The Crown faz 10 anos: como a série mudou a imagem da monarquia

Há dez anos, em 4 de novembro de 2016, a Netflix estreou The Crown, uma série ambiciosa que pretendia revisitar o reinado de Elizabeth II, não apenas pelos acontecimentos históricos, mas pelas relações pessoais, escolhas políticas e conflitos familiares que marcaram uma das monarquias mais conhecidas do mundo. O projeto era de Peter Morgan, que já havia demonstrado seu fascínio pela rainha em A Rainha (2006), filme dirigido por Stephen Frears que deu a Helen Mirren o Oscar de melhor atriz.

Morgan não estava interessado exatamente em fazer uma biografia tradicional. Sua proposta era observar a relação entre a mulher e a instituição, entre a pessoa que Elizabeth poderia ter sido e a soberana que precisou se tornar. Era uma questão que ele já havia explorado na peça The Audience, sobre as audiências semanais da monarca com seus primeiros-ministros. Em The Crown, ganhou tempo, orçamento e liberdade para aprofundar personagens, conflitos e contradições.

O resultado foi uma das produções mais importantes da primeira década da Netflix como potência de conteúdo original, tanto pelo investimento quanto pela ousadia de acompanhar décadas de história, substituindo seu elenco principal a cada duas temporadas.

Mas, olhando retrospectivamente, The Crown também se tornou algo que talvez nem Morgan pudesse antecipar inteiramente: uma série que ajudou a humanizar Elizabeth II, reacendeu o interesse mundial pela monarquia britânica e, à medida que se aproximava de acontecimentos mais recentes, passou a enfrentar as próprias contradições de transformar pessoas reais em personagens.

A jovem Elizabeth e o peso de uma escolha que não foi sua

As duas primeiras temporadas, protagonizadas por Claire Foy, continuam sendo, para mim, as mais delicadas e consistentes da série. Encontramos uma jovem Elizabeth apaixonada por Philip, ainda aprendendo a lidar com as regras de sua posição e que, com a morte precoce do pai, George VI, é obrigada a assumir uma responsabilidade para a qual ninguém consegue estar verdadeiramente preparado.

Há algo profundamente melancólico nessa trajetória. Elizabeth não escolheu ser rainha naquele momento, tampouco poderia decidir como exerceria suas funções sem enfrentar séculos de tradição. Aos poucos, assistimos à transformação de uma mulher em símbolo, com tudo o que isso exige de renúncia, contenção e, muitas vezes, solidão.

Morgan foi especialmente eficiente ao explorar as tensões com Philip, o relacionamento com a irmã Margaret, a influência dos conselheiros e a relação com Winston Churchill. O que poderia ter sido uma sucessão de eventos históricos ganhou uma dimensão humana. A série nos permitia compreender decisões sem necessariamente concordar com elas.

E foi justamente aí que conquistou uma audiência muito além dos interessados na realeza. Não era preciso admirar a monarquia para reconhecer o drama de uma mulher aprisionada pelo próprio destino.

A série também ofereceu a Elizabeth uma oportunidade rara: apresentar suas inseguranças e sacrifícios a gerações que a conheciam apenas como uma senhora de roupas coloridas, chapéus impecáveis e uma expressão quase impenetrável. É difícil medir quanto isso contribuiu efetivamente para sua popularidade, mas não há como ignorar o papel de The Crown na renovação do interesse pela rainha durante seus últimos anos de vida.

A história vista por outro ângulo

Outro mérito das primeiras temporadas foi recuperar acontecimentos que muitos espectadores conheciam superficialmente ou sequer haviam ouvido mencionar. A Grande Névoa de Londres, a crise de Suez, o escândalo Profumo, a tragédia de Aberfan e os embates entre a Coroa e diferentes governos ganharam nova visibilidade.

A série não apenas reconstruía esses episódios com impressionante cuidado visual, mas convidava o público a reconsiderar personagens e decisões. Churchill, por exemplo, podia ser simultaneamente um estadista extraordinário e um homem envelhecido, orgulhoso e resistente às mudanças. Margaret, tantas vezes reduzida à imagem de princesa rebelde, surgia como uma mulher cujo desejo de amar e ser reconhecida frequentemente esbarrava no papel que lhe havia sido reservado.

É claro que The Crown nunca foi um documentário. Os diálogos privados, os sentimentos atribuídos aos personagens e muitas situações foram imaginados por Morgan. Mas, nas primeiras temporadas, a distância histórica parecia favorecer a liberdade dramática. Os personagens pertenciam a um passado suficientemente distante para permitir interpretações sem que cada conversa inventada provocasse uma controvérsia imediata.

Com Olivia Colman assumindo Elizabeth na terceira temporada, a série avançou para uma monarca mais experiente, menos disposta a questionar as regras que havia aprendido a representar. A mudança de elenco, inicialmente arriscada, reforçou a percepção do tempo e das transformações pessoais. Já não acompanhávamos a menina que se tornou rainha, mas a rainha que havia praticamente desaparecido dentro da própria função.

Charles, Camilla e a chegada inevitável de Diana

A entrada de Charles adulto e, posteriormente, de Diana mudou o centro emocional da narrativa. Até então, a série havia construído sua força ao mostrar como a instituição condicionava as escolhas de Elizabeth. Com Charles, começamos a observar o que acontecia com aqueles que cresciam à sua sombra.

Josh O’Connor encontrou um Charles vulnerável, inseguro, ressentido e frequentemente incapaz de compreender o impacto de suas próprias atitudes. Sua relação com Camilla, interpretada por Emerald Fennell, ganhou uma complexidade que durante muitos anos esteve ausente das narrativas populares sobre o casal.

Morgan não apagou os erros de Charles, nem a humilhação sofrida por Diana, mas procurou mostrar que havia uma história anterior ao casamento que fracassou diante do mundo. Charles e Camilla deixaram de ser apenas os antagonistas de um conto de fadas interrompido e passaram a ser vistos também como pessoas presas a escolhas familiares, convenções e expectativas que não correspondiam aos seus desejos.

Essa abordagem ajudou a tornar mais compreensível uma relação que durante décadas provocou enorme rejeição pública. Não é possível atribuir à série a posterior aceitação de Charles e Camilla, resultado de um processo muito mais longo, mas The Crown certamente participou da reconstrução cultural de suas imagens.

Então chegou Diana.

Interpretada inicialmente por Emma Corrin e, depois, por Elizabeth Debicki, a princesa alterou o equilíbrio da produção. Sua presença trouxe uma personagem conhecida por um público que não precisava consultar livros de história para lembrar o que havia acontecido. A tragédia, os conflitos conjugais, as entrevistas e o tratamento recebido pela imprensa ainda pertenciam à memória afetiva de milhões de pessoas.

Se antes The Crown podia sugerir o que Elizabeth pensava diante de Churchill ou como reagia às decisões de Margaret, agora precisava lidar com acontecimentos registrados em detalhes, testemunhos conflitantes e pessoas diretamente envolvidas que continuavam vivas.

E, principalmente, com uma personagem que nunca deixou de provocar paixões.

Quando a ficção começou a incomodar

A partir da quarta temporada, e especialmente nas duas últimas, The Crown passou a enfrentar questionamentos cada vez mais intensos sobre sua responsabilidade histórica. Era legítimo inventar conversas entre Charles e Diana? Atribuir sentimentos e intenções a personagens reais? Reconstruir encontros privados como se soubéssemos exatamente o que foi dito?

Essas perguntas, evidentemente, já existiam antes. Mas passaram a adquirir outra dimensão quando a série deixou de revisitar um passado distante e começou a dramatizar acontecimentos que muitos espectadores haviam acompanhado pela televisão.

A quinta temporada, lançada em novembro de 2022, chegou apenas dois meses depois da morte de Elizabeth II. A coincidência tornou sua recepção ainda mais delicada. A rainha deixava de ser uma figura histórica viva para se tornar uma personagem cuja memória passava a ser disputada por diferentes interpretações.

A essa altura, as tensões entre William e Harry também haviam se tornado públicas. O afastamento do príncipe mais novo, sua mudança para os Estados Unidos e as acusações envolvendo a imprensa e a própria família real tornavam inevitável que cada novo episódio fosse interpretado à luz dos conflitos contemporâneos.

Curiosamente, foi Harry quem ofereceu uma das observações mais interessantes sobre a produção.

Em 2021, durante uma entrevista a James Corden, afirmou que se sentia muito mais confortável com The Crown do que com as histórias publicadas sobre sua família nos tabloides britânicos. Sua explicação era simples: a série se apresentava como ficção, enquanto os jornais frequentemente ofereciam versões questionáveis como se fossem fatos.

Dois anos depois, em entrevista a Stephen Colbert, confirmou que assistia tanto aos episódios antigos quanto aos recentes e, quando perguntado se conferia as informações apresentadas, respondeu que sim.

A declaração era particularmente significativa porque Harry, mais do que qualquer outro integrante de sua geração, havia denunciado publicamente o impacto da exposição midiática sobre sua vida e a de sua mãe.

Havia, entretanto, uma ironia evidente. Ao mesmo tempo que reconhecia a natureza ficcional de The Crown, Harry participava de uma disputa pública sobre quem teria o direito de contar a história de sua família. Seu livro Spare, as entrevistas e o documentário produzido com Meghan para a própria Netflix também ofereciam uma versão pessoal de acontecimentos compartilhados com outras pessoas.

No fundo, todos estavam tentando controlar suas narrativas.

O final que não aconteceu como se imaginava

O planejamento de The Crown também passou por mudanças. Morgan havia concebido uma trajetória de seis temporadas, mas, em janeiro de 2020, anunciou que encerraria a produção na quinta. Meses depois, reconsiderou a decisão, explicando que precisava de mais espaço para desenvolver a complexidade dos acontecimentos que pretendia abordar.

A solução não foi avançar até o presente, mas dividir os anos finais da narrativa em duas temporadas. Com isso, Imelda Staunton, como Claire Foy e Olivia Colman antes dela, permaneceu dois anos no papel de Elizabeth.

A série acabou encerrando sua história em 2005, com o casamento de Charles e Camilla e a aproximação do reinado de seu desfecho, embora a verdadeira morte da rainha, em setembro de 2022, já tivesse acontecido quando os últimos episódios foram preparados.

Morgan preferiu não dramatizar diretamente a morte de Elizabeth. Em vez disso, construiu uma despedida simbólica, reunindo as diferentes fases da personagem e fazendo da passagem do tempo o verdadeiro centro do episódio final.

A sexta temporada chegou em duas partes, em novembro e dezembro de 2023, e terminou cercada por avaliações divididas. O tratamento dado à morte de Diana, a presença de aparições imaginadas e a crescente concentração da narrativa nos dramas familiares provocaram críticas. Para parte do público, a série havia perdido justamente aquilo que a tornara especial: a capacidade de relacionar os conflitos privados dos Windsor às transformações políticas e sociais do Reino Unido.

Também considero que, ao se aproximar de Diana, The Crown foi ficando cada vez mais dependente de episódios que o público já conhecia. A curiosidade sobre o que aconteceria com os personagens cedeu lugar à expectativa sobre como Morgan escolheria representar cada acontecimento. E essa mudança alterou profundamente nossa relação com a história.

Dez anos depois, qual é o legado de The Crown?

Talvez a maior conquista de The Crown tenha sido apresentar a monarquia britânica não como um conto de fadas, mas como uma instituição sustentada por pessoas que frequentemente precisavam sacrificar seus desejos para preservar uma imagem de continuidade.

A jovem Elizabeth compreendeu e aceitou essa lógica. Margaret sofreu por não conseguir se adaptar a ela. Charles passou boa parte da vida tentando conciliá-la com suas necessidades afetivas. Diana, por sua vez, expôs suas contradições ao público de uma maneira que a instituição jamais conseguiu controlar completamente.

É interessante observar como a série, que começou quase como uma elegia ao dever, terminou questionando o custo psicológico desse mesmo dever. A rigidez que parecia garantir a estabilidade da Coroa também contribuía para produzir ressentimento, isolamento, infelicidade e relações familiares profundamente difíceis.

Há, porém, outra contradição que merece ser lembrada. Ao humanizar seus personagens, The Crown também contribuiu para preservar o fascínio por uma instituição cuja relevância política e social é constantemente questionada. A série mostrou seus privilégios, seus erros e suas limitações, mas transformou tudo isso em um espetáculo irresistível.

De certa forma, Peter Morgan fez pela monarquia algo que poucos assessores de imprensa conseguiriam: deu profundidade dramática a pessoas que, por definição, foram educadas para esconder seus sentimentos.

Dez anos depois, as primeiras temporadas continuam extraordinárias. Claire Foy permanece, para mim, a Elizabeth mais convincente, não necessariamente por sua semelhança física, mas pela maneira como conseguiu mostrar o conflito entre o que a personagem desejava e aquilo que acreditava ser obrigada a fazer.

A série talvez tenha se perdido um pouco quando se aproximou demais da história que pretendia interpretar. Mas isso não diminui sua importância, nem o fato de ter transformado a maneira como milhões de espectadores passaram a olhar para Elizabeth II e sua família.

No fim, The Crown começou contando a história de uma mulher que precisava desaparecer para que a Coroa sobrevivesse. E terminou demonstrando como era impossível exigir o mesmo sacrifício de todos aqueles que vieram depois dela.


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