MobLand: recap do episódio 8 e o cadáver no lago dos Harrigan

Contém spoilers do oitavo episódio da segunda temporada de MobLand, “We Don’t Talk Anymore”, disponível no Paramount+.

A segunda temporada de MobLand chega ao oitavo episódio com uma família que parece cada vez menos capaz de distinguir seus inimigos daqueles que vivem sob o mesmo teto. Harry Da Souza (Tom Hardy) continua sendo o homem chamado para resolver todos os problemas dos Harrigan, mas suas soluções se tornaram tão brutais quanto as ações dos criminosos que enfrenta. Conrad (Pierce Brosnan) começa a perder o controle da própria mente, Maeve (Helen Mirren) manipula os mais jovens com uma crueldade impressionante e Kevin (Paddy Considine) já não parece disposto a sacrificar o pouco que lhe resta para manter a família funcionando.

Depois da armadilha preparada por Frankie Cooper (Johnny Flynn) no episódio anterior, Harry finalmente executa sua ameaça contra Michael, o filho de Frankie. A decisão, que deveria obrigar o rival a reconhecer sua força, produz exatamente o contrário. Ao transformar um confronto territorial em uma tragédia pessoal, Harry coloca sua própria família na linha de fogo.

Enquanto isso, os problemas que pareciam secundários começam a ganhar importância. Um homem recém-saído da prisão chega disposto a vingar a morte do pai, um segredo sobre a origem dos Harrigan vem à tona e uma descoberta no lago da propriedade de Conrad sugere que a polícia pode estar muito mais perto da família do que se imaginava.

A vingança de Harry e a morte de Michael Cooper

O sétimo episódio terminou com Harry ameaçando Michael, que estava preso, depois de escapar da armadilha de Frankie no cassino. Não se tratava de um blefe. Em “We Don’t Talk Anymore”, o corpo do rapaz é encontrado na prisão de Newgate, confirmando que Harry conseguiu executar o plano mesmo dentro de uma instituição supostamente protegida.

Mais tarde, Harry explica a Kevin como organizou o assassinato. Paul foi responsável por subornar um funcionário da prisão, permitindo que Jim G chegasse até Michael. A descrição é quase burocrática. Harry relata cada etapa como se estivesse explicando uma operação comercial particularmente complicada, sem demonstrar qualquer perturbação pelo fato de ter ordenado a morte de um jovem.

É justamente essa frieza que torna o personagem tão perturbador. Harry sempre foi apresentado como o profissional mais competente daquele universo, um homem capaz de negociar, intimidar e matar sem perder o controle. Entretanto, existe uma diferença entre empregar violência para impedir uma ameaça imediata e assassinar o filho de um adversário para demonstrar poder.

Harry cruza essa fronteira sem hesitar.

A conversa telefônica entre ele e Frankie é um dos momentos mais interessantes do episódio. Harry parece acreditar que, depois da morte de Michael, os dois podem reconhecer o custo da guerra e negociar uma trégua. Frankie, porém, está diante das fotografias do filho, tentando compreender uma perda que nenhuma demonstração de força será capaz de reparar.

Johnny Flynn abandona por alguns instantes a arrogância de Frankie para mostrar um homem devastado. Ele lembra a Harry que Michael era apenas um rapaz e que o próprio Harry também é pai. A advertência tem um significado evidente: Frankie agora conhece uma maneira de fazer seu inimigo experimentar a mesma dor.

O assassinato não encerra a guerra. Retira dela qualquer possibilidade de negociação racional.

Conrad revela a verdadeira origem dos Harrigan

Enquanto Harry e Frankie disputam o controle de Londres, Conrad enfrenta uma crise muito mais íntima. Em uma conversa com Eddie (Anson Boon), ele revela detalhes até então desconhecidos de sua infância e da origem do sobrenome Harrigan.

Conrad conta que cresceu sob a violência de Liam Patrick Francis, o homem que acreditava ser seu pai. Liam agredia brutalmente sua mãe, até que, pouco antes de morrer, ela revelou que seu verdadeiro pai biológico era Finn Burke, um homem de Killarney.

A revelação não trouxe uma reconciliação familiar. Conrad matou Liam, cortando sua garganta com uma tesoura de costura da mãe, e fugiu. Durante o caminho até Cork, conseguiu uma carona com um caminhoneiro que trabalhava para uma empresa chamada Harrigan’s Slaughterers. Foi dessa ligação que tirou o sobrenome que acabaria se tornando sinônimo de uma poderosa organização criminosa.

A história ajuda a compreender como Conrad construiu sua identidade. O homem que hoje exige lealdade absoluta e controla a família pelo medo nasceu de uma infância marcada pela violência, pela humilhação e pela descoberta de que sua própria origem era diferente daquela em que acreditava.

Mas conhecer o passado de Conrad não significa justificar seus atos. Ele transformou a experiência de ser submetido à violência em uma necessidade de exercê-la sobre todos ao redor. Até Eddie recebe uma advertência ameaçadora quando ultrapassa os limites da conversa.

É uma das melhores oportunidades da temporada para Pierce Brosnan mostrar algo além da extravagância de Conrad. Por trás do patriarca teatral, existe um homem que parece ter passado a vida tentando impedir que alguém volte a fazê-lo sentir o medo da infância.

Conrad está perdendo a cabeça?

A situação se torna ainda mais grave quando Conrad chama Kevin para discutir o futuro da organização. Depois de consultar um médico, ele começa a admitir que talvez seja necessário escolher alguém para assumir o comando da família.

Kevin não demonstra entusiasmo com as alternativas. Eddie é impulsivo e profundamente instável, enquanto Seraphina, embora inteligente, parece envolvida em projetos e alianças cuja verdadeira extensão ninguém conhece. Kevin também questiona a credibilidade da história que ela contou sobre Kat McAllister.

A conversa sobre sucessão revela que o problema dos Harrigan não se limita aos inimigos externos. A família não dispõe de uma liderança evidente para substituir Conrad, e o próprio Kevin, que talvez fosse a escolha mais lógica, parece esgotado.

É então que Conrad faz uma confissão surpreendente. Ele está vendo pessoas mortas.

Inicialmente, as aparições aconteciam à noite, mas agora também surgem durante o dia, especialmente nas áreas de mata ao redor da propriedade. Conrad se mostra assustado e incapaz de compreender o que está acontecendo. Kevin, diante da vulnerabilidade inesperada do pai, procura tranquilizá-lo.

O momento poderia representar uma aproximação rara entre os dois. Entretanto, quando Kevin retorna com uma bebida, Conrad recupera sua postura ameaçadora e aponta uma espingarda para o filho, exigindo que jamais conte a Bella ou a qualquer outra pessoa o que ouviu.

Kevin se recusa a aceitar a intimidação. Em vez de implorar pela própria vida, desafia o pai a disparar. Conrad acaba permitindo que ele vá embora, mas a violência destrói a intimidade que os dois haviam compartilhado minutos antes. O patriarca prefere ameaçar o homem que tentou ajudá-lo a correr o risco de ser visto como fraco.

A série ainda não esclarece a causa das visões. Elas podem representar um quadro de deterioração cognitiva, uma crise psicológica ou um recurso narrativo para materializar os fantasmas do passado. O que já está claro é que Conrad não consegue mais confiar inteiramente na própria percepção da realidade.

E um homem que construiu seu império sobre o controle absoluto dificilmente aceitará perder o controle de si mesmo.

Maeve, Eddie e Gina: uma manipulação cada vez mais perigosa

Maeve continua sendo uma das figuras mais destrutivas da família, embora sua maneira de agir seja diferente da de Conrad. Enquanto ele intimida pela violência explícita, ela prefere explorar inseguranças, desejos e segredos.

Em uma cena na sauna, Maeve volta a provocar Eddie e a alimentar a relação profundamente perturbadora estabelecida entre os dois. Quando ele demonstra desconforto, ela inverte a situação, acusa o rapaz de interpretar mal suas intenções e o obriga a se ajoelhar para pedir desculpas. Maeve grava a humilhação, criando mais um instrumento de controle sobre ele. Eddie teme especialmente que Conrad descubra o que está acontecendo.

A relação entre os dois deixou de ser apenas mais uma das excentricidades dos Harrigan. Maeve utiliza a confusão de Eddie sobre seu lugar na família para mantê-lo dependente de sua aprovação, submetendo-o a situações nas quais qualquer reação pode ser usada contra ele.

A estratégia é semelhante àquela que emprega com Gina, filha de Harry. Maeve continua insistindo para que a jovem simule uma tentativa de suicídio. Seu objetivo é provocar tamanho desespero em Harry que ele abandone suas responsabilidades com os Harrigan para proteger a filha. Agora, ela utiliza a libertação de um criminoso irlandês como argumento para convencer Gina de que está correndo um perigo ainda maior.

A ironia é que Maeve não precisa inventar a ameaça. Gina realmente pode estar em perigo, embora a suposta preocupação da matriarca esteja longe de ser desinteressada.

Quem é Mad Dog O’Connor?

O episódio começa com o funeral de Colm O’Connor, o criminoso conhecido como Medusa, cuja morte foi provocada por uma das operações envolvendo Harry, Eddie e Gina. Seu filho, Kelly O’Connor, apelidado de Mad Dog, acaba de sair da prisão depois de cumprir vinte anos por assassinato. Ele comparece ao enterro do pai e deixa claro que pretende encontrar os responsáveis por sua morte.

A chegada do personagem introduz uma nova ameaça justamente quando os Harrigan já enfrentam uma guerra contra Frankie Cooper e os interesses representados por Kat McAllister. O problema é que Mad Dog dispõe de uma pista concreta. Ao examinar imagens de segurança de um estabelecimento frequentado pelo pai, ele encontra registros de Eddie e Gina acompanhando os movimentos de Medusa antes de sua morte. O rosto de Gina aparece nas gravações, oferecendo um possível ponto de partida para sua investigação.

Ainda não existe uma aliança confirmada entre Mad Dog e Frankie, mas os dois agora têm motivos pessoais para buscar vingança contra Harry e os Harrigan.

Gina se transforma, assim, em uma das personagens mais vulneráveis da temporada. Ela está envolvida nas manipulações de Maeve, pode se tornar alvo da investigação de Mad Dog e ainda corre o risco de ser utilizada por Frankie para atingir Harry.

Quanto mais o pai tenta controlar os acontecimentos, mais ameaçada parece ficar a filha.

Harry e Jan: é possível voltar à vida normal depois de matar?

Outra sequência importante acompanha a aproximação entre Harry e Jan (Joanne Froggatt), depois que ela matou Donnie. Harry garante que cuidou do cadáver e eliminou os vestígios do crime. Para ele, a morte de Donnie pode ser racionalizada como uma consequência das próprias escolhas do homem, que colocou Jan em perigo. Mas Jan não consegue aceitar essa explicação com a mesma tranquilidade.

Ela sabe que matou uma pessoa e continua perturbada pelo que fez. Quando questiona Harry sobre os homens que ele próprio matou, fica evidente a diferença entre os dois. Jan ainda procura uma maneira de compreender a violência, enquanto Harry desenvolveu mecanismos para tratá-la como uma atividade cotidiana.

O contraste se torna ainda mais assustador quando ele menciona a morte recente de um rapaz, Michael Cooper, como se a idade da vítima não alterasse substancialmente sua avaliação do assassinato. Harry oferece à mulher a possibilidade de fugir com Gina e reconstruir a vida longe da organização. Jan pergunta se ele próprio não gostaria de abandonar tudo.

A falta de uma resposta convincente revela muito sobre o personagem. Harry parece sinceramente desejar proteger sua família, mas não consegue imaginar uma existência fora do universo que o tornou indispensável. Ele oferece aos outros uma liberdade que não parece considerar possível para si mesmo.

Em paralelo, o episódio encontra espaço para uma sequência de humor macabro envolvendo Paul. Harry e Kevin simulam que pretendem executá-lo, mas acabam obrigando-o a esquartejar o cadáver em decomposição de Donnie com uma motosserra e embalar os restos para descarte.

A cena evidencia o humor grotesco que sempre fez parte de MobLand, embora também exponha a facilidade com que a série alterna momentos de intimidade familiar e violência extrema.

O que significa o cadáver no lago dos Harrigan?

A revelação mais intrigante fica reservada para o encerramento. Durante uma conversa com a policial Kavanagh, Colin Tattersall insinua que possui uma fonte confidencial capaz de fornecer provas importantes contra os Harrigan. A informação estaria relacionada a algo escondido na propriedade da família, nos Cotswolds.

Posteriormente, enquanto Eddie atira pedras na água, a câmera mergulha no lago e revela um cadáver mantido submerso por pesos. A identidade do morto não é confirmada.

Uma das hipóteses é que se trate de JoJo, mas o episódio não oferece elementos suficientes para estabelecer essa identificação com segurança. Também não esclarece quem informou Tattersall sobre o corpo e qual seria a relação da vítima com os crimes investigados.

A descoberta é especialmente relevante porque surge justamente quando os Harrigan procuram se proteger de seus adversários externos. Se a polícia realmente possui uma fonte capaz de revelar segredos escondidos dentro da propriedade, a ameaça pode ser ainda maior do que a representada por Frankie Cooper. Uma investigação criminal poderia expor não apenas um assassinato, mas também a participação de diferentes membros da família em operações que até agora permaneceram ocultas.

Existe ainda uma coincidência narrativa interessante. Conrad passa o episódio atormentado por visões de mortos, enquanto um cadáver verdadeiro permanece escondido nas águas de sua propriedade. Os fantasmas que ele acredita enxergar podem ser resultado de sua deterioração, mas o corpo no lago representa uma ameaça concreta, impossível de afastar com intimidação.

O que esperar dos dois últimos episódios?

“We Don’t Talk Anymore” deixa MobLand diante de um problema narrativo interessante. A série construiu uma rede tão extensa de conflitos que agora precisa encontrar uma maneira de reuni-los sem transformar seu desfecho em uma sucessão de mortes e reviravoltas.

Frankie Cooper perdeu o filho e já não tem motivos para aceitar uma negociação. Mad Dog O’Connor chega decidido a descobrir quem matou seu pai. Maeve continua trabalhando para afastar Harry da família, enquanto Eddie parece cada vez mais vulnerável às suas manipulações. Seraphina e Bella pensam em alternativas para o futuro, Kevin perde a confiança no próprio pai e Conrad já não consegue distinguir completamente suas visões da realidade.

No centro de tudo está Harry. Tom Hardy construiu um personagem fascinante justamente pela economia de movimentos e palavras. Harry raramente demonstra medo, e sua capacidade de resolver problemas parece quase ilimitada. Entretanto, ao ordenar o assassinato de Michael, ele deixa de ser apenas o homem que administra a violência dos Harrigan para assumir plenamente a responsabilidade por uma decisão que pode destruir sua própria família.

A morte de Michael também recoloca uma questão que acompanha a série desde o início: até que ponto Harry é diferente dos homens para quem trabalha? Ele se considera um profissional, alguém que conhece as regras e faz aquilo que precisa ser feito. Mas essa distinção se torna cada vez mais difícil de sustentar quando a competência significa matar um jovem para atingir seu pai e depois tentar negociar uma paz.

A dois episódios do final, talvez o maior perigo para os Harrigan não seja Frankie, Mad Dog ou a investigação policial. Pode ser a incapacidade de reconhecer que as pessoas encarregadas de proteger a família também são aquelas que estão destruindo qualquer possibilidade de sobrevivência.

O próximo episódio de MobLand, intitulado “Nervous Breakdown”, está previsto para 13 de novembro, enquanto o final da temporada chega em 20 de novembro.


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