A emocionante história de Tanaquil Le Clercq

A história de Tanaquil Le Clercq merecia um filme, mesmo para os que não conhecem ballet. Além de ter tido um papel primordial no desenvolvimento da dança nos Estados Unidos (foi aluna, depois musa e mulher de George Balanchine) ela tragicamente foi vítima da polio no auge de sua carreira, perdendo o movimento das pernas para o resto de sua vida. Ela faleceu há quase 20 anos (31 de dezembro de 2000), em Nova York. Deixou um repertório que até hoje é dançado pelo New York City Ballet, e é uma das histórias mais emocionantes da Arte no século 20.

Nascida em Paris, mas criada nos Estados Unidos desde os três anos de vida, ela despertou o interesse pela dança desde cedo. Com apenas 12 anos foi uma das jovens que Balanchine selecionou para sua escola na América. Se destacou tanto que em apenas quatro anos ele já a escolhia para estrelar suas produções. Algumas das peças, consideradas brilhantes e dançadas até hoje, são Symphonie Concertante e Elegie.

Em um macabro sinal do destino, o primeiro papel principal de Tanny, como era chamada, foi justamente profético. Balanchine criou especialmente para ela uma coreografia dançada em um evento beneficente contra a polio. Tanny era a bailarina sem movimento das pernas e Balanchine ele mesmo o papel que representava a doença. Dez anos depois a realidade faria lembrar ainda mais dolorosamente a ficção daquela noite.

Tanny era linda, irreverente, alta, musical, intensa e ágil, estabelecendo o padrão de bailarina que Balanchine recriaria múltiplas vezes no futuro. Ela foi a primeira a dançar Four Temperaments, Serenade e Symphony in C, obras que ainda fazem parte do repertório da companhia. Seu cambré (o movimento inclinado com as costas) em La Valse é ainda lendário, mas seus papéis mais memoráveis foram em dueto com Jerome Robbins tanto em Bourrée Fantasque como Afternoon of a Faun e The Concert. “Tanny podia fazer qualquer coisa”, disse Jerome sobre ela. (Vídeos no final do artigo)

Além de Balanchine, Merce Cunningham, John Cage, Frederick Ashton e Antony Tudor também criaram balés especialmente para ela. A relação com o professor e mentor evoluiu, como era hábito para ele, para amor. Os dois se casaram quando ela tinha 23 anos e era uma das maiores estrelas da dança. Os anos seguintes foram de total sincronia entre amor e dança, com Tanaquil como a musa adorada do gênio e amada pelos colegas. Até que veio a turnê na Europa.

No final dos anos 1950s, um surto de poliomelite assustava o mundo. Antes de viajar, muitos bailarinos foram vacinados, mas Tanny foi um das que decidiu embarcar sem tomar medicação. Há a a triste lenda de que, em Veneza, ela teria entrado em uma brincadeira de “verdade ou mentira”, que no original demanda “desafio ou verdade”, tenho aceitado o desafio perigoso de molhar o dedo nas águas do canal e depois o colocar na boca. Nunca se confirmou o fato, mas, ao chegar em Copenhague, ela começou a se sentir mal. Os músculos enrijecidos das pernas eram mal sinal e depois de ser hospitalizada foi confirmado o pior. A bailarina tinha contraído poliomelite e em pouco tempo ficou paralisada da cintura para baixo. Nunca mais andou.

Foram meses internada na Dinamarca e um hospital especializado no tratamento de polio, mas foi irreversível. Com apenas 10 anos de carreira e menos de 30 de vida, a jovem sapeca e energética Tannaquil passou a se locomover de cadeira de rodas.

De volta à Nova York, Balanchine parou de trabalhar por um ano inteiro apenas para se dedicar à esposa. A adaptação não foi fácil para ela, mas aos poucos foi reencontrando a felicidade.

O casal vivia no histórico prédio Apthrop, em Upper West Side, a algumas poucas quadras do teatro e estúdio do New York City Ballet. Tanny e Balanchine recebiam amigos para jantares elaborados. Algumas das receitas fizeram parte do livro The Ballet Cookbook, que ela escreveu, assim como o livro infantil Mourka: A Autobiografia de uma gata, que era sobre uma gatinha que foi treinada por Balanchine e frequentava os ensaios da companhia. Fotografia e palavras-cruzadas também foram paixões que Tanny desenvolveu, tendo criado vários quebra-cabeças até para o New York Times.

Depois de alguns anos, a dança voltou a preencher o tempo de Tanny, que ensinou seus papéis para novas bailarinas e foi professora do Dance Theater of Harlem, mostrando os passos apenas com os braços e as mãos. Ela esteve presente no aniversário de 50 anos do New York City Ballet, em 1998, e foi ovacionada no teatro lotado quando subiu ao palco na cadeira de rodas.

O casamento com Balanchine, no entanto, acabou em divórcio, em 1969, quando ele se apaixonou por outra jovem bailarina. Os amigos sentiram pelo destino cruel, mas Tanaquil recuperou o entusiasmo pela vida, se recusando a se vitimizar pelo ocorrido.

Em 2000, Tanaquil acabou tendo uma pneumonia que custou sua vida. Ela tinha 71 anos e a comunidade da dança sentiu sua morte. Com 10 anos de carreira, ela teve o impressionante número de 32 ballets criados especialmente para ela. A moda também fez uma homenagem à sua memória, em 2004, com a coleção criada por Alberta Ferretti em sua homenagem. Há poucos livros sobre a vida de Tanaquil Le Clerc, mas sua força, seu sorriso e mais do que tudo seu talento, serão sempre fonte de inspiração. Isso, nem o tempo pode apagar.

Veja Tanaquil Le Clercq e Jacques D’Amboise em Western Symphony

Mais sobre ballet

A carreira de Tanaquil Le Clercq

E alguns trechos de Tanny dançando com Maria Tallchief:

La Valse

Afternoon of a Faune

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