The Gilded Age: Peggy pode ser feliz sem abrir mão de si?

Falamos tanto dos desencontros de Marian e Larry que às vezes deixamos Peggy Scott em segundo plano. É curioso, porque, quando pensamos no que cada uma atravessou desde o início de The Gilded Age, a trajetória de Peggy reúne perdas e violências de uma dimensão muito diferente. Isso não torna os sentimentos de Marian menos importantes, mas nos faz perceber quanto sofrimento a série acumulou sobre sua outra protagonista antes de lhe oferecer a possibilidade de um amor correspondido.

Peggy fugiu para se casar com o homem que amava, teve um filho e foi levada a acreditar que o bebê havia morrido. Seu casamento foi anulado por interferência do pai, Arthur, que também entregou a criança para adoção. Quando descobriu que o menino estava vivo, ela recuperou uma esperança que logo lhe seria retirada: Thomas havia morrido antes que pudesse reencontrá-lo. Peggy precisou viver o luto pelo mesmo filho duas vezes, primeiro enganada, depois diante de uma perda definitiva.

Ainda tenho dificuldade de aceitar o raciocínio de Arthur. Ele acreditava estar protegendo a filha, mas como imaginar que inventar a morte de uma criança seria uma solução para qualquer coisa? Sua justificativa se apoiava na respeitabilidade e no futuro que desejava para Peggy. O problema é que, para preservar esse futuro, ele se autorizou a destruir a família que ela havia escolhido construir. A proteção se tornou uma forma de violência, com consequências que nenhuma reconciliação consegue apagar.

A isso se somam o envolvimento com um homem casado, T. Thomas Fortune, a ameaça da violência racista durante a viagem ao Sul e os obstáculos para publicar seus textos. Mesmo na casa dos van Rhijn, onde encontra trabalho e o apoio de Agnes, Peggy precisa enfrentar o racismo. Ser instruída, talentosa e filha de uma família com recursos não a protege da humilhação. O lugar que conquista continua sujeito à disposição dos outros de reconhecer seu direito de ocupá-lo.

Quando William Kirkland aparece, durante uma doença grave, é compreensível que a possibilidade de felicidade venha acompanhada de algum alívio. Bonito, competente, interessado nela e capaz de enfrentar a própria mãe, ele oferece uma relação que não precisa permanecer escondida. Depois de Fortune, há uma diferença enorme entre ser desejada por um homem e poder construir publicamente uma vida com ele.

É importante, porém, tomar cuidado com a ideia de que William “aceita” o passado de Peggy como se estivesse fazendo uma concessão extraordinária. Ela não precisa ser perdoada por ter perdido um filho, por ter sido enganada pelo pai ou por ter tido uma vida antes de conhecê-lo. Sua história não é uma dívida que levará para o casamento. William demonstra sensibilidade ao ouvi-la e não transformar suas experiências em motivo de rejeição. É uma qualidade dele, mas também deveria ser o ponto de partida de uma relação.

Elizabeth Kirkland pensa de outra maneira. A futura sogra examina a origem de Peggy, sua pele, sua família e suas ambições como se estivesse avaliando uma candidatura. O colorismo e o classismo expõem hierarquias dentro da própria elite negra, na qual a proximidade com determinados padrões de aparência e linhagem se converte em critério de prestígio. O fato de Arthur ter sido escravizado é tratado como uma desvantagem social, em vez de tornar ainda mais significativa a vida que conseguiu construir.

Há uma aproximação incômoda entre Elizabeth e Arthur. Cada um, à sua maneira, acredita saber qual vida seria adequada para o filho. As atitudes e suas consequências são diferentes, mas ambos subordinam o desejo dos jovens a uma ideia de proteção e posição social. Peggy já conhece o custo de permitir que outra pessoa decida o que será melhor para ela. Agora precisa administrar uma mulher que também pretende participar dessas decisões.

Por isso, o noivado não encerra a história. Peggy chega a essa etapa com uma carreira literária ganhando espaço, depois de ter lutado para ser reconhecida como autora. Seu trabalho não é um passatempo destinado a preencher a espera pelo marido. Escrever faz parte da maneira como ela se posiciona no mundo, conquista independência e dá forma ao que pensa.

O conflito profissional anunciado para Peggy e William pode ser mais interessante do que outra tentativa da sogra de separá-los. Até aqui, ele enfrentou Elizabeth para escolher a mulher que ama. A questão seguinte é saber como o casal negociará desejos que talvez não apontem para o mesmo lugar. Quando a oportunidade de um exigir mudanças na vida do outro, o amor precisará se traduzir em escuta, escolhas e concessões que não recaiam sempre sobre a mesma pessoa.

Isso não exige transformar William em vilão. Ele pode ser um homem apaixonado e generoso e ainda carregar expectativas sobre o casamento que só ficarão claras quando forem contrariadas. Peggy também terá de descobrir o que deseja compartilhar e o que não está disposta a abandonar. É nesse encontro entre duas pessoas, com projetos próprios, que o romance ganha densidade.

Depois de tantas histórias em que Peggy precisou sobreviver ao que fizeram com ela, seria bom vê-la participar das decisões sobre o que vem a seguir. Torço pelo casal, mas a felicidade dessa personagem precisa incluir a autora que ela lutou para se tornar. William conhece seu passado. O casamento mostrará como os dois pretendem construir um futuro.


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