora lhe deve um favor. É uma observação aparentemente inofensiva, mas bastante significativa em uma série na qual praticamente todas as relações acabam se transformando em algum tipo de negociação.
Sam recebe uma nova missão e começa a questionar Helen
Sam procura abrigo na casa de Lenny Lines (Kathryn Hunter) depois de assassinar Jerry, porque não consegue suportar a ideia de retornar ao hotel e passar pela recepção onde o rapaz trabalhava. Lenny oferece hospedagem, embora imponha condições e retire sua arma, demonstrando uma preocupação que contrasta com a dureza habitual da personagem.
Na manhã seguinte, Patrick (Sam Riley) aparece para anunciar o próximo alvo e explicar as motivações da organização que representa. Segundo ele, a Kestrel pretende destruir os Black Doves porque considera a existência de uma rede de espionagem dedicada à comercialização de informações uma ameaça que precisa ser eliminada.
Patrick também questiona a lógica moral de Sam, argumentando que ele atribui à vida de Helen um valor superior ao das pessoas que mata para protegê-la. É uma provocação especialmente cruel depois do assassinato de Jerry, mas que obriga o personagem a confrontar uma contradição que acompanha sua trajetória desde a primeira temporada.
Sam não parece convencido de que os objetivos da Kestrel sejam necessariamente nobres, mas começa a demonstrar um ressentimento cada vez mais evidente em relação aos Black Doves e à própria Helen. Ele aceita o novo contrato e descobre que deverá assassinar Alexi Chernov (Goran Kostic), o diplomata russo ligado à antiga operação Wildflower.
A escolha não poderia ser mais complicada, porque Helen está investigando Chernov e pretende encontrá-lo durante um jantar organizado por Wallace.
O passado de Helen começa a despertar suspeitas
Enquanto se prepara para acompanhar o marido em seus compromissos oficiais, Helen é convocada para uma conversa com Jim Perryman, um agente do MI5 responsável por verificar aspectos de seu passado e garantir que a família do primeiro-ministro não represente uma vulnerabilidade para a segurança britânica.
O problema é que Helen construiu sua identidade sobre informações falsas, e a posição de Wallace torna cada vez mais difícil impedir que alguém examine sua história com atenção.
Perryman começa fazendo perguntas sobre os pais de Helen, supostamente enterrados no Quênia, e deseja saber o nome do cemitério onde estão sepultados. Em seguida, menciona Bonnie Weir, apresentada como sua meia-irmã, que teria tentado entrar em contato repetidas vezes com o governo para revelar essa relação familiar.
Helen procura manter a compostura e responde como alguém acostumada a mentir sob pressão, mas a conversa assume uma dimensão mais ameaçadora quando Perryman informa que Bonnie morreu na prisão cerca de um ano antes.
A informação sugere que acontecimentos anteriores ao recrutamento de Helen pelos Black Doves podem estar prestes a comprometer sua identidade. Não se trata mais apenas de esconder de Wallace que trabalha como espiã, mas de impedir que os serviços de inteligência britânicos descubram que a mulher do primeiro-ministro talvez não seja quem afirma ser.
É uma mudança particularmente interessante porque, pela primeira vez, a ameaça não vem necessariamente de outro assassino ou de uma organização criminosa, mas dos próprios mecanismos de segurança do Estado que Helen acredita conseguir manipular.

Helen e Sam discordam sobre o futuro dos Black Doves
Helen continua tentando localizar Reed e acaba recorrendo novamente a Laila (Ambika Mod), apesar das dificuldades que as duas enfrentaram nos episódios anteriores. A missão envolve capturar um integrante da organização para descobrir onde a antiga chefe está sendo mantida.
Sam também é chamado para participar, mas demonstra pouca disposição para continuar arriscando a vida em defesa dos Black Doves. A discussão entre os dois expõe uma diferença fundamental de perspectivas, porque Helen considera importante preservar a organização que lhe ofereceu uma identidade e uma carreira, enquanto Sam começa a enxergá-la como parte do sistema responsável por sua própria infelicidade.
Para Helen, abandonar os Black Doves significaria abrir mão de uma dimensão essencial daquilo que acredita ser. Para Sam, continuar trabalhando para pessoas que tratam vidas humanas como recursos descartáveis parece cada vez menos justificável.
O problema é que nenhum dos dois consegue simplesmente se afastar. Helen depende dos Black Doves para sustentar a vida que construiu ao lado de Wallace, enquanto Sam está sendo chantageado pela Kestrel com uma gravação capaz de comprometer definitivamente a amiga.
Quando Helen menciona que participará de um jantar com Alexi Chernov e sua esposa, Katia (Sylvia Hoeks), Sam percebe que terá uma oportunidade de cumprir a missão recebida de Patrick. Ele não revela suas intenções e procura Williams (Ella Lily Hyland) e Eleanor (Gabrielle Creevy) para organizar o assassinato.
Um jantar diplomático termina em assassinato
Wallace e Helen recebem Alexi e Katia Chernov em um jantar que deveria contribuir para as discussões diplomáticas anteriores à conferência internacional organizada pelo governo britânico. A presença do casal russo é politicamente delicada, mas Helen utiliza sua influência para facilitar o encontro, apesar das objeções de Cecile Mason (Neve Campbell), representante americana.
A reunião também interessa à espiã por motivos bastante diferentes daqueles de seu marido, já que ela pretende descobrir o que os Chernov sabem sobre a morte de Ida Povetkin, a operação Wildflower e os acontecimentos de Berlim Oriental.
Enquanto Wallace conversa com os convidados sobre questões internacionais, Helen aproveita um momento a sós com Katia no banheiro para fazer perguntas sobre o suposto roubo ocorrido na suíte do casal em Paris. Ela também menciona a morte da antiga empregada e procura compreender o envolvimento de Alexi com os serviços de inteligência soviéticos.
Katia não oferece respostas definitivas, mas a conversa sugere que Helen ainda não conhece a extensão dos acontecimentos que está investigando.
Enquanto isso, Sam, Williams e Eleanor organizam o assassinato nos bastidores do jantar. A estratégia envolve envenenar a comida de Chernov, aproveitando as mudanças de pedidos e a movimentação dos funcionários que servem os convidados.
Eleanor participa da operação disfarçada de garçonete e ajuda a garantir que a substância seja consumida pelo alvo correto. A sequência reforça o humor característico da série, já que um jantar diplomático de alto nível se transforma em uma operação de assassinato praticamente diante dos olhos do primeiro-ministro britânico.
A missão é bem-sucedida, e Chernov morre envenenado no carro, depois de deixar o encontro com Wallace e Helen.
Quando descobre que Sam matou justamente o homem que ela pretendia investigar, Helen reage com indignação, principalmente porque ele não a avisou de suas intenções. Para a espiã, a morte representa a perda de uma fonte importante de informações; para Sam, foi simplesmente mais uma ordem que precisou cumprir para proteger a amiga.
A amizade entre Helen e Sam começa a mostrar suas fissuras
A morte de Chernov evidencia como os dois protagonistas estão trabalhando em direções potencialmente incompatíveis. Helen pretende descobrir a verdade sobre Wildflower e impedir que os Black Doves sejam destruídos, enquanto Sam precisa eliminar justamente as pessoas que poderiam ajudá-la a alcançar esse objetivo.
A situação se torna ainda mais delicada porque Sam não pode revelar completamente as ameaças que recebeu de Patrick sem colocar Helen em perigo. Sua lealdade permanece inabalável, mas começa a adquirir uma dimensão quase autodestrutiva.
Também é curioso observar como Helen continua cobrando transparência do amigo enquanto mantém praticamente todas as pessoas ao seu redor mergulhadas em mentiras. Ela engana Wallace, manipula Dani, desconfia de Conteh e utiliza as habilidades de Sam quando precisa de ajuda, mas parece ter dificuldade para reconhecer que ele também está pagando um preço pelas escolhas que ambos fizeram.
A série não apresenta Helen como uma personagem inocente, o que talvez seja uma de suas maiores qualidades. Sua inteligência, seu humor e sua capacidade de improvisação tornam suas atitudes compreensíveis, embora isso não signifique que sejam sempre defensáveis.

Reed é Wildflower, e Sam recebe sua última missão
Depois de conseguir informações sobre o paradeiro de Reed, Helen começa a preparar uma operação para libertá-la da custódia dos Black Doves. O plano envolve Sam e Laila, além da possibilidade de recorrer novamente a Williams e Eleanor.
Ao mesmo tempo, Conteh recebe informações que colocam Sam e Laila entre os novos alvos da organização. Ele autoriza contratos para eliminá-los, demonstrando que os Black Doves já não fazem distinções claras entre antigos aliados e possíveis inimigos.
Laila é surpreendida por um atirador quando está próxima de um estabelecimento em Londres, e o episódio deixa seu destino em aberto, sem confirmar se conseguiu escapar do ataque.
A situação de Sam se torna ainda mais complicada quando Patrick anuncia a identidade de seu último alvo. Depois de assassinar Erik Klein, Spitfire, Jerry e Alexi Chernov, ele finalmente descobre quem é a pessoa que a Kestrel mais deseja eliminar.
O nome é Reed, identificada como Wildflower.
A revelação altera a interpretação de tudo que aconteceu até agora, porque demonstra que a operação de Berlim Oriental está diretamente ligada à antiga chefe de Helen e que os assassinatos provavelmente foram organizados para alcançar alguém que conhece detalhes comprometedores do passado.
O problema é que Sam acaba de concordar em participar da missão organizada por Helen para resgatar Reed. Ele precisará acompanhar a amiga até o local onde a mulher está sendo mantida, enquanto seus contratantes esperam que cumpra a ordem de assassiná-la.
A conspiração começa a ameaçar a própria amizade dos protagonistas
O terceiro episódio de Black Doves deixa claro que o mistério da Kestrel não está apenas relacionado a uma antiga operação de espionagem, mas também a uma tentativa de destruir os vínculos que sustentam a organização. Ao contratar Sam para eliminar agentes e finalmente ordenar a morte de Reed, Patrick transformou a lealdade do assassino a Helen em uma arma contra os próprios Black Doves.
A contradição é especialmente cruel porque Sam não deseja necessariamente proteger a organização. Sua prioridade sempre foi Helen, mas agora as duas coisas parecem estar se tornando incompatíveis, já que preservar a amiga pode exigir que ele destrua pessoas fundamentais para a vida que ela construiu.
Helen, por sua vez, enfrenta ameaças em todas as direções. O casamento com Wallace continua marcado pela desconfiança, o MI5 começou a investigar seu passado e seus superiores já não parecem dispostos a permitir que conduza operações por conta própria. A posição que deveria torná-la uma das agentes mais valiosas dos Black Doves também a transformou em um alvo particularmente vulnerável.
A série continua explorando essas contradições com humor, embora os acontecimentos estejam assumindo consequências cada vez mais graves. A facilidade com que Sam e Eleanor conseguem assassinar um diplomata durante um jantar oficial é quase absurda, mas demonstra como o mundo aparentemente organizado das instituições políticas pode ser infiltrado por personagens que não reconhecem qualquer limite moral.
Ao mesmo tempo, a revelação de que Reed é Wildflower desloca o centro da conspiração para uma personagem cuja trajetória permanece cercada de segredos. Se ela foi a única sobrevivente de uma operação realizada décadas antes, é possível que tenha informações que comprometam não apenas a Kestrel, mas também os próprios Black Doves.
O episódio termina, portanto, com uma situação que parece impossível de resolver sem novas traições. Helen pretende salvar Reed para descobrir a verdade, Sam recebeu a ordem de assassiná-la e os Black Doves estão interessados em eliminar qualquer pessoa que ameace seus interesses.
Depois de sacrificar Jerry para proteger Helen, Sam terá que decidir até onde está disposto a levar essa lealdade, especialmente quando ela começa a exigir não apenas a morte de desconhecidos, mas a destruição da própria organização que sua melhor amiga deseja preservar.
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