Mesmo se estiver errada, onde está o perigo de condenar Amber Heard

Em 2020, escrevi aqui sobre advogadas que defendem criminosos sexuais, listando os casos de Harvey Weinstein e Ghislaine Maxwell, que tiveram em suas equipes de defesa algumas das profissionais mulheres mais respeitadas dos Estados Unidos, Donna Rotunno e Bobbi Sternheim. Os dois casos eram – como nós leigos achamos – “indefensáveis”. Ainda assim, como todos têm direito à defesa dentro do sistema judicial americano, sempre haveria alguém que os defendesse, independetemente do gênero. Não posso nem vou julgar como elas, como mulheres, aceitaram o desafio. Os dois casos terminaram em condenação, porque as provas eram irrefutáveis, assim como os testemunhos apresentados. Ambas ainda estão recorrendo, como a lei também permite.

Chegamos então em 2022 na novela que tem movimentado o mundo, mais do que notícias que realmente afetem nosso cotidiano, a disputa entre Amber Heard e Johnny Depp sobre as acusações de violência doméstica e abuso sexual. No processo que foi conduzido na Inglaterra, em 2020, o ator perdeu para ex-mulher, assim como outro movido nos Estados Unidos, mas não desistiu da briga. Agora que “perdeu sua carreira”, ele quer limpar seu nome das acusações de violência doméstica, abuso psicológico e até estupro, algumas das horripilantes histórias que a atriz o acusa (agora abertamente). Não há meio termo, os dois mutualmente alegam completa inocência. Minha opinião pessoal é que os dois estão dizendo a verdade. E que ambos beiram o absurdo…

Johnny Depp já era uma estrela adorada quando se casou com uma relativamente desconhecida Amber Heard, em 2015. A curta relação dos dois foi repleta de agressões, bebedeiras e drogas, com um final que escapou a tragédia (ou não escapou), por pouco. E aqui está a grande questão do drama. Em tempos pré-Metoo, mulheres que acusavam os homens de algum crime eram destruídas inclusive por outras mulheres e geralmente eram apontadas como oportunistas. Dessa forma, o machismo vencia e muitas vítimas se calaram e/ou perderam suas vidas. O que a defesa do ator nos quer provar é que Amber, por loucura, maldade ou oportunismo, inventou ou inverteu as agressões e que está cometendo perjúrio ao manter a mentira sob juramento.

Confesso que custo a acreditar em tudo que ela conta, mas, se Johnny Depp vencer, abre o caminho outros homens calarem denúncias, como Brad Pitt que pode também considerar fazer um circo contra Angelina Jolie, que o acusa de crimes semelhantes aos que Amber credita à Johnny. O mesmo se aplica a Rachel Evan Wood, que denunciou Marilyn Manson. Complexo, gente. Muito complexo. Eu não acredito 100% em Amber, mas acredito em Angelina e Rachel Evan, por exemplo. Acredito em todas que acusaram Weinstein e Epstein. É uma sinuca. Porque até hoje, não é à toa que todas as mulheres que ousam acusar um homem, ainda mais se famoso, sejam Amber, Angelina, Rachel Evan ou Mia Farrow, são todas chamadas de ‘loucas’. Muito fácil colocá-las nessa caixinha e manter os ídolos heteros e machos como heróis.

Amber Heard não tem uma figura simpática e não diz coisas legais sobre o cara que todo mundo considera gente boa. Angelina também alega que as agressões de Brad Pitt não foram restritas a um voo infeliz e está brigando com o ex há anos para definir a custódia dos filhos. Como ela ousa atacar o galã de ouro de Hollywood?

Durante o processo, a advogada Camille Vasquez, que defende Johnny Depp, virou uma sensação. Firme, ela confrontou Amber Heard ferozmente, colocando a atriz na defensiva – ressaltando assim seu lado antipático – e cutucando as falhas na narrativa (existem muitas), que foram se adaptando de acordo com o tempo. Por conta das fotos e imagens que mostram a interação carinhosa dela com o cliente, a Internet (esta entidade “incontrolável”) passou a insinuar (e torcer) que exista algo a mais entre Camille e Johnny. A advogada se recusou a comentar.

Ela se formou em Direito em 2010 (estudou Comunicação antes) e tem 37 anos. Especialista em representar a parte acusadora em processos de difamação, este é seu primeiro caso envolvendo celebridades. Certamente o primeiro de muitos, não importa o resultado.

Camille foi implacável. Acusou a atriz mentir, de ter inveja, “ciúmes” do ex-marido e até de editar fotos para deixar os hematomas mais aparentes. Porém, quando saiu do fato de questionar o que aparenta ser incongruente, adotou a velha fórmula de “diminuir a mulher”.

Dou dois exemplos, a começar com o fato de que Johnny Depp ostensivamente “não olha para Amber Heard“. Já estava claro, mas a advogada fez com que isso ficasse registrado nos autos, apresentando a gravação onde Johnny Depp não apenas prometeu a Amber Heard que ela “jamais veria seus olhos novamente” como cumpriu sua palavra. Como um roteiro de filme, através de Camille, Johnny passou seu recado para Amber e tornou pública a conversa entre os dois.

Em seguida, provocando a atriz que revira os olhos, bebe água e faz caretas, a advogada ofende Amber, afirmando que foi o astro que conseguiu para ela o papel na franquia Aquaman. “Desculpe?!”, Amber respondeu quase perdendo a compostura. ” “Não, senhorita Vasquez, eu consegui esse papel fazendo testes”, retrucou. Mas a insinuação de que a atriz teria usado o casamento para avançar em sua carreira também passou a fazer parte do processo. Indignante. É fato de que sua ligação com Johnny fez de Amber uma pessoa (mais) conhecida, mas ela já trabalhava na indústria e até pode ter tido acesso ao teste para a franquia por estar circulando com as pessoas que a ajudariam, mas a escolha de contratá-la não foi de Johnny Depp.

Camille conseguiu trazer o pior de Amber para as redes sociais. A falta de coerência nas acusações, a vida nada ortodoxa do casal, antes colocadas apenas nos ombros do ator, foram inteligentemente invertidas para a atriz, que, volto a dizer, não tem uma figura empática. Mas falta de empatia não significa que teríamos que comemorar a perpetuação de um comportamento errado. Lamentei o que vi e não sou team Amber.

Por exemplo, quando a advogada apertou a atriz até que ela admitir não ter feito as doações prometidas após receber 7 milhões de dólares no acordo do divórcio, foi bem mais pertinente. Isso porque Johnny Depp sempre questionou a intenção da ex, tendo oferecido fazer as doações diretamente e encontrando a recusa dela. Provar que ela teria mentido nesse fato é de extrema importância – para ele – afim de questionar todo o resto que ela venha a dizer. E ela mentiu.

Depois de arfimar que tinha feito sim as doações em mais de uma entrevista e inclusive nos processos em que prestou juramento, Amber agora alega que não pôde cumprir sua palavra porque passou a estar envolvida nos processos judiciais, que são caros e interromperam seu plano original. Essa admição, mesmo com as explicações que a atriz ofereceu, são importantes para o caso de difamação e indiretamente coloca em cheque as intenções da atriz em todo o relacionamento, como Johnny quer questionar.

Até o momento, Amber Heard tem vencido todos os processos, mesmo quando ela não parece ter vantagem. A diferença agora é que as redes sociais parece estar a favor de Johnny Depp, o poupando de memes e gifs, mas viralizando cada detalhe da maneira de Amber Heard falar ou agir. Tá, “meu cachorro pisou em uma abelha” – tirado do contexto – é engraçado, assim como o filtro chorando do Snapchat, mas essas piadas são nocivas, incorretas e retrógradas.

Para Donna Rotunno, advogada de Harvey Weinstein em 2020, o sucesso de Camille Vasquez e a reação das redes sociais é que, apesar da gravidade do que Amber revelou (ter sido violentada com uma garrafa pelo marido), o processo não julga as supostas agressões, mas sim a difamação. “As pessoas estão muito dispostas a apoiá-los porque não têm medo de serem canceladas por isso”, concluiu a advogada.

É perigoso condenar Amber Heard pelo que revela. Se estiver mentindo e for comprovado, vai pagar. Mas é tênue transferir sua história para “todas mulheres” que fazem acusações semelhantes. Por essa razão, a complexidade e importância do julgamento em tempos tão binários. Ainda acho que ela pode – pela terceira vez – ter sua versão aceita. Seguimos acompanhando.

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