A derrota de Johnny Depp

O resultado do processo de difamação de Johnny Depp contra Amber Heard e o The Sun está sendo tratado com “supresa” por alguns meios e pessoas, especialmente diante da imagem segura de si que o ator apresentou durante o julgamento.

A briga judicial do ex-casal foi uma das “atrações da pandemia”, com detalhes absurdos do casamento sendo revelados por ambas as partes, fossem eles escatológicos, deturpados ou até inacreditáveis. A questão central, no entanto, estava lá. Teria Johnny Depp batido em Amber Heard?

Johnny Depp e Amber Heard em 2015 (Getty Images)

Não foi à toa que o ator estava confiante no resultado de sua ação. Johnny era recebido nas ruas com aplausos, Amber, com vaias. Mas a Justiça Britânica deu crédito a atriz, que afirmou ter sobrevivido a um casamento de abusos físicos, psicológicos e verbais em um artigo do Wall Street Journal. Sem citar nomes, ela claramente se referia a Johnny Depp, de quem tinha se divorciado cinco anos após se casarem. O The Sun reproduziu parte do conteúdo, mas citando o ator. Assim nasceu para ele a oportunidade de processar a ex-mulher e o jornal, e, como achava, recuperar sua imagem. Johnny Depp certamente não viu assim, mas o risco era alto. Em tempos atuais, ele pode ter perdido tudo.

Na época em que conheceu Amber, Johnny era uma das maiores estrelas de Hollywood e considerado gente boa, excêntrico, talentoso e bonito. Vivia há décadas com a cantora e atriz Vanessa Paradis, com uma família de três lindos filhos, uma ilha particular, iates, bilheteria, adoração. Aos 50 anos, estava no topo do mundo. Amber estava iniciando a carreira. De beleza estonteante e alinhada com seu tempo, ou seja, presente nas redes sociais, ela sempre foi aberta quanto a sua fluidez no lado sexual, estava ascendendo em papéis coadjuvantes e, certamente, buscando fama. Conheceu o ator quando trabalharam juntos em um filme. Johnny deixou a (aparente) estabilidade emocional por uma paixão, se casando com Amber em pouco tempo. Como Lainey Gossip bem dizia, “uma clara crise de meia-idade de machão”.

O casal em 2016 (Getty Images)

Com a separação, veio o capítulo das “desgraças” para Johnny Depp. Seu estilo de vida chegou ao limite e o ator “faliu”. O acordo de divórcio não foi nada amigável, se arrastou na Justiça americana por meses, mas, quando fechou, deu à Amber sete milhões de dólares, nada significativo para um ator que ganhava 20 milhões por filme, mas que lutou para pagar muito menos que isso. Ainda assim ela decidiu não ficar com nenhum centavo. Doou todo valor para o movimento de defesa de mulheres que sofrem abuso doméstico. Foi este gesto – bastante público – que determinou a vitória dela na Justiça Britânica. E é importante.

Para quem cresceu nos anos 1980s em diante, Johnny Depp era um “Deus”. Ele tem o apoio de artistas famosos que testemunharam em seu favor, incluindo as ex, Vanessa Paradis e Winona Ryder. Mas Johnny, bem como um homem de seu tempo, usou o processo para difamar Amber, insistindo na acusação (outrora infalível) de chamá-la de “oportunista”. Um erro.

O casal em 2016

Se um dia isso fosse o suficiente para dar a ele “a razão”, ainda bem, não é mais. Na visão machista, Johnny é a vítima e qualquer ação errada da parte dele foi justificada como autodefesa. Ele “caiu no golpe” ao deixar uma união de mais de dez anos para se casar com Amber, ele “deu tudo que ela não tinha”, gastando tubos para proporcionar um estilo de vida de luxos e privilégio, de mimos. O ator chegou a dizer que voltou à drogas “por influência e participação dela”. Em resumo? Um homem de 50 anos que não tinha voz ou personalidade, dominado por uma “vilã” que só quer destruí-lo.

Defender Amber não é tão fácil quanto deveria parecer. No processo várias testemunhas relataram histórias que não são nada positivas. Mas, seja o que for, ela deve ser (trocadilho involuntário com seu sobrenome), escutada quando se trata de agressão.

Acompanhei o processo de queixo caído. Por mim, os dois perderiam. O relacionamento deles praticamente reescreveu a descrição de tóxico. Baixaria parecia ser o tom do “amor” dos dois. Um pesadelo, tudo em excesso e nenhuma dignidade.

A falha na acusação de Johnny Depp é usar um argumento ultrapassado e reduzir a motivação como financeira. Cai facilmente por terra depois que Amber Heard abriu mão de cada centavo para caridade.

Amber Heard é uma pessoa complexa e alguns testemunhos relevantes indicaram uma apropriação nociva de histórias alheias para sua narrativa. Ainda assim, nada disso elimina a questão de que ninguém comprova que ela não tenha sido agredida pelo marido.

“O requerente [Johnny Depp] não foi bem sucedido na sua ação de difamação dizendo que o The Sun, em sua matéria de 2018, com o título chamando Depp de ter “agressor de mulheres” fosse substancialmente incorreta”, disse o juiz lembrando que examinou as 14 acusações de agressão que Amber anexou ao processo. “Não foi necessário considerar a razão do artigo ou de malícia por parte da acusada [Amber Heard] porque são irrelevantes para a defesa da verdade”, acrescentou.

O casal em 2015, na Austrália, onde Amber acusa Depp de ter a agredido (Getty Images).

A dor de cabeça para o ator não pára com essa derrota. Embora no artigo do WSJ ele não tenha sido citado nominalmente quando Amber escreveu sobre ter sobrevivido à violência doméstica, agora ela o acusa de difamação por acusá-la de mentir sobre ele. A defesa da atriz argumenta que Johnny Depp quer calar vítimas de violência e que Amber, não pode perder sua voz. A Justiça americana pode ter outro entendimento, mas seria aconselhável que Johnny Depp desistisse de posar como vítima indefesa e reconhecesse seu papel em um drama que nem a ficção conseguiria inventar.

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