A cafonice calculadíssima de All’s Fair tem seus momentos de pesquisa histórica. Entre roupas extraordinárias, divórcios milionários e o dramalhão que Kim Kardashian e Ryan Murphy abraçam com tanta convicção, a segunda temporada recupera uma festa que realmente aconteceu: o Baile dos Escorpiões, organizado por Grace Kelly para comemorar seus 40 anos. Elizabeth Taylor estava entre os convidados, usando uma capa tão teatral que atravessou décadas até encontrar um novo endereço no guarda-roupa das Kardashian.
Segundo Kim, foi a história dessa peça que levou Murphy a incorporar uma festa semelhante à vida de Allura Grant. A capa pertence hoje a Kris Jenner, que a emprestou à filha para a série. A obsessão de Kim por Liz ganhou, assim, figurino e espaço no roteiro.
É uma conexão perfeita para uma produção que transforma luxo em linguagem. Mas a história da anfitriã original acrescenta algo que o brilho das fotografias não entrega imediatamente: Grace estava incomodadíssima com a chegada aos 40. O baile também seria uma maneira de atravessar esse aniversário.

Uma princesa divina, assustada com os 40
Em novembro de 1969, Grace vivia em Mônaco havia 13 anos, desde o casamento com Rainier III, em 1956. A estrela de Hollywood havia se tornado princesa, preservando uma imagem de elegância que continuaria inspirando gerações. Nas fotografias daquela noite, está divina, o que torna especialmente desconcertante conhecer sua percepção sobre a própria idade.
Numa entrevista a William B. Arthur publicada pela revista LOOK em 16 de dezembro de 1969, Grace descreve a chegada aos 40 como um choque. Na transcrição preservada pelo arquivo independente Grace&Family, ela demonstra espanto por ter alcançado tão depressa uma idade que sabia que chegaria. O jornalista tenta relativizar sua preocupação, dizendo que já passou dos 50. Grace responde distinguindo a experiência masculina da feminina: “Para uma mulher, é uma tortura, o fim”. Em seguida, explica que organizaria uma festa para escorpianos para aliviar o sofrimento e depois deixaria de pensar na idade.
A sequência da entrevista ajuda a compreender o ambiente daquela cobrança: vêm perguntas sobre peso, exercícios, cremes e cabelos brancos. A mulher inquieta com a passagem do tempo é imediatamente convidada a explicar como administra seus sinais. Até a possibilidade de voltar ao cinema aparece atravessada pela dúvida sobre continuar sendo desejada profissionalmente.
Um registro íntimo reforça essa relação com a aparência. Segundo uma reportagem do The Irish Times sobre uma exposição dedicada à princesa, na manhã de 12 de novembro, seu aniversário, Grace anotou no diário o peso e as medidas do corpo. A mulher celebrada como um ideal de beleza também parecia submeter a própria imagem a uma avaliação rigorosa.
O pacto entre Grace e Elizabeth Taylor
Liz compartilhava aquela ansiedade. Em uma entrevista a Johnny Carson, em 1992, ela contou que as duas haviam conversado sobre o desconforto de completar 40 anos e decidido enfrentar a ocasião com grandes festas. Taylor foi à comemoração de Grace em Monte Carlo; Grace retribuiu a visita no aniversário de 40 anos da amiga, em Budapeste, em 1972.
Não há, nas fontes consultadas, uma identificação segura do primeiro encontro entre elas. O relato de Taylor, entretanto, oferece algo mais revelador do que uma data: duas mulheres cuja beleza era observada publicamente dividiam uma inquietação privada e haviam encontrado uma maneira de se acompanhar nessa passagem.
A presença de Grace em Budapeste está documentada em fotografias de arquivo. Outros registros mostram as duas com Richard Burton no Gala da Cruz Vermelha de Mônaco, em agosto de 1971. O Baile dos Escorpiões fazia parte de uma convivência que continuou nos anos seguintes.

Para entrar, era preciso ser de Escorpião
O baile aconteceu no sábado, 15 de novembro de 1969, no Hôtel Hermitage, em Monte Carlo, três dias depois do aniversário de Grace. Seu interesse por astrologia vinha dos tempos de Hollywood: Carroll Righter, conhecido por atender celebridades, chegou a visitá-la nas filmagens de O Cisne, em 1956. Segundo a Vanity Fair espanhola, ela recorreu ao astrólogo na organização da comemoração.
A lista, com aproximadamente 60 convidados, obedecia a um critério peculiar: era preciso ser de Escorpião ou casado com alguém do signo, com exceções para os familiares da princesa. Entre os presentes estavam Rock Hudson, Virna Lisi, Josephine Baker, David Niven e sua mulher, Hjördis Genberg. Elizabeth Taylor, pisciana, entrou acompanhada do marido escorpiano, Richard Burton.
O vermelho e o preto dominavam o código de vestimenta. Retratos de escorpianos célebres, como Maria Antonieta e Auguste Rodin, completavam a decoração. O enorme bolo fúcsia tinha escorpiões dourados e uma grande reprodução do animal no topo. Segundo os relatos, precisou ser dividido para atravessar a porta do salão. Grace levou o tema a sério.
Balenciaga para Grace, escorpiões para Liz
Grace escolheu um vestido preto de veludo da coleção de alta-costura outono-inverno de 1966 da Balenciaga, com ombros à mostra e rosetas junto ao decote. Acrescentou broches de rubis e diamantes destacáveis de uma tiara Cartier recebida como presente de casamento. O cabelo estava preso em um coque trançado. Rainier usava camisa vermelha sob o smoking.
A teatralidade se estendia aos funcionários, que usavam perucas empoadas e trajes de veludo vermelho inspirados no século XVIII, carregando candelabros de prata com velas vermelhas. As fotografias preservam uma festa que parece já ter sido organizada pensando em como seria lembrada.
Taylor apareceu com sua capa de veludo preto Tiziani Roma, forrada de seda marfim, com dois escorpiões de cristal na frente e outro no capuz. A Christie’s documenta a procedência da peça e observa que Karl Lagerfeld trabalhava como designer freelancer para a marca naquele período. A autoria dele permanece uma possibilidade, sem confirmação.
E havia o diamante. Liz usou o extraordinário Taylor-Burton, de aproximadamente 69 quilates, recém-adquirido pelo marido. Sua entrada reunia uma estrela de cinema, uma roupa criada para a ocasião e uma das joias mais famosas do mundo. O próprio Grimaldi Forum destaca a presença do diamante ao recordar o aniversário da princesa.
A imagem de Taylor acabou se tornando uma das mais duradouras daquela noite. Podemos compreender por quê: a capa, os escorpiões e o diamante condensavam a extravagância que associamos à atriz. Grace era a anfitriã; Liz oferecia uma interpretação bastante pessoal do convite.

A fixação de Kim encontra seu figurino
Em 2011, a capa foi vendida no leilão da coleção de Elizabeth Taylor por US$ 74.500. Em outubro de 2026, reapareceu com Kris Jenner na apresentação da segunda temporada de All’s Fair, em Roma. Kim confirmou que a mãe era proprietária da peça e que havia permitido seu uso na série. Também explicou que Murphy decidiu criar o baile de Allura depois de conhecer a história do figurino.
A admiração de Kim por Taylor encontra aí uma expressão particularmente apropriada. Ao vestir a capa, ela se aproxima de uma imagem consagrada de beleza, poder e celebridade. A peça permite participar de uma história que começou muito antes dos reality shows e das redes sociais, quando Hollywood já sabia transformar roupas, joias e festas em acontecimentos públicos.
É também o tipo de referência que combina perfeitamente com All’s Fair: excessiva, luxuosa e absolutamente consciente do próprio efeito. A cafonice vem acompanhada de procedência.
Mas é Grace quem devolve humanidade ao espetáculo. A mulher de Balenciaga, cercada de estrelas, flores, velas e joias extraordinárias, temia uma idade que hoje parece tão jovem. O reconhecimento público de sua beleza não a protegia da sensação de estar perdendo alguma coisa.
Talvez seja essa a parte mais bonita da história. Grace e Liz não esperaram que o medo desaparecesse para celebrar. Foram à festa uma da outra, vestiram-se magnificamente e atravessaram os 40 acompanhadas. All’s Fair recupera a capa e os escorpiões. Por trás deles, permanece aquela conversa entre duas amigas tentando descobrir como envelhecer.


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